Professor Macarrão com Sardinha – Nilson Santos

PROFESSOR MACARRÃO COM SARDINHA

 

Nilson Santos

UFRO – professor do Depto. de Educação

Depois de pelo menos oito meses marcando e desmarcando, conseguimos sair de Porto Velho, e ir para Guajará Mirim, onde deveríamos fazer contato com as escolas da Reserva Extrativista de Seringueiros do Rio Ouro Preto. Este longo tempo de espera para eles na verdade não representou mais que exercício de paciência. Apesar de nossa disposição e o grande interesse, ficamos exercitando noites de conversas e cafés num contínuo marca e desmarca, recheado dos casos de onças traiçoeiras e cobras grandes.

Esta espera, na medida em que se tornava cada vez maior, foi permitindo ler mais sobre as vivências, a produção, os pesadelos, as deficiências, e necessidades deste tipo de vida.

Chegado o dia, e por mais uma vez quase suspenso, devido desistência da professora que nos acompanharia por problemas de saúde, fomos à rodoviária para viajarmos à Guajará Mirim.

Os horários de ônibus são, via de regra, pouco adequados aos passageiros, e como só conseguimos a confirmação definitiva com a Organização de Seringueiros de Rondônia – OSR, uma hora antes de partirmos, acabamos optando por fretar um táxi para a viagem, já que este tipo de serviço é tão usual quanto os ônibus, ocorrendo em todas as cidades do Estado.

Porém, como é da essência do capitalismo a expropriação legítima, não fugimos à regra. Como não temos sotaque nortista e nem a pele bronze, infantilmente confiamos no taxista, que nos apresentou o preço do transporte 50% mais caro que costumeiramente, desta sorte acabamos por concretizar mais uma operação genuinamente capitalista.

A viagem que deveria demorar aproximadamente quatro horas acabou por tomar-nos oito, pois, os infindáveis e traiçoeiros buracos da única estrada semi-asfaltada que corta dois Estados (Acre e Rondônia), obrigava o motorista a realizar freadas e manobras pouco recomendáveis em situação normal de tráfego. Além disto, o pneu estraçalhado e a proteção da calota que literalmente voou no meio da mata, por causa de um imenso buraco, obrigou-nos a ter cuidado redobrado, já que o estepe teve que ser utilizado.

A menos de meia hora da cidade, uma fina fumaça foi se intensificando repentinamente devido à grande queimada na margem esquerda da estrada, nos fez diminuir a velocidade e ficar atrás de um caminhão carregado com três toras de mogno com pelo menos dois de diâmetro cada, ilegalmente retiradas. Ao realizar a ultrapassagem um cavalo andando tropegamente pelo meio da pista surgiu em meio a fumaça obrigando o taxista a fazer uma manobra que retirou duas rodas da pista inclinando muito o carro que quase capotou, mas conseguindo escapar do impacto frontal.

Chegamos no meio da madrugada em Guajará Mirim e optamos por dormir algumas horas e tomar banho num pequeno hotel que ainda dispunha de dois quartos. Durante o café da manhã soubemos que ocorrera um acidente fatal na estrada com o cavalo sendo atropelado por um caminhão. O impacto arremessou o cavalo dentro da cabina, matando o motorista instantaneamente.

Com os primeiros raios de sol fomos à sede da Associação de Seringueiros, quase na margem do Rio Mamoré, onde uma das lideranças da OSR nos aguardaria, para pegarmos o barco e rumarmos para as colocações dos seringueiros. Lá chegando soubemos que ainda aguardavam o envio de dinheiro de Porto Velho para realizarem a compra de combustível e alimentação. No final da manhã, quando conseguiram sacar o dinheiro no banco, uma chuva copiosa, que durou pelo menos quatro horas, impediu que saíssemos.

