Ética em Parcerias – Mário Batista Catelli

ÉTICA EM PARCERIAS

 Mário Batista Catelli

mario_catelli@hotmail.com

Nesta breve apresentação, lançaremos um olhar sobre a natureza de uma parceria, seus ingredientes e sua dinâmica, a fim de explorar algumas questões éticas nela envolvidas. Para isto, precisaremos captar um pouco de sua complexidade, discernir dentro dela alguns conflitos potenciais, buscar compreendê-los à luz das relações que envolvem a consciência e o inconsciente dos que a integram, perceber como é afetada pelas estruturas que compõem a personalidade, segundo o modelo proposto por Jung. Faremos menção a alguns tipos de parceria e a problemas de ordem ética que os acompanham. Finalmente, esperamos compreender um pouco melhor a natureza do desafio ético dentro das parcerias.

O que distingue uma parceria de qualquer outra forma de relação humana? À primeira vista, já se destaca o intuito de cooperação sistemática e predefinida, apoiada em interesses compartilhados, como sua principal característica. Partimos do princípio de que toda relação que não esteja construída sobre essa base não é parceria.

Observemos alguns ingredientes encontrados nesse tipo de associação. Os que se propõem a entrar numa parceria apresentam semelhanças e diferenças, que conferem à relação uma possível complementaridade. Cada um é movido por necessidades e dotado com recursos que são insuficientes para supri‑las, mas que, paradoxalmente, também as ultrapassam. Temos vazios que não conseguimos preencher e riquezas de que não conseguimos usufruir. Nossa contabilidade realiza a façanha de ficar, ao mesmo tempo, no vermelho e no azul. Sem as carências, permaneceríamos inertes, não nos associaríamos a ninguém. Sem os recursos, estaríamos privados de toda possibilidade de atrair alguém para compor uma parceria conosco. Buscamos o outro numa atitude simultânea de “oferta e procura”, expressão cujo sentido ultrapassa o econômico, embora o inclua.

Para que haja parceria, além da complementaridade é necessária a participação conjunta num mesmo projeto, seja ele um congresso de psicologia, uma apresentação sinfônica, os serviços de saúde de uma clínica, a produção de uma peça de teatro, um trabalho qualquer, ou a participação numa relação de amizade. No caso da amizade, ela é a própria parceria e também o “projeto” que a justifica. É um fim em si mesma e todos os outros benefícios que ela traz aos amigos – cooperação, apoio recíproco – por mais valiosos que sejam, não constituem sua finalidade, mas benefícios adicionais. Aliás, a amizade mantida por qualquer interesse fora dela mesma é vista como não genuína. O mesmo seja dito da relação amorosa.

A amizade e o amor, de modo nítido, trazem à tona o vínculo como ingrediente especial em todas as formas de parceria. O vínculo, como vimos, é muito mais que um jogo entre carências e recursos, procura e oferta. Não se limita a uma forma de atendimento às outras necessidades. Ele próprio é uma necessidade primordial, como pode ser constatado apenas lançando um olhar a nós mesmos no centro de nossa própria rede de relações.

O vínculo nutre, atende, mas também expõe. Quando a parceria se estrutura apenas em função do atendimento a objetivos impessoais, o componente afetivo se acha reduzido a um grau mínimo, e os perigos a que o vínculo nos expõe são conjurados por medidas concretas de proteção, por defesas antecipadas. Se alguém já alugou um imóvel ou serviu de fiador, pode falar sobre as defesas com que a imobiliária se antecipa a todos os riscos imagináveis antes de entrar na parceria. Nesse caso, cada parceiro trata o outro tendo como foco exclusivo o próprio interesse. Fora dele, tudo é ameaça, e o parceiro é um competidor contra o qual são mobilizadas todas as estratégias defensivas.

Quando o vínculo é o principal objetivo da parceria, a afetividade encontra sua expressão mais plena, e as pessoas tendem a se expor de peito aberto, reduzindo ao mínimo as próprias defesas. Vínculos dessa natureza se enfraquecem diante de atitudes defensivas provenientes da desconfiança. A confiança é um componente essencial nas parcerias sustentadas em especial por vínculos afetivos.

Além de sentir que posso confiar no outro, preciso saber também que o outro confia em mim. Assisti uma vez a uma reportagem na TV, em que o golfinho escancara sua boca cheia de dentes afiados para a pessoa que dele se aproxima amistosamente. A pessoa põe a mão dentro daquela bocarra e o golfinho a fecha devagar, sem apertar, depois a libera. Está feita a amizade! A tradução desse ritual poderia ser: “Se você se expõe a que eu decepe sua mão, é porque confia em mim. Então podemos ser amigos”.

