A Melhor de todas as Crises – Elisabete Christofoletti

publicado no Blog de Beto Bertagna: http://betobertagna.com/2013/02/25/a-melhor-de-todas-as-crises/#comments

A melhor de todas as crises

Elisabete Christofoletti

Chegamos a este mundo, tendo a possibilidade de trazer para nossos pais sentimentos contraditórios, porém importantes para a vida. Se por um lado há uma alegria, um encantamento mediado por nossa incompreensão de como a vida se dá, e de forma tão complexa, ali naquele bebe … por outro, causa dor a mãe pelo menos no parto, bem como tantas outras situações em que o anúncio da chegada de um bebe, abre as portas para muito sofrimento, abandono e tristeza.

Não evitamos o que a vida é, a questão, penso: é como lidamos com ela. Como convivemos com o que sentimos, que recursos encontramos para dialogar com o que chamamos de dores, feridas da Alma, que o viver nos apresenta.

Nesta caminhada pela vida, passamos por três bem conhecidas crises.

A primeira, chega com a mudança da condição de criança para adolescente: provocante, intensa, desengonçada, solta, tomando pé da vida, do mundo, e dos limites que são intensos tanto quanto os desejos.

A segunda crise, anuncia a metade da vida.

A terceira e ultima, acontece quando estamos finalizando nossa estadia por estas terras. Já não temos mais tempo.

Imaginem que passamos a vida toda escolhendo uma parede onde vimos que bem lá em cima tinha tudo de bom, o nosso melhor estava lá. Encostamos então, uma escada e fomos subindo, trupicando aqui, acolá, sobe dois, desce um, e os degraus são ficando para trás, mas … quando estamos já cansados, com pouca energia, avistamos o topo da escada, olhamos para a parede e só então percebemos que fincamos a escada na parede errada. Não há mais tempo, energia de descer e recomeçar. Borges em “Instante” fala sobre essa experiência, começa dizendo: “se tivesse outra vez a vida pela frente…”. Sempre que leio este poema, meu peito alegre, pois não tenho a idade do personagem do poema e não estou morrendo.

Bem, mas meu propósito é mesmo que rapidamente, olhar para a segunda crise, aquela que chega lá pela metade da vida. Na psicologia chamamos de metanóia.  Para mim é a mais bela das três.

Ora, somos adultos nesta crise. Temos energia, recursos internos, somos brothers da vida, não dependemos de ninguém nos dizer como fazer algo, se podemos ou não, porém, as escolhas são nossas e as consequências também. É uma vivência intensa de dor e Alegria.

Ela chega quando já temos uma escolha profissional, direcionamos a vida afetiva, sabemos do que somos capazes pessoalmente, afetivamente, profissionalmente.

Há certo cheiro de um tipo de estabilidade no ar. Degustá-la por um tempo é agradável, mas há uma demanda interna, que nos impulsiona a sermos nós mesmos.

Temos a oportunidade de tomarmos esta crise, ou oportunidade que a vida nos dá, tomá-la nos braços, senti-la, estabelecer um diálogo, sem tanto medo, quase sem defesa, e buscar dentro de nossa Alma, o que nos torna pessoas, o que me torna Uma pessoa, individual e coletiva ao mesmo tempo.

Como tudo na vida, corremos um risco danado nesta crise, de atribuir “culpa” pelas dores a quem está próximo e nos é tão caro, mas tendo a coragem de saber que essa angústia (que dá um medão), não é chuva de verão, demora um pouco, porém, só o necessário, quem sabe anos, mas se sentida e compreendida com os olhos, os ouvidos, o coração, o corpo da Alma, nos trará um sentimento de inteireza, uma paz, um silêncio Dionisíaco, por isso sempre transformador, que só não é invejável, porque afinal de contas, todos nós temos a mesma possibilidade.

Podemos viver uma antropofagia na metanóia e no português claro: sermos felizes.

elisabete.christofoletti@gmail.com

…………….

NR: Por ocasião de um lançamento de livro na saudosa Livraria da Rose, entre um copo de vinho e um canapé, num papo prá lá de informal, a Dra. Bete veio atualizar a lista de tormentos do ser humano. Eu, ainda fazendo o Mobral no que se refere a temas relacionados aos males da alma, ouvi pela primeira vez, encantado e aterrorizado ao mesmo tempo, o termo “metanóia”. De lá prá cá, já se passaram muitos anos, e a “metanóia”, tal qual uma pele que recebeu a bactéria botulínica, está cada vez mais forte e vigorosa. Quá ! Divido com os meus honrados leitores a descoberta. Feito isto, me coloco em silêncio dionizíaco…

#psicologia analítica#

#cirse meia idade#

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4 pensamentos sobre “A Melhor de todas as Crises – Elisabete Christofoletti

  1. É Bete, tomar a crise nos braços, estabelecer um dialogo e ainda quase sem defesa, parece quase uma missão de herói …acho que e por isso que ela acontece na metade da vida, pois aí já fizemos algum exercício com todas as outras crises anteriores. Quando acabei de lê seu texto, me veio a Lenda do Graal, em especial a imagem de Parsifal quando consegue fazer a pergunta ao rei, neste caso perguntaria: a quem serve a crise? Penso que serve a cada um que se permite vivê-la. Gostei do silêncio dionisíaco, espero encontra-lo na minha crise, rsrs…

    • Oi Patrícia, Eta coisa danada é essa de crise. Mas como a dona chega sem pedir permissão e está acordada como nossa Alma e defende oque de melhor temos… aí não tem jeito.

  2. Bete. Na~o resta a menor duvida que A Melhor de todas as crises e´ recheada de alegria e muita dor. Somos todas as possibilidades e sabemos te-la, mas mesmo assim a busca pela verdade da nossa Alma ´e um caminho longo e solita´rio, que vale muito a pena. Adorei seu texto.

    • Beth, solitário mesmo quando estamos entre os queridos. solitário nesse mundão de meu deus. solitário na partilha. Sabe, tenho pensado que este caminho tão particular e por isso coletivo, só não é solitário quando estamos nutridos de Amor. Aí… aiaiai… a Alma se anima e evoca o silêncio dionisíaco. um beijo

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