Enquanto aguardávamos o fim da chuva, encontramos na sede da Associação, um dos professores que atua na reserva. Bastante novo, não mais de dezessete anos e o único com metade da formação em Magistério, estava na cidade há mais de duas semanas. Viera buscar seu salário, e estava aguardando no alojamento da associação há pelo menos três dias alguma embarcação que subisse o rio para poder voltar para a escola. Aproveitamos e conversamos longamente sobre seu trabalho.

Disse que é o mais antigo de todos os professores, que está há mais de quatro anos dando aulas para os filhos dos seringueiros e que tem usado com sucesso a Cartilha Pipoca intercalada com outras duas: Integrando o Saber e Integrando o Conhecimento para evitar que os alunos decorem facilmente as lições. Disse com certo orgulho que no ano anterior todos os seus alunos passaram de ano e por isso acredita que cumpriu plenamente seu objetivo. Citou o caso do pai que mandou o filho para estudar na cidade e repetiu de ano, pois ficou gazeteando. Agora, de volta para o seringal, com o professor morando na mesma colocação, tem estudado bastante e já passou de ano. Afinal nas colocações “não tem como brincar muito”, se não estão estudando, estão trabalhando no corte da seringa.

Além disso, alfabetizou trinta adultos por conta própria, para isto, usou a Cartilha Pipoca de traz para frente, por se tratarem de adultos. Como eles já sabem “alguma coisa de números e algumas letras”, achou por bem inverter a cartilha, e afirma que todos os trinta estão agora alfabetizados.

Pretendia discutir melhor com ele sobre o que estava realizando, mas não me senti no direito, pois a convicção que tinha lhe garantia forças, sentido e método para continuar a trabalhar.

No dia seguinte, por volta das 15:00 horas, fomos à beira do rio para prepararmos o barco, mas  a alimentação, que tratam por rancho, típica herança do vocabulário militar, ainda estaria sendo enviada pela taberna.

Neste meio tempo, como fazia forte calor, resolvi procurar algum bar ou taberna para comprar uma garrafa de água mineral gelada. No primeiro barzinho a senhora que me atendeu disse ter somente Coca-Cola, Há pelo menos cinco horas de distância de qualquer cidade e na fronteira com a Bolívia, era mais fácil encontrar Coca-Cola que água!

No segundo, muito embora também tivessem somente Coca-Cola, a dona, maternalmente disse que eu não iria embora sem água gelada. Disse a ela, que queria a água em recipiente plástico fechado, porque queria levá-la para que outras pessoas também pudessem beber. Ainda assim, a senhora abriu o velho freezer e retirou uma garrafa descartável de dois litros de Guaraná Antárctica ainda com o rótulo, cheio de água e me entregou. Não quis cobrar, pois disse que é a natureza quem nos dá a água.

Esse tipo de atitude é muito comum por aqui, se opondo à lógica corriqueira de qualquer relação comercial que alimenta os fornos do Capital. Anos depois retornei a este mesmo local e as antigas barracas e tabernas tinham dado espaço a um estacionamento de carros

Duas horas depois, e ainda pensativo na água gelada que recebera, finalmente chegam os alimentos. Colocamos as caixas no barco, para iniciarmos a subida do rio com quase dois dias de atraso.

Navegamos por três horas, quando então avistamos a primeira moradia, ela ficava na margem esquerda do rio. Os rios da Região Amazônica, quando vistos do alto, se assemelham à imensas serpentes, pois raros são os trechos que as águas percorrem em linha reta, sempre se apresentando num combinado de curvas à direita e à esquerda, num compasso interminável. Digo interminável porque depois de seis dias subindo o rio, a sensação de que aquilo não tem fim passa a ter caráter de certeza.

Nos trechos de linha reta de uns poucos rios, onde as margens se alargam bastante, com quase 500 metros de lado a lado, as águas tem movimento muito suave, eliminando as ondulações, criando uma espécie de espelho que copia o desenho das árvores de cabeça para baixo, clones que a natureza reproduz diariamente, sem os perigos e dramas éticos da engenharia genética, sugerindo um crescimento para baixo, para o subterrâneo, alimentando a recorrente idéia mítica das árvores que fazem a ligação da terra com o céu.

