A Lógica da Ciência e a Lógica da Educação – Nilson Santos

A LÓGICA DA CIÊNCIA E A LÓGICA DA EDUCAÇÂO

NILSON SANTOS

nilson@unir.br

            O final do Regime Militar deveria significar o fim de um modelo “tecnificista” e racionalizante do ensino, proporcionando uma ruptura na sua articulação com o sistema produtivo, uma redefinição na identificação dos conteúdos e na tipificação do padrão de comportamento do professor.

O que chamamos de pedagogias libertadoras, libertárias, transformadoras, ou transformistas, acabaram, na maioria das vezes por sucumbir ao discurso e à razão da Ciência.

Educação para a qualidade ou educação voltada para a melhoria da qualidade de vida, muito embora procure rever conteúdos e métodos, quando o faz, não rompe a subserviência da lógica científica, que prescinde do humano. A razão cientifica nada mais é que um apêndice da Filosofia. Ela se apropria de uma forma de pensar, representando um modelo de investigação. Devendo respeitar parâmetros cognossíveis à Ciência, ou seja, deve ficar circusncrita a um pequeno universo de habilidades. Se isto parecia representar, como queria a tradição cartesiana, um horizonte seguro, plausível, identificável, revela-se uma prisão para a Razão, que se vê obrigada a tramitar dentro de um roteiro que não admite a especulação, o erro, a intuição, o sonho, o desejo, que, portanto, não pactua com o humano.

A ciência ao reconhecer exclusivamente os seus procedimentos, descarta a possibilidade de ampliar seu universo, descartando ainda a possibilidade de criar além do que ela mesma prevê, como um imenso jogo de xadrez, cujas alternativas de jogadas são quase infinitas, porém não ultrapassam os limites do jogo, ultrapassar significa descaracterizá-lo, e isto não pode ser reconhecido. Assim à Ciência, não reconhece nada que aconteça fora de seus muros, não reconhece como Humano, rotula logo de místico, mítico, especulativo. A própria Filosofia por não se submeter, é encarada como “imaterial” ou como suspeita.

A educação, portanto, ao se deixar seduzir pelo discurso da Ciência, pensa a si mesma e a sociedade a partir da lógica da produção, das relações instituídas, joga o jogo institucional, despoja-se do Humano, apoderando-se da Técnica.

A educação gerada no seio da Anistia apropriou-se do mesmo discurso do tecnicismo para poder destruí-lo, porém, ao substituí-lo travestiu-se dele, para ser mais competente que o tecnicismo. Boa parte das novas pedagogias quiseram mostrar-se mais “eficiente”, incorporaram conceitos e procedimentos fundamentais como a relação dialógica em sala de aula, apontou para o papel da ideologia dentro da escola, politizou professores e conteúdos: não foi suficiente.

Os currículos sofreram alterações profundas, mas foi mantida a lógica da Ciência, a lógica da produção.

Não raras vezes a própria Filosofia deixou-se instrumentalizar, obrigou-se a responder os problemas mais imediatos do homem, ou dasarmou-se de seu poder crítico, criativo, filosófico portanto, para tornar-se história do pensamento pensado.

Na escola, apesar de alguns esforços isolados, ensina-se o experimento realizado, aprende-se que Thomas Edson foi o inventor da lâmpada, conhece-se seu protótipo vitorioso, porém como se produz o conhecimento continua sendo uma grande incógnita para a maioria dos alunos, aos alunos compete aprender o pensamento pensado. Ou por vezes restringimos a grande produção cultural humana à assimilação de técnicas, de procedimentos científicos.

A educação na tentativa de consolidar cidadãos críticos e criativos, se torna mais criteriosa com a qualidade das informações que coloca à disposição dos alunos, esquecendo-se de algo que é fundamental. A escola e os meios de comunicação bombardeiam diariamente nossas mentes com muitas informações, porém ao estarmos desprovidos do Espírito Filosófico, armazenamos na memória algumas delas, até incorporamos em nosso discurso, mas somos incapazes de submetê-la a uma análise mais profunda; ficamos circunscritos ao limite da constatação, somos incapazes de emitir um juízo de valor filosoficamente conseqüente. Ficamos ao mesmo tempo estarrecidos e inertes.

Surge um abismo entre o que pensamos ser captado, o que pressupomos estar pensando, e por consequência o que acreditamos ser necessário empreender.

Faz-se necessário, ao refletirmos sobre a educação, libertá-la do encanto e do reducionismo da razão científica, para recobrar-lhe o humano.

Nas nossas escolas, supomos que os alunos chegam preparados com o conjunto de habilidades cognitivas genéricas, previamente desenvolvidas, ou simplesmente negligenciamos que ao lado dos programas com conteúdos mais ou menos flexíveis devemos concentrar nossos esforços no desenvolvimento de habilidades cognitivas específicas. Os alunos nem sempre estão preparados quando chegam à escola, ou seja, suas habilidades cognitivas genéricas não estão desenvolvidas; e os professores quase sempre não estão preparados para tal tarefa.

Assim quanto mais cedo nossas crianças puderem desenvolver suas habilidades de raciocínio, mais aptas estarão para lidar com os conteúdos de sala de aula, e mais preparados para a vida em sociedade, já que manipularão modos de pensar o mundo que ultrapassam a lógica da Ciência.

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