Flor de Neve e o Leque Secreto – OLHARES… de Paulo

 

SEM TOQUE, COM MUITA DOR: A HISTÓRIA DO LÍRIO IMACULADO.

PAULO ALBERTO FERREIRA NETO[1]

            “Flor da Neve e o Leque Secreto” é um romance onde Lírio, uma mulher chinesa do século XIX, conta a história de sua vida e a amizade com Flor de Neve. Desde seus sete anos de idade Lírio e Flor de Neve tiveram seus pés amarrados para ficarem pequenos e delicados dentro de seus minúsculos sapatos, o que lhes garantiria um bom casamento. Ora a mulher era vista como um ser inferior, apenas uma despesa a mais na casa de seus pais, não poderia produzir e trabalhar como o homem.

Ter pequenos e delicados pés elevava a beleza da mulher. Os pés perfeitos deveriam ter exatos sete centímetros.  Para alcançar esse padrão de beleza as meninas tinham seus pés amarrados em uma bandagem, onde vários ossos eram quebrados para que pudessem se moldar aos seus sapatos.

Quando Lírio inicia seu processo de amarração dos pés ocorre sua primeira vivência de morte, das várias que teria no decorrer da trama. Morre a menina sem nenhuma obrigação e nasce uma moça que tem que moldar sua beleza e iniciar suas obrigações como futura esposa. Durante esse período de sua infância conhece Flor de Neve, pois devido à data de nascimento ela seria sua laotong, velha igual, a pessoa mais próxima de sua alma. Ela foi o único e grande amor da vida de Lírio.  Para comunicarem-se utilizavam uma linguagem secreta inacessível aos homens, o Nu Shu.

Durante o livro percebe-se que cada ato e ação na vida dessas mulheres é mergulhado em um delicado ritual, há uma constante vivência do mito no corpo, nos lugares e coisas. Aparentam estar constantemente mergulhadas em um mundo almado. Essa delicadeza feminina nos os rituais eram parte do fazer alma desse lugar, tornando a vida das pessoas cercadas por essas mulheres, uma vivência psicológica. Onde com a presença apenas do masculino descambaria para uma brutalidade e concretude das ações, deixando de lado a subjetividade das ações cotidianas.

Lírio durante toda sua vida foi treinada e agiu para que fosse uma mulher mantenedora da casa, para que mantivesse os rituais e toda delicadeza requerida por estes. Quando se referia aos seus pés ou de outras mulheres os chamava de lírios. Indicando a delicadeza com que essas mulheres tocavam o chão como se fossem espíritos sustentados por finas e delicadas flores. Lirios representam pureza, bondade, fartura e amor eterno. Essa flor possui 55 % de suas espécies localizadas no Oriente. Ela possui ligação ao ocidente e o cristianismo por ser a flor que representa Virgem Maria.

Percebe-se que ao falar sobre as mulheres que faziam as bandagens estamos falando de uma divindade, da psique e de sua beleza, seus pés, seu caminhar são representações da Deusa. O pequeno tamanho de seus pés enfatiza esse fato, pois isso lhes proporciona o menor contato possível com a terra, representando o feminino e toda sua leveza, como uma elevação aos céus.  O tamanho dos pés de Lírio, sete centímetros, representa o espírito na terra, totalidade, é o número da transformação e perfeição divina.

Apesar do desejo erótico do masculino quanto a estas mulheres, o feminino é virginal não é tocado em sua profundidade. Lírio tem que demonstrar uma beleza arquetípica. Essa mulher é a senhora cuidadora do fogo do lar, ela não sai de casa, não se dirige até o mundo dos homens, é uma vivência de Héstia deusa da mitologia grega que era responsável por manter o fogo do lar aceso, o aconchego da casa para onde sempre se pode retornar. Héstia, assim como Maria era virgem, intocada, mas ainda assim agraciada e cultuada.

Observa-se no decorrer da história a representação de uma alma feminina pouco tocada eroticamente, uma psique des-erotizada, virgem que não esteve ligada ao amor. Lembrando que Psiquê no início do conto de Apuleio “Eros e Psiquê” era venerada e admirado por sua beleza, como se fosse a própria Vênus, porém ninguém havia a amado ou tocado. Lírio passa por todo o sofrimento psíquico no seu processo de fazer alma, porém não desce aos ínferos e colhe a beleza de Perséfone, sua beleza é celestial, intocável e mariana.