O Rio Pacaás Novos divide duas reservas: à esquerda, está a Reserva Indígena dos Pacaás Novos, e à direita a Reserva Extrativista de Seringueiros do Rio Ouro Preto.

Desta forma, apesar das moradias e do posto da FUNAI ficarem na margem esquerda, os técnicos proíbem qualquer forma de contato dos brancos com os índios sem sua prévia autorização, proibindo também os Pacaás Novos de darem abrigos aos brancos, mas não tínhamos outra opção, pois, já era noite e a próxima colocação de seringueiro deveria estar há pelo menos meio dia de viagem. Acabamos não tendo alternativa e dormimos neste local.

Com a noite apareceu a imensa mancha branca formada por um infindável número de estrelas no céu, normalmente visível somente longe das luzes da cidade. Com ela, demarca-se a fronteira do dia e do trabalho, chegam também outros limites. De agora em diante banho somente com a luz do dia, pois, os jacarés têm hábitos noturnos e tomam as margens dos rios; luz, somente de lamparina à querosene, o que me obrigou, por vezes, anotar sem conseguir ver onde escrevia, pois a luz não era suficiente para ver as linhas do caderno, obrigando tomar apenas algumas anotações dispersas na folha de papel, e retomá-las no dia seguinte.

Paramos ali mesmo e começamos a retirar todo material da voadeira.

Na beira do rio, havia um pequeno caldeirão de alumínio, um pedaço de sabão, e uma bucha boiando, o que fez Paulo, o seringueiro que nos acompanhou, suspeitar que estivéssemos numa colocação de seringueiro.

Não havendo ninguém pela redondeza, entramos e começamos a colocar nossas caixas num canto do assoalho. Pelo terreiro, dois cachorros e três gatos famintos e magros perambulavam. Tudo fazia crer se tratar de colocação de seringueiro. Paulo acendeu o fogão (a gás), pegou as panelas (de alumínio) numa prateleira improvisada, enquanto Zé, outro seringueiro que estava conosco, ligou o rádio à pilhas, que estava pendurado na parede, junto ao despertador à corda, já preparado para despertar às quatro da manhã. Acendi a lamparina de querosene que estava sobre a mesa, junto a um rabo branco, duro e fino, sinal que houvera recentemente um guisado de tatu. Até este instante não havia surgido nenhum dos moradores. Fiquei muito incomodado com aquela atitude, afinal entramos, estávamos fazendo comida, e iríamos dormir sem saber de quem era a casa e se o dono não se oporia a hospedar cinco pessoas estranhas.

No rádio, após o programa que fazia novela de textos bíblicos, começamos a ouvir pagodes e músicas em inglês alternadas.

Como a luz era insuficiente, percebi que os outros sentidos eram mais exigidos e orientavam nossas ações na cozinha. Para saber se a água do arroz havia secado ou não, era necessário ficar atento ao ruído da panela, para saber o momento em que o arroz começava a grudar no fundo da panela o olfato era fundamental. Com a carne seca, o barulho já constante do borbulhar e o forte calor da panela, “mostrava” que a fervura para a retirada do sal estava completa. Colocamos um pouco de extrato de tomate na carne, com certeza, não para que a coloração avermelhada desse aparência melhor ao prato, mas meramente pelo hábito.

Quando estávamos com a refeição pronta, chega um casal, num pequeno barco à remos. O luar e o brilho das estrelas ajudaram a iluminar o rio e o terreiro, revelando ao longe apenas a silhueta. Aparece na entrada um casal de estatura bastante reduzida. Apesar das evidências anteriores nos fazerem crer se tratar de uma colocação de seringueiros. Estávamos enganados, os moradores eram Pacaás. Ao final desta visita, percebi que os hábitos, o tipo de construção de moradia, os procedimentos do trato com a roça de macaxeira, com a farinha, e até os instrumentos de caça e pesca são os mesmos entre os Pacaás e os seringueiros. Ambos sabem pescar com arco e flecha ou anzol e linha de nylon, muito do vocabulário dos índios e dos seringueiros coincidem além gostarem do mesmo estilo de música e de conhecerem o uso, para pescaria, do cipó timbó, que ao ser macerado na flor d’água, libera uma substância que atordoa os peixes num raio de ação grande, paralizando-os e fazendo-os boiar de barriga para cima como se estivessem mortos quando então são apanhados. Este veneno é bastante volátil e rapidamente se dissipa não sendo prejudicial ao homem.

