Flor de Neve e o Leque Secreto – OLHARES… de Junior

A Bandagem dos Pés: Hermes interditado

Junior Cesar Minin[1]

            “Como deve doer essa bandagem dos pés!”: este pensamento, mesclado com o sentimento de indignação, foram marcas na leitura dos trechos referentes ao processo de quebrar os ossos dos pés de modo a impedi-lo de crescer, adquirindo, assim, status de mulher de valor.

Sobre o processo de bandagem, Lírio nos conta que:

Tudo que eu sabia era que a bandagem dos pés me tornaria um partido melhor e, portanto, me aproximaria daquilo que é a maior alegria e a maior paixão da vida de uma mulher – um filho homem. Para tanto, o meu objetivo era conseguir um par de pés perfeitamente contidos com sete atributos distintos: eles deveriam ser pequenos, estreitos, retos, pontudos e arqueados, além de cheirosos e macios. De todos esses atributos, o tamanho é o mais importante. Sete centímetros – mais ou menos o tamanho de um polegar – é o ideal. A forma vem em seguida. Um pé perfeito deve ter a forma de um botão de lótus. Ele deve ser cheio e arredondado no calcanhar e formar uma ponta na frente, com todo o peso sustentado apenas pelo dedão. Isso significa que os dedos e o arco do pé devem ser quebrados e entornados para trás para encostar no calcanhar. Finalmente, a fenda formada entre a parte da frente do pé e o calcanhar deve ser profunda o bastante para esconder uma peça grande de cash perpendicularmente em sua dobra. Se eu conseguir isso, minha recompensa será a felicidade (SEE, 2005, p. 41[2]).

A bandagem parece um divisor cultural de águas, uma forma de repartir o feminino em dois: na mulher merecedora de reconhecimento e de acessar as possibilidades de felicidade e competência, promessas da bandagem eficaz; de outro lado, na mulher banida à solidão, à infelicidade, como conseqüência do fracasso em sua tarefa heróica de provação.

O sentimento dizia: absurdo, interferir na natureza do corpo anulando uma capacidade que lhe é própria, quebrar os ossos dos pés? E a razão dizia: veja o contexto, a importância e significados dado pela cultura, a rigidez da tradição, a difícil posição de Lírio, sua necessidade de ser aceita por seus pares – enfim, suas condições de existência naquele momento, dentro das quais ela teria de se arranjar.

E se Lírio se recusasse a fazer a bandagem dos pés? Digo, se ela resolvesse atrapalhar todo o processo de modo a interrompê-lo, tal como quase fez sua Terceira Irmã espírito de raposa? Talvez Lírio conseguisse ser feliz tendo os pés grandes, superando a desvalorização e repressão da cultura, reinventando-se, ampliando a visão de suas possibilidades de existência.

Para esta outra ficção de Lírio, acredito que seria necessário um ingrediente fundamental: a idéia de que amarrar os pés, de alguma forma, seria uma violência e exigência inadmissível contra sua própria natureza, apesar das recompensas. Quando a beleza que reside na psique – viver psicológico[3] – é minimamente reconhecida e acessada, parece que ela tenta se proteger para não ser saqueada outra vez, o Dragão se ergue para proteger o tesouro.

Entretanto, Lírio não estava em posição de discutir com o mundo adulto, pois era considerada – assim como todas as crianças naquela cultura – alguém cujas vontades são imaturas, inadequadas e erradas: não seria ouvida com alteridade. Além disso, Lírio não tinha condições psíquicas para assumir com consciência a escolha de não fazer a bandagem dos pés: era freqüentemente bombardeada com as promessas de um futuro promissor e ameaças de uma vida infeliz. Sentir medo da dor e do processo é razão suficiente para evitá-lo? E quem garantiria que não passar pelo processo de bandagem seria a melhor opção, naquele momento, naquele contexto?

Às vezes, recordava-me do que Lírio dissera nas primeiras páginas:

Quando eu sabia que não ia mais agüentar a dor, e as lágrimas caíam sobre minhas ataduras ensangüentadas, minha mãe falava baixinho no meu ouvido, encorajando-me a prosseguir por mais uma hora, mais um dia, uma semana, lembrando-me das recompensas que eu teria se agüentasse mais um pouco. Dessa maneira, ela me ensinou a suportar – não só a provação física da bandagem dos pés e do parto, mas a dor mais tortuosa do coração, da mente, da alma. (SEE, 2005, p. 12).

Para Lírio, parece que a bandagem dos pés se constituiu em um ritual de iniciação ao sofrimento, fortalecendo sua capacidade de continência – controle – nas situações potencialmente capazes de mobilizar uma dor significativa. A vida, para Jung, implica em um balanço entre a felicidade e o sofrimento, ora um, ora outro, em um ciclo contínuo, dor e felicidade como nervos fundamentais do viver. Administrar este ciclo, sem excessos patológicos de sofrimento, me parece essencial.