Entretanto, a confiança – como sabemos – não é garantia. Não raro é comprometida, quebrada, traída. Expectativas são frustradas. O bem que era esperado não vem, ou então – o que é pior – quem chega é o mal.

E aqui estamos nós, falando do bem e do mal, no contexto dos vínculos, falando da ética em parceria. Deixemos de lado, aqui, o tipo de parceria regulamentada pela lei – como os negócios com a imobiliária, as fianças, até mesmo os casamentos e as ligações estáveis no que concerne aos aspectos contemplados pela legislação. Quanto a estes, diremos tão-somente que a sociedade organizada já os mapeou como áreas de conflito, campos de batalha costumeiros, e por isso empresta sua força no sentido de protegê-los – de um lado e de outro – pelo menos contra os abusos previsíveis.

Interessam-nos aqui as parcerias, em especial, naquilo que se acha fora das fronteiras da lei, nos espaços livremente definidos pelos seus integrantes.

Há um vasto campo virtual de conflitos, mesmo dentro dos processos conscientes de uma relação, nos quais as expectativas são explicitadas tanto quanto as promessas. Numa parceria de trabalho, por exemplo, talvez surja uma divergência porque um dos participantes percebe o desempenho do outro como estando aquém do prometido, em qualidade ou quantidade; ou porque ele constate uma desproporção entre o peso das incumbências e a partilha dos resultados; talvez perceba uma falta de sintonia do outro com as mudanças no cenário; uma tendência à rotina; quem sabe as decisões estejam sendo tomadas unilateralmente, às escondidas, sem debate; ou então existe a suspeita de serem praticadas ações contrárias aos acordos combinados. Cada um sabe que o outro tem interesses pessoais, até conta com esses interesses para fortalecer os vínculos de parceria, mas espera que não excluam os interesses do projeto comum.

Se o parceiro foi endeusado, idealizado como um altruísta que se preocupa exclusivamente com o meu bem-estar, o choque pode ser muito grande quando surge a descoberta de que ele também tem interesses próprios, que ele não se importa comigo tanto quanto eu acreditava. Nessa hora, não é impossível que ele seja considerado um traidor, na tácita premissa de que ele era responsável pelas idealizações feitas por mim a seu respeito.

Amarguras, ressentimentos, queixas, discussões são algumas das consequências advindas das quebras de ética, reais ou imaginárias, diante dos acordos conscientes e explícitos. Essas tempestades são serenadas quando não é atribuída má intenção ao parceiro, quando subsiste a confiança em grau necessário para um diálogo aberto, mesmo que difícil, no qual as diferentes percepções, os valores em contradição, as emoções, os desejos encontram uma oportunidade de serem colocados e examinados, um espaço para se transformarem. Caso contrário, surgem os bate-bocas, as retaliações e até mesmo a dissolução da parceria.

Nossas intenções conscientes, no entanto, por importantes que sejam – e de fato o são – não bastam para compreendermos tudo o que nos move. Comparecemos às parcerias, mesmo às mais simples, como portadores de toda a nossa complexidade. Somos constituídos por diversas estruturas psíquicas interligadas, em grande parte inconscientes, que cooperam para realizar diferentes funções.

A mais evidente delas compõe-se de tudo o que constitui a nossa identidade consciente. É o complexo do ego, aquilo que reconheço diretamente como sendo “eu”. A pergunta “quem sou eu?” talvez esteja entre as mais antigas questões que o ser autoconsciente já se colocou. Trata-se de uma interrogação irrespondível por formulações teóricas, que sempre deixam algo importante a descoberto ou caem vítimas de uma inevitável tautologia, por maior que seja o esforço em camuflá-la. A resposta só é possível em termos de experiência imediata do “eu” que se move no mundo. Ele é o centro do espaço a partir do qual percebe o mundo a seu redor e se percebe no mundo, é o centro para onde chega tudo o que o afeta no presente, suas dores e prazeres, suas recordações e previsões, seus pensamentos e emoções. Este centro de consciência é o ego, e tudo o que entra em contato direto com ele é sentido como especialmente importante.

Aquilo que parece ameaçar o ego e que o mobiliza para a defesa, o que parece favorecê-lo e o motiva para a busca… alegrias, tristezas, preocupações, medos, esperanças… tudo isto se impõe na vivência de uma parceria, e contrasta em importância com o que não o afeta diretamente: as dores e prazeres do outro, as ameaças e oportunidades vividas pelo outro, aqueles acontecimentos que somente chegam até o “eu” depois de ricochetearem no outro.