Paulo se adiantou, apresentando o grupo, dizendo que iríamos ficar por aquela noite com eles, e que estávamos indo para as colocações dos seringueiros que ficam rio acima.

Os moradores disseram que não haveria problema, e que poderíamos ficar à vontade.

Desceram para a beira do rio, onde grande parte das atividades domésticas acontece, para limpar os peixes que trouxeram e para tomar banho, pois, quando voltaram inundaram o lugar com forte perfume adocicado e de alguma forma familiar, que depois de algum tempo consegui identificar: Leite de Rosas.

Oferecemos a comida, mas eles não aceitaram. Enquanto comíamos e conversávamos, ficaram sentados na escada de entrada, e em silêncio nos observavam e sorriam muito, levando a mão ao rosto para esconder os dentes. Quando terminamos de comer, e enquanto arrumávamos nossas coisas, foram para a beira do fogão e fritaram os peixes que trouxeram, comendo-os com arroz.

Fiquei por um bom tempo na beira do rio sorvendo lentamente o cachimbo e olhando o reflexo das estrelas nas águas do rio. Quando as picadas dos carapanãs passaram a incomodar bastante, subi o barranco para dormir. Apesar de não ter sono, sabia que ao escurecer pouco resta a fazer senão se acomodar na rede.

Embora sem vê-los bem, percebíamos que não se incomodaram com a nossa presença, e que nos observavam o tempo todo, como se fosse o único programa que sua TV pegava. Qualquer movimento que fizéssemos, qualquer coisa que dizíamos era sempre acompanhado por eles, que ficaram sentados num banco de madeira entre as redes.

Deveria ser mais ou menos nove da noite quando começamos a amarrar nossas redes com os donos da casa nos acompanhando todo o tempo com o olhar. Continuaram assim mesmo depois de estarmos deitados há mais de meia hora quando então amarraram suas redes. Desligaram o rádio somente depois da meia noite e foram dormir.

Por volta das três horas, instantes antes do despertador disparar, o casal ligou o rádio, e por mais de duas horas, fomos convidados a ouvir um programa sertanejo recheado de recados e avisos sobre quem estava na cidade e queria localizar algum amigo, sobre o nascimento de crianças no seringal, sobre quem subia ou descia o rio, revelando um pouco da vida do lugar. Terminado o programa desligaram o rádio e conseguimos dormir por mais uma hora, quando o surgimento das primeiras luzes do dia nos fez despertar definitivamente. Desarmamos as redes e recolocamos as coisas no barco, foi quando vimos os semblantes dos nossos anfitriões da noite anterior. Enquanto terminávamos de carregar o barco, a mulher foi lavar roupa no rio. Há alguns passos de nós, ele ficou acocorado no terreiro, entre a roupa ensaboada e o barco olhando calmamente à todos.

Enchemos ainda uma garrafa térmica de café, para tomarmos no caminho, e nos despedimos reiniciando a subida do rio. Enquanto era possível vê-los na margem, eles ficaram estaticamente nos olhando. Por muito tempo, só vimos malocas na margem esquerda, estranhamente elas estavam dispersas, raramente vimos várias delas juntas formando uma aldeia, pareciam casas de pequenos produtores. Pelo meio da manhã, avistamos a primeira colocação do lado direito, agora de seringueiros. Resolvemos então parar para comer alguma coisa.

A atitude não foi diferente. Chegamos, fomos entrando direto na cozinha e conversamos com a dona da casa. Bastante jovem, não mais de dezesseis anos, com o bebê recém-nascido ao colo, que fez questão de mostrar a todos.