Na mitologia grega, aos pés do deus Hermes estão acopladas duas asas laterais, simbolizando seu principal atributo: transitar como mensageiro entre os mundos de Zeus, Posídon e Hades. De acordo com López-Pedraza[4], podemos “encontrar Hermes, deus das transformações da psique, como guia para o subterrâneo”.

http://camphalfblood.wikia.com/wiki/Hermes

Na cultura de Lírio e Flor da Neve, parece que Hermes tem sido embargado em seu funcionamento completo. Certa continência de Hermes é necessária para que cada mundo produza os seus próprios segredos e estabeleça nichos de intimidade e privacidade, mas na cultura de Lírio as fronteiras do masculino (fora) e do feminino (dentro) parecem rigidamente delimitadas por tabus que reprimem a manifestação criativa de Hermes, restringindo a transição livre – sem ameaças – entre os mundos.

Tais tabus não foram seguidos religiosamente por Lírio quando, por exemplo, movida pelo amor à Flor de Neve, decide visitá-la mesmo com a ameaça de retaliação da sogra, de sua família e de terceiros, em um ato culturalmente reprovado. Talvez o amor mova Hermes para além dos limites impostos.

Assim, homem e mulher permanecem convivendo lado a lado em uma dissociação patriarcal abafadora de Hermes, com papéis tão rígidos que roubam dos homens o mundo da interioridade e das mulheres o mundo externo. A consciência de Hermes não pode, assim, ser ampliada para incluir outros horizontes. Quando Lírio vai às montanhas, caminhando como jamais havia feito antes – por tanto tempo e usando tanto esforço, o fez por meio de uma necessidade de sobrevivência, e não pela permissividade simbólica da cultura.

A bandagem dos pés pode ser vista então como um sacrifício parcial de Hermes – redução da mobilidade dos pés no real (pés não podem andar/correr como antes) e no imaginal (podando as asas da imaginação), atitude essencial para uma permanência no mundo da interioridade, tanto do ponto de vista concreto – casa, filhos, etc-, como do ponto de vista simbólico – se tenho dificuldade de externar permaneço dentro.

Como recompensa – o cash – por tal sacrifício, as mulheres recebem um Hermes sombriamente masculinizado que lhes diz: ‘agora vocês estão autorizadas a transitar no mundo do reconhecimento e da felicidade, porque todos os outros modos de vida são inferiores”. Também recebem uma Afrodite sombria: “agora vocês podem desfrutar da beleza do amor divino”.

Em certa altura, senti curiosidade de olhar – sensorialmente – para a forma dos pés após a bandagem, mas optei continuar com as fantasias sobre este processo até o término da leitura, quando então localizei algumas imagens:

http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=1360

  http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=1360

Os pés realmente se tornam bastante pequenos. O incômodo maior foi na dobra dos dedos e na rachadura que produz a sensação de que poderá se romper a qualquer momento. Observo um Hermes sacrificado, ao observar pés tão pequenos, incapazes de correr pelo mundo com velocidade e intensidade.

 


[1] Membro do Grupo de Psicologia Analítica da cidade de Porto Velho, Rondônia, coordenado pela Psicóloga e Analista Junguiana Elisabete Christofoletti.

[2] SEE, Lisa. Flor da Neve e o Leque Secreto. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. Tradução de Léa Viveiros de Castro.

[3] Viver Psicológico é um termo utilizado por López-Pedraza, R. Sobre Eros e Psiquê: um conto de Apuleio. Rio de Janeiro, Petrópolis: Vozes, 2010. O autor parece se referir à psique quando se encontra um movimento vivo, isto é, nutrida, alimentada de forma criativa.

[4] López-Pedraza, R. Sobre Eros e Psiquê: um conto de Apuleio. Rio de Janeiro, Petrópolis: Vozes, 2010. p. 105.

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3 pensamentos sobre “Flor de Neve e o Leque Secreto – OLHARES… de Junior

  1. Hoje, a bandagem é feita na alma. É quebrada, moldada e nunca volta a ser a psique livre de outrora; seguir o fluxo da libido de Hermes. Vivemos em tempos de represamento da energia psíquica. Belo texto Júnior.

  2. Pensando na repressão individual e cultural, acho que seriam pelo menos duas as tarefas: ativar Hermes para ampliar os horizontes, conhecendo e incorporando outras possibilidades de (re) existência, mais inteiras e felizes; e fazer o cultivo de alma dentro da (s) possibilidade (s) escolhida (s), saboreando ela com cuidado e profundidade.

  3. Parabéns, apesar de entender pouco sobre psicologia analítica, ficou bem claro o texto e principalmente a reflexão que ele traz consigo. Eu vi as imagens e… ‘como deve doer (em todos os sentidos) ‘…
    imaginei o que deve estar envolto simbolicamente! (?)
    e de pensar que vivenciamos repressões (por vezes até mais sutis) mas que têm a mesma magnitude no campo simbólico…

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