Flor de Neve e o Leque Secreto – OLHARES… de Paula

O Nu Shu e o Leque Secreto Cultivando o Amor

Paula dos Reis Bubanz[1] 

Flor de neve e o leque secreto é um romance que se passa na China do século XIX, uma época em que as mulheres viviam restritas ao interior da casa, encarregadas de cuidar dos serviços domésticos. Eram submissas a uma rígida hierarquia familiar, conquistavam posições conforme a passagem de fases e o nascimento de filhos homens, só estes eram valorizados. Quando nasciam meninas eram consideradas inferiores e fontes de gastos, começavam desde cedo a serem preparadas para o casamento. Era importante respeitar a tradição e amarrar os pés das meninas por volta dos seis anos, este processo mutilava os pés para diminuir seu tamanho, quanto menor ficassem mais belos e valorosos eram considerados, representando provas de disciplina e resistência.

Sendo esta a realidade a vivencia das relações estava permeada por um amor com origem no dever, no respeito e na gratidão e acabavam por gerar tristeza, ruptura e brutalidade. A amizade entre as mulheres era um laço importante, pois consistia em um afeto mais livre, havia para isto as irmandades realizadas na juventude, estas, no entanto costumavam se desfazer após o casamento devido as mudanças. Mas para algumas meninas consideradas especiais havia a possibilidade da aliança loatong, um laço que dura à vida toda. Este foi o caso de Lírio e Flor de Neve, o primeiro contato entre as duas aconteceu através de um leque, escrito em Nu Shu. Estes dois elementos, o nu shu e o leque chamaram minha atenção por serem as ferramentas que possibilitaram o cultivo da relação entre elas.

Sabe-se que o Nu shu é única linguagem no mundo criada só por mulheres e para seu próprio uso, seus caracteres são delicados e fonéticos, cada caractere representa palavras faladas com o mesmo som, para não haver erro na interpretação é preciso estar atento à textura, ao contexto e as nuances de significado. A herança desta linguagem proporcionou um conhecimento e uma vivencia mais ampla do universo feminino, elas partilhavam canções, historias de suas vidas, lições dos deveres femininos, orações para Deusa. E também havia os conteúdos pessoais que eram guardados para si, em segredo.

Quando escreviam no leque ou cartas de tecido, o faziam de forma cuidadosa, pensando antes em cada palavra ou desenho a ser bordada, a escrita de cada detalhe lhes proporcionava um misto de pensamentos, sentimentos, emoções. Nas primeiras trocas do leque havia muita insegurança da parte de Lírio no que seria adequado escrever, muitas ideias do que deveria sentir diante daquela aliança, com o passar do tempo e com o contato mais frequente a personalidade de cada uma emergia naturalmente, principalmente a natureza sonhadora e voadora de Flor de neve. As cartas e os escritos no leque eram o adubo do amor entre elas e ao final da vida nele esta imortalizado toda a trajetória da jornada das duas.

O leque tem sua origem mitológica atribuída a Eros, o deus do amor que inebriado pela beleza de sua amada Psique, furtou uma asa de Zéfiro, o deus do vento, para refrescar sua amada enquanto esta dormia. Zéfiro é também considerado uma brisa suave ou vento agradável, por ser o mais suave de todos os ventos, frutificante e mensageiro da Primavera.

Os primeiros anos de correspondências de Lírio e Flor de neve foram marcados por este vento suave, a chegada das mensagens sempre acompanhadas de delicados desenhos de flores provocava um acalanto ao coração e enchia de alegria a vida das duas.

Este modo de usar a linguagem escrita me chamou atenção, pois tudo que era colocado no leque ou nas cartas era pensado com cuidado, elaborado, sentido, filtrado e só depois transcrito com a maior delicadeza possível, respeitando o espaço disponível a textura do tecido ou do papel. Atitude esta que se faz muito necessária na atualidade, pois o alcance que a internet nos proporcionou também ocasionou um  grande movimento de exposição, um descuido no modo como nos posicionamos e emitimos nossas opiniões, a agressividade, muitas vezes protegida pela possibilidade do anonimato, também esta muito presente ao lidar com o outro visto como diferente.

 

Em um momento da história Lírio também expos seus sentimentos regida pela impulsividade e emoção, totalmente presa ao ego, tomada pelo ciúme e sua certeza de que havia sido traída, tentou de todas as formas destruir o amor que sentia. No ápice de sua emoção tomada por um sentimento de superioridade e injustiça ela respondeu uma carta de injuria, humilhando e desvalorizando sua velha igual, revelando cada fraqueza de Flor de neve. Atitude que lembra novamente um mito onde Zéfiro aparece, este era apaixonado por Jacinto. Um dia Apolo e Jacinto jogavam discos e Zéfiro percebeu que seu amado tinha mais afeição a Apolo do que a ele, ficou enciumado e mudou os ventos para que Jacinto fosse atingido pelo disco que Apolo havia jogado, plantando a culpa no coração de Apolo por ter matado seu amor.

Lírio não suportava que sua loatong havia a trocado por uma irmandade, e viveu com esta magoa em seu coração durante longos anos, repeliu qualquer tentativa de aproximação de Flor de neve. Se tivesse sido menos inflexível, deixado seu orgulho um pouco de lado o mal entendido poderia ter sido facilmente desfeito, mas ela estava tomada pelo ciúme, pela possessividade daquele amor pelo qual tanto tinha ansiado e se dedicado.

Este sentimento de posse quando presente nas relações leva o outro a ser visto como um objeto. Gera uma exigência de que o outro preencha todas as necessidades de amor, todas as carências e que seja conforme a razão acredita que deva ser. Foi este amor que Lírio ofereceu a Flor de neve, incentivando-a viver conforme a tradição, recusando a enxerga-la pelo que ela era.

O egoísmo e a cegueira de Lírio fizeram que ela traísse o seu sentimento por Flor de Neve, mais tarde a consciência de que não soube amar sua velha igual causou culpa e arrependimento ao seu coração, no mito Apolo também se sentiu culpado pela morte de Jacinto e prometeu o levar na memoria e honra-lo no seu canto. Assim nasceu no chão que o sangue de Jacinto escorreu uma flor roxa, semelhante ao lírio. Em ambas as histórias, a perda através da morte levou a transformação, no caso de Lírio tirou a cegueira que cobria seus olhos.


[1] Psicóloga; membro do GPA-Grupo de Psicologia Analítica

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