A relação entre dois egos numa parceria já enfrenta essas naturais diferenças de ênfase. O exercício de imaginar-se vendo a situação a partir da posição do outro durante o mesmo momento, embora não reproduza a real vivência do parceiro, já representa um esforço de empatia, no sentido de relativizar as próprias percepções e julgamentos e abrir-se para a experiência do outro, legitimando-a de antemão. A relação de alteridade não consiste na impossível tarefa de “ser o outro”, mas no exercício de olhar a realidade como se estivéssemos no lugar do outro, no exercício de imaginar como ele nos vê a partir dos sinais que emitimos, no desafio de abrir-lhe espaço para que se apresente em seus próprios termos.

Desde cedo percebemos que o acolhimento a nós dispensado pelo outro varia de acordo com a imagem com a qual ele nos representa. Essa imagem faz o papel da moeda que expressa o nosso valor nas trocas sociais. Quando a imagem é feita de material valioso e tem contornos elegantes, as facilidades que ela nos cria, as portas que nos abre, os privilégios que nos proporciona tornam-se por demais atraentes. Desejamos que essas boas experiências perdurem, portanto desejamos que a imagem a elas associada não se descole de nós. Apegamo-nos à imagem. Identificamo-nos com a persona que nos apresenta em nossa melhor “encadernação”.

No que concerne à ética, egos identificados com as respectivas personas supervalorizadas dificultam sobremaneira o bom andamento de uma parceria. As atividades mais prestigiadas tendem a ser objeto de disputas, enquanto as funções aparentemente subalternas, que menos irradiam aparências glamurosas, sempre que possível são delegadas ao outro. Mas a persona também pode consistir numa imagem rebaixada pela crença na própria falta de valor, associada a um desejo de exaltação e a um medo de humilhação.

A defesa contra o medo passa por prever o pior a fim de não se deparar com ele de surpresa. Quando o ego se identifica com uma persona situada nos níveis mais baixos da escala de valorização, tende a fazê-lo inconscientemente por um medo insuportável da queda, que neutraliza seu desejo de exaltação. Em qualquer parceria, ele se sente ameaçado e foge quando posto numa posição de destaque, mas fica ressentido, humilhado e amargurado quando lhe atribuem uma posição menos lisonjeira. O vínculo tende a sofrer prejuízos, o compromisso mútuo se enfraquece, e a ética corre perigo nas parcerias que envolvem personas inflacionadas ou deflacionadas.

Nas referidas identificações do ego com as diversas modalidades de persona, a imagem de si mesmo inflacionada é uma reação à imagem empobrecida e costuma projetar uma sombra de desvalorização sobre o outro, carregada de menosprezo, que, no fundo, é o desprezo do sujeito por si mesmo. Inversamente, o autoconceito encolhido esconde grandezas que o sujeito não consegue ver e por isso tende a projetar no outro, misturando admiração com inveja e ressentimento. Quando estas sombras são reconhecidas, a personalidade alcança uma imagem de si mais realista e humanizada.

Diante de uma boa autoimagem, podemos até brincar com os nossos defeitos. Por exemplo, quem já não leu aquele tipo de prefácio simpático em que o autor do livro agradece aos colaboradores, atribuindo‑lhes todos os méritos e assumindo de antemão como próprias quaisquer falhas porventura encontradas? Mesmo que ninguém absolutize a verdade de tal tipo de declaração, ela não deixa de opor-se à tão conhecida tendência a acreditarmos que os méritos nos pertencem e as censuras cabem aos outros.

A projeção da sombra nas parcerias vai além das questões de valorização ou desvalorização. Ela abrange todas as características que a personalidade não consegue reconhecer dentro de si. O parceiro reage de alguma forma à projeção de que é alvo, e essa reação alcança de volta o outro – a fonte da projeção – num jogo de repercussões em que paira, ameaçadora, uma culpa em busca de um culpado. Acusações recíprocas, queixas cruzadas, insatisfações mútuas perturbam o exercício da ética na relação. A projeção sempre acaba tendo um efeito sobre as expectativas, e estas colorem a parceria com seus matizes ao influenciarem percepções recíprocas de bem e de mal.

Nas parcerias múltiplas, verificadas em grandes equipes de trabalho, em organizações mais complexas, é fácil perceber o quanto essas combinações de egos, personas, sombras, projeções, rótulos, reducionismos… fazem emergir questões éticas de grande dramaticidade, muitas vezes encobertas por um jogo de sutil diplomacia.