Enquanto Paulo entregava o pó de café e o açúcar para que ela pudesse levar ao fogo perguntou pelo marido, já que o conhecia. Ela afirmou que ele fora caçar no dia anterior e ainda não voltara.

Enquanto a conversa se desenrolava na cozinha, vi na beira do rio uma pedra bastante lisa e gasta, boa para amolar. Desci a escada e fui amolar meu canivete. Na volta, nos degraus de entrada, vi quatro grandes papagaios, mansos e muito falantes, estiquei o dedo e um deles subiu em minha mão abaixou a cabeça e fechou os olhos. Entendi o pedido e enquanto andava pelo terreiro fiquei passando o dedo suavemente pelas suas pequenas e eriçadas penas azuis da cabeça. Vi alguém tecendo uma grande rede de pescar, cumprimentei, mas não tive nem sequer um olhar de volta. A dona da casa disse do girau que ele não falava. Fiquei observando-o e a seu trabalho por um tempo, era deficiente mental, e não mudo, dono de habilidade incomum com a rede de trançado muito complexo, mas olhar muito sinistro.

Coloquei o papagaio de volta, mas ele ficou balançando as asas, e, aos gritos, subiu novamente no dedo.

O cheiro do café estava convidativo. Enquanto enchia os copos com a concha, Dona Maria, mãe da recém-nascida Eliane, disse que descansara há 10 dias. Pensei por alguns instantes e percebi então que a expressão descansar, apesar de estranha aos meus ouvidos, era muito pertinente, afinal “parir menino” depois de nove meses gerando uma criança sem deixar de lado os afazeres domésticos, com certeza seria em certo sentido descansar de alguns desconfortos da gestação.

No alto da prateleira havia uma fôrma para fazer sapatos de látex, que Maria diz ser de seu pai, velho seringueiro que sabe fazer sapatos até com sola dura. Pega-se a fôrma e aplica-se uma série de banhos de látex formando então uma camada espessa que coagula e adere à forma. Depois disso é levada para secar diretamente ao sol por mais de vinte dias, até que fique escura, quando então é retirada da fôrma e são aparadas as rebarbas e retirados os excessos com faca bem afiada. Normalmente a sola fica fina, sendo por vezes facilmente perfurada por espinhos ou pequenos galhos no chão. Para que fique mais resistente, coloca-se no solado da fôrma uma espessa mistura de estopa embebida também em látex, que com novos banhos fixa-se, formando um solado mais alto, denso e muito resistente.

Nas colocações de seringueiros grandes painéis que tomam a parede inteira, são feitos de recortes de revistas coloridas sempre com páginas em que aparecem figuras humanas. Aparentemente não há uma seleção específica. Basta ter alguma pessoa. Fotos do Papa convivem pacificamente, lado a lado, com fotos de Claudia Raia nua, ladeada de famintos africanos, fotos de astronautas russos, carnaval, artistas, desconhecidos, mulheres fazendo propaganda de cigarros, soldados atirando, representam a presença de estranhos e a companhia para os intermináveis dias de completo isolamento.

Além de talvez suprirem a solidão com a presença de várias figuras humanas, é como se esta fosse a marca de sua identidade civilizatória, de sua cultura, e dissessem: este é o povo ao qual pertenço, revelando a identidade da práxis social que de alguma forma reconhecem, reproduzem e recriam.

