Flor de Neve e o Leque Secreto – OLHARES … de Patrícia

Flor da Vida e o Segredo do Símbolo

Patrícia Juliana dos Santos Nienow

Com essa leitura minhas reflexões fluíram como um rio que busca novos caminhos por entre as pedras e rochas de terrenos acidentados de nossa própria consciência.  Muito na tentativa de entender o que faz uma pessoa se sentir responsável pela vida de outra, e mais, pela felicidade desta.

Logo no começo da leitura me chama a atenção à posição de inferioridade da mulher, e mais ainda a situação da filha dentro do núcleo familiar na tradição chinesa. Com o avançar da leitura, principalmente após a descrição sobre o ritual de bandagem dos pés, o que mais chama minha atenção é a relação entre Flor da Neve e Lírio, no caso o fato de terem uma relação laotong.

No livro a relação laotong é definida como sendo um relacionamento que é realizado por escolha e tem como objetivo o companheirismo emocional e a fidelidade eterna. Para minha melhor compreensão vou chamar essa relação de amizade, foi à associação mais próxima dessa relação que consegui fazer, tentando entende-la na cultura ocidental.

A intensidade dessa relação é muito interessante. Eu já, a muito, tinha uma percepção de que a amizade é um dos sentimentos mais forte e significativo que o ser humano pode experimentar em sua jornada de vida.

A forma como a autora, Lisa See, relata a história de Lírio e Flor da Neve, cheia de cuidado, detalhes, delicadeza, dor, criatividade e muita intensidade, vai provocando nossas memórias e revirando nossas lembranças. Tornando-se inevitável não olhar para elas e acolhê-las com uma mistura de tristeza, saudade e alegria.

Lembranças de meus doze, treze e quatorze anos, em que vivi a intensidade de uma amizade, uma grande amizade, de tanta cumplicidade, carinho, companheirismo e amor, que ajudaram a aquecer minha vida e meu coração em tempos frios e sofridos, numa época em que o país vivia num sistema político e econômico que, de forma lenta e perversa, corroía a esperança e dignidade das famílias que tentavam sobreviver com seus sonhos inflacionados.

O período em que se passa a história de Lírio e Flor da Neve, também são tempos difíceis de escassez e aridez tanto de comida como de vida. E mais uma vez, se percebe o foco na aliança entre essas duas personagens, como algo que dava sentido aquela existência tão sofrida e cheias de provações. Esta aliança se apresenta carregada de simbolismo e afetos.

O romance nos convida a olhar para o símbolo, e mais do que isso, em como nos relacionamos com os símbolos. Lembrei-me de quanto li o livro “O segredo da Flor de Ouro”, uma das primeiras leituras que fiz ao entrar no Grupo de Estudos de Psicologia Analítica de Rondônia. Essa leitura foi uma grande aventura, em duplo sentido, primeiro pela representação de um mundo de informação e conhecimento que se abria em meu horizonte e, em segundo, pela explosão de emoções e sentimentos que invadiam minha consciência e que, ainda, não conseguia entende-los claramente e muito menos explica-los.

Interessante que quando não temos explicações conscientes e egóicas a cerca do que sentimos e percebemos, nos relacionamos diferente com os símbolos. Não vou falar que é mais ou menos intensa, porque também descobri que se nos permitirmos acessar e, assim conhecermos melhor nossas emoções, isso também possibilitará intensos e verdadeiros encontros simbólicos.

Chamo aqui encontro simbólico tudo aquilo com o qual entramos em contato e que provoca transformação. Na história de Lírio e a Flor da Neve, destacaria quatro encontros simbólicos que desencadeiam processos de transformação: primeiro quando Lírio recebe o leque com uma mensagem escrita pela Flor da Neve, segundo quando as duas se encontram pela primeira vez e estão escolhendo o papel onde será redigido o acordo (ou seria pacto?) dessa relação laotong, terceiro quando Lírio descobre a verdade sobre a vida e família de Flor da Neve e quarto quando Lírio vai cuidar de Flor da Neve em seus últimos dias de vida.