Lá nas profundezas do inconsciente, comunicando-se com o Self, arquétipo da totalidade psíquica, movem-se (e movem-nos) os fascinantes arquétipos da anima e do animus, complementares ao gênero consciente. Revelam-se, para consciências masculinas, como figuras de mulher; e para consciências femininas, como figuras de homens; e mais, todas as combinações intermediárias. Essas figuras – que muitas vezes se mostram nos sonhos – são capazes de nos abalar até as raízes. Suas manifestações luminosas são recebidas pelo ego como emanadas das dimensões do divino. Elas surgem ornadas com as mais admiradas qualidades. Como não poderia deixar de ser, as imagens sombrias que se formam a partir dos mesmos arquétipos assumem o aspecto de figuras diabólicas, sinistras, vulgares, cruéis. Elas encarnam o ameaçador, o indesejável.

Em seu aspecto luminoso, essas imagens podem ser inconscientemente projetadas sobre outra pessoa, que passa a encarnar qualidades sobre-humanas e despertar paixões avassaladoras, o que implica ela tornar-se depositária de expectativas irrealizáveis. A pessoa que é o alvo dessas grandiosas projeções encontra‑se diante de um dilema, que também pode atingi-la inconscientemente: por um lado, sente-se percebida no que existe de mais valioso dentro dela (o potencial do que lhe é atribuído faz, de fato, parte do self, razão por que a paixão que uma pessoa suscita também é, para ela, uma grande oportunidade de autodescoberta); por outro lado, algo nela deseja fugir da insuportável carga de expectativas que a paixão deposita em seus ombros.

A turbulência das parcerias amorosas durante a fase da paixão pode ser entendida, em grande parte, à luz desse dinamismo. Se o encantamento – enraizado em bases arquetípicas e intemporais – sair do domínio da idealização para reconhecer e valorizar a pessoa com seu modo único de ser, terá a chance de se transformar num grande amor. Caso contrário, a falta de abertura às mudanças demandadas pela realidade, junto ao apego às próprias projeções pela incapacidade de reconhecê-las, traz inevitavelmente a frustração, que deriva das expectativas não atendidas, com seu corolário de ressentimentos e culpabilizações agressivas. As manifestações sombrias do arquétipo têm lugar então, o anjo transforma‑se num demônio, há uma verdadeira conversão do amor-adoração no seu oposto, um ódio visceral. Não será este, por vezes, o processo subjacente aos bárbaros crimes passionais que periodicamente invadem os noticiários?

O processo inverso também é possível: Profundas antipatias de origem arquetípica se convertem num amor intenso à medida que as projeções sombrias se desfazem e deixam surgir as boas surpresas que desmentem as previsões iniciais.

As parcerias criam novas entidades, novas unidades que não se confundem com a soma dos participantes. Elas funcionam como personalidades mais amplas. Tal como acontece com os indivíduos, são dotadas de uma identidade própria, constroem uma imagem e escondem cuidadosamente a própria sombra. Também buscam complementaridades fora delas, preparando-se para novas associações. Passam a se comportar como pessoas coletivas quando, em bloco, se relacionam com o mundo exterior a elas mesmas e ficam sujeitas a fenômenos análogos aos do ego, da persona e da sombra, diante de outras organizações com as quais, por sua vez, entram em parceria. Nesse jogo, configuram um tipo de ética voltada para as relações externas.

No crime organizado, vemos um tipo de parceria em que vigoram éticas diferentes nas relações internas e com o mundo externo: identificação e solidariedade dentro, quando em luta com o inimigo de fora; organização fortemente competitiva, normatizada, inflexível, até mesmo implacável, nas relações entre os membros quando cessa o perigo externo. A relação com o mundo exterior é de tipo parasitário e predatório, apoia-se no pressuposto tácito de que a vitalidade do organismo hospedeiro – a sociedade mais ampla – é inesgotável e pode, portanto, suportar a parasitagem indefinidamente.

Outro tipo de parceria tipicamente impregnado de questões éticas é o das igrejas. Num extremo do espectro, temos aquelas que oferecem – ao lado do conforto espiritual – trabalhos voltados para as comunidades, nas áreas da assistência social, da saúde e da educação; no outro extremo, existem as que proliferam predominantemente num estilo parasitário. Embora todas sejam sustentadas pelas doações dos fiéis, estas últimas precisam garantir a adesão exclusiva de seus membros. Todo o esforço é envidado para provocar o desejo de entrar e de permanecer, evitar o desejo de sair e gerar o medo de mudar para outra instituição. Em suma, observa-se uma espécie de fidelização forçada. Primeiro, pinta-se a realidade utilizando cores sombrias e dramáticas, valoriza-se o medo, o sentimento de desamparo, sabendo que esta semeadura cai em terreno fértil onde quer que haja uma aglomeração. Depois vem o testemunho de pessoas que encontraram segurança, realizaram seus desejos, prosperaram, solucionaram seus problemas amorosos por causa de sua adesão àquela igreja. Por fim, vem a ideia do merecimento: Se queremos a generosidade divina, precisamos ser generosos, doar tudo o que podemos. Este “pequeno” detalhe é, por vezes, a justificativa do aparato inteiro. Não é ilegal. Mas pode ser considerado ético?