Reforçando a idéia de miscelânea cultural, e a superposição de significados que ocorre a partir dos espaços estabelecidos na convivência de índios e seringueiros, Maria disse que na noite anterior, na aldeia dos Pacaás mais próximo, do outro lado do rio, aconteceu uma festa, porém, como estava com a criança ainda muito pequena, e acabou não indo. Perguntei como era a festa e ela me disse que eles ligam o aparelho de som bastante alto, tocando fitas com forró por toda a noite, e que bebem muita chicha, feita à base de milho verde, mastigado e fermentado por alguns dias, com sabor semelhante à cerveja sem pasteurizar, de cheiro levemente azedo e coloração amarelo queimado e leitoso, com textura cremosa e fibrosa. Mesclam assim, a forma antiga das festas, dançam e bebem por toda a noite, porém o som hight tech, comprado na fronteira com a Bolívia, substituiu a música nativa, a chicha e o pagode convivem perfeitamente. Desta forma é possível ver nestas festas atendidos os gostos e necessidades dos pacaás-seringueiros, ou dos seringueiros-pacaás, carregados de nova significação, fruto da realidade ré-criada e acomodada com novos elementos.

Fomos embora, deixando para traz, a recém chegada Eliane e o Forró dos

Pacaás.

Três horas mais adiante, chegamos à outra colocação com quatro construções. Uma delas era a escola, compreenda-se escola por construção de duas salas: numa mora o professor e na outra estão as carteiras, onde crianças de 7 a 10 anos freqüentam as mesmas aulas, num regime multiseriado, ou seja o professor dá aulas para as quatro séries concomitantemente. No local encontramos umas dez crianças, todos os adultos foram para a cidade no dia anterior e voltariam somente no dia seguinte. Com elas encontramos a chave do cadeado da escola, abrimos e entramos.

É impressionante como conseguem reproduzir o modelo tradicional de escola, com mobiliário muitas vezes improvisado ou bastante depreciado, porém com distribuição espacial inconfundível.

A mesa de tábuas rusticamente cerrada com a motosserra no canto da sala, ao lado da lousa é imprescindível, mesmo que seja raramente usada pelos professores. As carteiras, enfileiradas, identificam o lugar dos alunos.

As salas além de pequenas são muito quentes, não respeitando as necessidades do lugar. Construídas de tábuas, não apresentam as frestas existentes nas colocações, provocadas pelo tamanho ou corte desigual, impedindo a ventilação mínima. Além do mais, como a orientação da construção das salas de aula veio de uma empreiteira contratada pela prefeitura, a construção obedece a padrões urbanos, impróprias para o forte calor da região. A cobertura é feita com telha de amianto sem forro, o que torna o ambiente quase insuportável, obrigando muitas vezes o professor a retirar os alunos da sala para irem para baixo do tapiri feito pela comunidade para fazer farinha, improvisando ali uma sala de aula.

Conversamos com os alunos e soubemos que por estarem em faixas etárias diferentes, cada um está numa série diferente e que todos freqüentam a escola ao mesmo tempo, porque só há um professor. Esta é a única solução possível, que coloca a qualidade do trabalho de aprendizagem sob suspeitas, visto que os professores não têm formação nem orientação para atuarem neste tipo de ambiente pedagógico.

Dormimos na escola, e fizemos comida para o nosso grupo e as dez crianças, que na manhã seguinte ficaram todas no barranco olhando nosso barco retirando a quilha enterrada na areia para apontar  rio acima.

Nas quatro horas de barco que nos separavam do próximo local de parada, uma grande revoada de barulhentos periquitos Cara Suja, nos acompanhou por alguns instantes no itinerário sinuoso do rio, além disto, vimos vários tucanos, araras vermelhas e azuis, ciganas, garças, e botos.

Chegamos à outra colocação onde moravam quatro famílias de seringueiros e a família da professora. Resolvemos ficar o resto do dia por ali, pois, nas colocações rio acima as escolas tinham fechado, e Isto tem sido mais freqüente nos últimos anos. Nos dois últimos anos, das quatorze escolas que funcionavam, seis fecharam por falta de recursos ou pela mudança das famílias para outras colocações em busca de estradas de seringa que produzam mais leite.

Paulo e Zé Velaneda conheciam a todos, e enquanto a professora terminava a aula de reforço, pois era sábado, ficamos conversando com os adultos, ouvindo as histórias de caçadas, pescarias, de antigamente e dos problemas com o preço da borracha caindo cada vez mais.