Quando Flor da Neve manda o leque com uma mensagem escrita em nu shu para Lírio, acontece um movimento intuitivo onde as fantasias que cada uma tem a respeito delas mesmas gera transformação nas duas personagens.

No primeiro encontro presencial entre Flor da Neve e Lírio, a transformação parece mergulhada no intenso desejo de aceitação. Lembrando, que esta história acontece num contexto histórico e cultural onde é esperada a submissão e obediência das mulheres.

Ao escolherem, juntas, o papel que seria usado para o pacto, é possível notar o quanto as duas personagens estavam abertas e disponíveis para aquela nova experiência. Isso me fez pensar em quantos momentos na vida estamos verdadeiramente disponíveis para viver intensamente relações, sejam elas com pessoas ou com os símbolos.

Outro importante momento de transformação dentro dessa relação entre as personagens é quando o segredo sobre a vida de Flor da Neve se descortina para Lírio que se apega a percepção de ter sido enganada, passando a alimentar em seu coração a raiva, magoa e rancor. E Flor da Neve passa a esperar que Lírio a aceite como realmente é, o desejo do reconhecimento do verdadeiro eu. Provocando o distanciamento entre elas, pois, Lírio inebriada em sua própria imagem de superação e determinação, não consegue mais ver Flor da Neve como sua “igual”, sendo tomada pelo sentimento de pena.

Quanto ao significado de pena, Rafael López-Pedraza, um grande tradutor das coisas da alma, lembra-nos que quando essa emoção aparece já não é mais possível uma relação simétrica, tornando-se ainda mais difícil ocorrer transformação entre as pessoas. Pedraza, então, nos convida a experimentarmos a generosidade, este sim pode nos proporcionar uma maneira mais profunda de experimentarmos o mundo coletivo a partir do individual.

E, por fim, o momento em que Flor da Neve encontra-se muito doente e em seus últimos dias de vida, sendo este o palco do último grande encontro de Lírio com sua “igual”. O processo de individuação de cada personagem vai se desenhando a partir do que cada uma consegue investir na relação laontog e também de como essa relação alimenta a alma, tanto de Lírio como de Flor da Neve.

Sobre individuação, Jung descreve como sendo o relacionamento entre o complexo individual do eu e o arquétipo do Si-mesmo (arquétipo de totalidade) representado por símbolos, muitas vezes, presentes nos sonhos e fantasias. E quando esse relacionamento (Eu e Si-mesmo) se torna contínuo, é possível a percepção de uma individualidade única conectada com uma existência humana mais criativa e simbólica.

A relação laontog pode ser vista como a representação simbólica do processo de individuação, onde Lírio estaria representando o complexo do Eu e a Flor da Neve o arquétipo do Si-mesmo, e o leque o vaso alquímico (depositário de todas as emoções e sentimentos). Interessante comentar que Lírio é uma flor que marca presença num jardim, tanto pela beleza como pelo tamanho, pode chegar a 2m de altura. E o complexo do Eu também tem sua imponência em nossa consciência. Já a Flor da Neve não é uma planta e nem pertence a uma família de vegetais, ela é um acontecimento, um fenômeno de transformação, pois ela se forma nos galhos ou pequenos ramos após chuvas de neve.

Portanto, a Flor da Neve só existe como resultado de uma relação entre a planta e a neve, bem como o fenômeno alquímico de transmutação.

Sendo assim a individuação só acontece se houver um intenso e verdadeiro relacionamento entre a Flor da Vida e o Segredo do Símbolo.

Ao trazer a representação dessa relação entre Vida e Símbolo para a vivência coletiva, penso que a amizade seja o grande vaso alquímico capaz de gerar mudanças na vida humana e em relacionamentos mais alimentados pela generosidade, cumplicidade e amor.

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2 pensamentos sobre “Flor de Neve e o Leque Secreto – OLHARES … de Patrícia

  1. Adorei Patrícia, o livro traz a leveza de Flor da Neve e a conservação e rigidez do ego de Lírio, ego tão maior, que a impediu por vezes de enxergar a verdade com mais clareza.

  2. Pois é Márcia, talvez aí esteja a grande importância do diálogo. Pode ajudar o ego a manter-se no seu lugar e com o seu valor, nem a mais e nem a menos.

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