As campanhas políticas, com bastante frequência, não diferem muito do modelo dessas igrejas: medo do futuro; o candidato como esperança, proteção e panaceia; tudo pelo módico preço de um voto. A parceria política entre o eleitor e o candidato merece a mais cuidadosa atenção, por seus efeitos – por vezes catastróficos – sobre a sociedade.

A outra gangue, a outra igreja ou o outro partido são o diabo. Cuidado com ele! Fique com a gente!

A modalidade de organização que visa à consolidação dos laços internos contra o mundo exterior pode ser encontrada também em todas as formas de nacionalismo acompanhadas de uma correspondente xenofobia. O paraíso é aqui e o inferno são os outros.

Ressalvadas as parcerias de tipo sombrio, a capacidade de associação é um dos fatores que promovem a humanidade e lhe permite transcender as próprias conquistas, repensar-se, recriar-se continuamente.

As cooperativas, em suas variadas modalidades, transformam a fragilidade que adviria da competição entre pequenos produtores em força derivada de sua união para o enfrentamento aos desafios do mercado. O cimento da parceria é a construção de uma organização forte, mais poderosa que a simples soma das partes que a integram. Sua ética interna corporifica-se em normas claras cuja observância é condição indispensável para a sobrevivência do grupo como tal. Podem ser consideradas como pequenos laboratórios em que as grandes questões da ética se manifestam com a maior visibilidade e transparência. São verdadeiras miniaturas da sociedade, que evidenciam com clareza a interdependência dos parceiros. Os interesses que poderíamos chamar de egoicos são reconhecidos, legitimados e contrabalançados pelo “altruísmo”, que consiste em cada integrante abrir mão do desejo de ganhar sozinho – que envolveria maiores riscos de perda – para aumentar a segurança do grupo e de cada indivíduo. Permanecendo com os outros, renunciando à busca de privilégios diante dos outros, cada um tem a força de todos.

Poderíamos citar muitas outras modalidades de parcerias, como as ONGs, creches, asilos de idosos, entidades de proteção ao meio ambiente, todas intimamente ligadas à questão da ética interna ao grupo no que se refere à relação entre seus membros, e externa a ele no que tange a suas relações com a sociedade.

Hoje, observa-se a formação de um tecido heterogêneo de parcerias dentro de parcerias, em múltiplas camadas, desde as duais até aquelas de abrangência global. Luzes e sombras permeiam a realidade de cada uma delas.

Qualquer que seja a dimensão de uma parceria, a ética não alcança o melhor que pode oferecer quando se limita à observância acrítica de deveres e de restrições preestabelecidos. A parceria realiza o seu melhor potencial ético – dentro dos limites de tempo, espaço e circunstâncias – quando cada um dos integrantes, além de respeitar os acordos, abre espaço às demandas do outro, supre as necessidades pessoais sem desconsiderar as coletivas, corresponde às exigências do presente e do futuro, presta atenção ao mundo externo e ao interno, inclusive aos sinais que vêm do inconsciente, recusa-se a permanecer em posições unilaterais, não compactua com nenhuma forma de reducionismo, em suma, busca viver em harmonia com a totalidade do ser que o constitui.

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2 pensamentos sobre “Ética em Parcerias – Mário Batista Catelli

  1. Mário, gostei muito do texto. Me despertou algumas reflexões.
    Fiquei pensando se a nossa relação com o meio ambiente, com a natureza, também estaria nessa dimensão de parceria, e depois como entender a ética nessa relação?

    • Patrícia,
      Somente agora (22/10/2014) vi que o artigo foi publicado neste site (claro, com meu consentimento). Agradeço o seu retorno e o seu comentário. A relação com a natureza é, para mim, um dos grandes campos em que se expressam os valores éticos, uma vez que envolve um impacto sobre a vida humana, animal, vegetal – em suma, sobre a vida no sentido mais amplo; envolve o atendimento a necessidades imediatas bem como nossas perspectivas sobre a Terra. Podemos nos estender mais neste diálogo pelo e-mail mario_catelli@hotmail.com
      Um grande abraço!
      Mário

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