Lírio sente que fez seu papel como mulher ao criar bem os filhos e ver sua família prosperando. Diante da necessidade daquele lugar tão vulnerável a natureza, as revoltas humanas, à fome, diante de toda dureza da vida nesse período histórico, era necessário manter o feminino sagrado dentro de casa, ter essa dinâmica arquetípica de Héstia, para que houvesse uma centralidade familiar, um lugar para onde os homens pudessem voltar após um dia de trabalho. Esse feminino era a maneira pela qual se integrava aquela sociedade, que apesar de patriarcal, necessitava do feminino para integrar suas imagens.

Essas mulheres pagavam um alto preço por manter essa imagem arquetípica. Não se pode ser o divino, apenas estar com o divino. Por isso havia tanta dor no relato de Lírio, é impossível viver num sentido arquetípico sem que se sofra por isso. O de Lírio foi o de não ter sido tocada por Eros e ter permanecido na vivência dolorosa de Psiquê. Não houve transformação, volúpia não surgiu como fruto de seu amor por Flor de Neve.

Esse amor erótico é o que nos conecta e liga ao outro, Lírio sempre admirou e idolatrou Flor de Neve. Ao não compreender a escrita secreta feita por sua Lao tong, a qual para ser lida, compreendida, deve-se ter uma leitura subjetiva dos caracteres, por isso deve haver uma grande conexão entre as almas para que essa escrita seja entendida. É a escuta do não dito, do inconsciente.

Quando Lírio entende que Flor de Neve havia encontrado outras irmãs para escutá-la, tem uma escuta de traição. Ela cai em um pensamento masculino não compreende as palavras delicadas, a psique se manifestando naquele momento. Logo a própria Lírio se trai, pois amava sua Lao tong, não pelo o que era. Insistentemente pretendia transformá-la para seguir a regra dos homens, para que houvesse uma aceitação patriarcal, uma aceitação do mundo social.

Compreendo que o amor é uma ligação entre duas pessoas que transcende os valores e regras patriarcais e sociais é uma ligação de intimidade, de interioridade, uma ligação tão profunda que se ama a pessoa pelo que é independente do que seja, suas fraquezas, defeitos, forças ou virtudes.

Lírio tomada por uma impaciência, uma não aceitação do ritmo de transformação de Flor de Neve, não demonstrou o amor com a profundidade requerida, foi tomada por um egoísmo, um amor egóico sem profundidade, não desceu aos ínferos para que esse amor fosse consolidado.

Diante de tal ação precisou que Flor de Neve morresse, pois apenas após sua morte Lírio desceu aos ínferos e compreendeu o que era o amor. Não sendo um ato egóico, superficial e masculino, mas profundo, delicado e feminino.

Compreendo que por esse erro cometido na sua vida há tanta dor nas palavras de Lírio, a dor de não ter se permitido o toque na profundidade de sua alma, a dor de ter permanecido virgem de amor.

 

REFERÊNCIAS

ALVARENGA, Maria Zélia. Mitologia Simbólica Estruturas da Psique & Regências Míticas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

Autor Desconhecido. Lírios Símbolo da Pureza. Jardim de Flores. Disponível em: http://www.jardimdeflores.com.br/floresefolhas/a21lirios.htm, Acesso em 05/01/2013.

BYINGTON, Carlos Amadeu. Psicologia Simbólica Junguiana: A viagem de humanização do cosmos em busca da iluminação. São Paulo: Editora Linear B, 2008.

FREITAS, L.V. O Calor e a Luz de Héstia: sua presença nos grupos vivenciais. Cadernos de Educação, EDUNIC, p. 131-145, 2005.

HILLMAN, James. Entre Vistas: conversas com Laura Pozzo sobre psicoterapia, biografia, amor, alma, sonhos, trabalho, imaginação e o estado da cultura. São Paulo: Summus Editorial, 1989.

HILLMAN, James. O Pensamento do coração e a alma do mundo. Campinas-SP: Verus, 2011.


[1] PSICÓLOGO MEMBRO DO GPA-GRUPO DE PSICOLOGIA ANALÍTICA.

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Um pensamento sobre “Flor de Neve e o Leque Secreto – OLHARES… de Paulo

  1. Lírio compreendeu tardiamente o amor livre, puro e suave de Flor da Neve. Os pássaros, muito citados, desenhados e bordados por Flor da Neve eram o símbolo do amor sem fronteiras, superando quaisquer dificuldades – amor de alteridade.

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