Como já era mais de quatro da tarde, e todos já tinham almoçado, Paulo pediu a duas mulheres que fizessem nossa comida, reforçando que fosse refeição completa, ou seja: arroz, feijão, macarrão, farinha e charque gordo.

Soubemos que das vinte cabeças de gado que havia pela redondeza, pelo menos dezesseis já morreram, sob suspeita de aftosa, mas como a dificuldade de transporte é grande, não conseguiram ajuda em tempo e as restantes estavam à mercê da sorte.

Seu Raimundo, o mais velho dos moradores disse que na noite anterior perdera um dos cachorros na beira do rio. Ele fora à noite beber água, e o jacaré que chegou bem perto da margem, com um movimento rápido do rabo, arremessou-o para dentro do rio, tornando-se presa fácil.

Esse cachorro era bom de paca, ou seja, era bom caçador de paca. O marido da professora, para aliviar a perda disse brincando: era bom de paca cozida, era só sentir o cheiro da bichinha na panela que ele vinha rodear.

Depois de comermos e enquanto as histórias eram contadas, fiquei andando e consegui ouvir a voz da professora vinda da escola: A de abacaxi; E de elefante e de elevador; I de igreja. No meio da floresta, a alguns dias de barco de qualquer povoado, entre cantos e gritos da nata, as palavras que ecoavam eram: igreja, elevador e elefante.

Pelo final da tarde, a professora que tinha cursado o primeiro ano do segundo grau na cidade, caso raro entre os professores, que muitas vezes tem somente as quatro primeiras séries concluídas, liberou os alunos, e pudemos então conversar. Disse que estava repondo aulas, porque estivera na cidade e ficara quase vinte dias fora. Este foi o único caso que encontramos de reposição de aula. Na quase totalidade das vezes, os professores ficam até um mês na cidade, e registram as aulas como se estivessem o tempo todo nas colocações, para poderem no final do ano irem para a cidade e só retornarem três ou quatro meses depois para reiniciar o ano letivo um ou dois meses depois de terem começado na cidade. Isto quando não conseguem favores de algum vereador conhecido para que sejam transferidos para alguma escola de periferia, ou mesmo para alguma escola rural.

Achava muito bom estarmos lá, disse que ela estava precisando de ajuda, mostrou-nos as cartilhas que usava, disse não concordar com as provas mensais que a supervisora do município lhe entregava na cidade e a obrigava a aplicar. Na última vez, as crianças e os adultos tiveram que desenhar um semáforo (sic), nos disse ela. Percebia que algo não funcionava bem, afinal não havia semafóro no seringal. mas não conseguia ver saída, nem mesmo se dava conta de perceber que o conteúdo de suas aulas não divergiam substancialmente das orientações que recebia na cidade, afinal no seringal também não encontramos igrejas, elefantes, muito menos elevadores.

Todos os adultos desta colocação estão sendo alfabetizados, ou fazendo o MOBRAL, como quer a professora. À noite cada um traz sua lamparina de querosene, que coloca em sua carteira, mas uma botija de gás no fundo da sala atraiu a curiosidade. Com uma mangueira presa por uma rosca à botija, e uma enorme bola de durepoxi na outra, unindo a mangueira a uma comprida e pequena mangueirinha incolor usada para aplicação de soro que chegava até o teto presa por fibras de cipó, pendia a agulha, esse conjunto era utilizado como reforço de iluminação; a presilha metálica que dobrava a mangueirinha para fazer o soro fluir mais rapidamente ou não, servia para controlar o fluxo de gás e, por conseguinte a tamanho da língua de fogo que saia da agulha, trazendo mais ou menos luminosidade.

Este curioso engenho se sugere o esforço por se alfabetizar, reflete os muitos objetos transformados como garrafas plásticas, latas, galões, combinados com ossos e cipós que compõem as recriações de função, de utilidade, de forma nunca pensada originalmente.

Por sua atuação a figura da professora é muito importante, diria mesmo central. As crianças ficam com ela durante o dia, e à noite é a vez dos adultos. Conseguiu fazer com que todos os adultos estivessem aprendendo a ler e escrever. Até mesmo os mais envergonhados tem vindo, uma vez que a comunidade é pequena e não há o que fazer à noite.

Reconhecendo seu empenho, as outras mulheres da comunidade fazem a merenda da criançada e até mesmo a comida para a professora e seu marido, para que ela tenha mais tempo livre para ensinar.

Seu marido, também tem recebido atenção dos homens, muito embora seja filho de seringueiros, nunca trabalhou com a borracha, assim antes de receber assumir uma estrada de seringa, para ajudar o sustento da casa, tem acompanhado os mais experientes para aprender.

O pai da professora, quando soube de seu trabalho diz ter ficado muito orgulhoso, e está de mudança de Porto Velho para esta colocação. Apesar dos 98 anos, disse que quer voltar a caçar, pescar, cortar seringa, e talvez só não vá aprenda a ler, porque a vista fraca não ajudam mais de noite.

Há oito meses soubera do trabalho da filha e mandou um recado para que ela confirmasse. Um mês depois o recado chegou; ela então respondeu positivamente, chegando a resposta em mais um mês, em seguida o pai pediu para se mudar para o seringal, recebendo a resposta de aceite dois meses depois. No período em que estivemos nesta colocação, a professora sabia que seu pai estava a quase um mês, na sede da associação, esperando um barco que subisse o rio até aquele ponto para trazê-lo. Mas como isto não ocorrera ainda, seu marido havia descido o rio há alguns dias e ela esperava que nas próximas duas semanas pudesse tê-los de volta.

Muito embora vá mensalmente para a cidade de Guajará Mirim para buscar os R$ 180,00 que recebe como professora leiga, evita participar de reuniões ou cursos da Secretaria de Educação, pois, como sempre enviam somente macarrão, sardinha em lata e óleo, para as escolas das populações rurais que ficam ao longo dos rios e dos seringais, os professores destas escolas são chamados pelos professores da cidade de professor macarrão com sardinha. O ciclo de preconceitos parece não ter fim e se reproduzir nas situações mais inesperadas e nos toma de surpresa onde nem mesmo o imaginamos. Tomara esta professora não tome sua luta como inglória.

No final da tarde, dois barcos que estavam indo para a cidade com nove pessoas, uma cabra, um pequeno engradado de galinhas, alguns sacos de farinha e muita borracha, pararam e pediram pousada. Imediatamente, as quatro colocações se encheram.

Dois dos moradores desceram o rio, e já de noitinha voltaram com dois surubins, de uns 15 quilos cada, preparando uma suculenta caldeirada, e todos nós saboreamos um delicioso caldo fino e ralo com pedaços de peixe cozido cuja carne tinha a textura de um flan junto com farinha azeda, à luz de duas lamparinas de chama vermelha. Tudo isto regado à muita conversa.

Acabamos por amontoar as carteiras e armamos nesta noite nossas redes na escola. Enquanto os últimos terminavam de preparar as redes para dormir e nós conversávamos sobre o nosso dia, escutamos o estampido seco de uma Pica-Pau 22, que veio da beira do rio. Enquanto amarrava o barco e ajeitava a carga, um dos viajantes viu o jacaré bem perto, disparou, mas não conseguiu acertar. Seu Raimundo disse que já deu tanto tiro nele que a cabeça deve estar muito pesada de chumbo.

No dia seguinte, enquanto descíamos o rio, voltando para a cidade, uma forte chuva, comum na região, com direito a muitos raios, vento e céu enegrecido, nos apanhou, tivemos tempo de proteger apenas os alimentos e as mochilas, e por mais de uma hora, tomamos uma gelada e pesada chuva.

Muito embora venha lendo e ouvindo dos seringueiros sobre as escolas das reservas extrativistas, é difícil ter claro a dimensão das dificuldades e dos imensos fossos que são colocados entre os educadores da cidade e os que atuam fora do limite urbano, num lugar quase fora do mundo das teorias e das práticas escolares.

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