Uma Leitura Simbólica Junguiana do filme”A Lenda de Beowulf” – Junior C. Minin

Uma Leitura Simbólica Junguiana do filme “A Lenda de Beowulf”[1]

Junior Cesar Minin[2]

junior.Minin@gmail.com

 

Resumo: Partindo da importância psicológica atribuída por Carl Gustav Jung ao Mito do Herói, o presente artigo faz uma leitura simbólica junguiana da produção cinematográfica “A Lenda de Beowulf”. O enfoque recai sobre o personagem Beowulf, nos três principais episódios da trama: luta contra Grendel, luta contra Mãe de Grendel e batalha contra seu Filho-dragão. Os conceitos de sombra e individuação norteiam a leitura simbólica deste trabalho.

Palavras-chave: Herói; Beowulf; Sombra; Individuação.

Produção cinematográfica lançada em 2007, “A Lenda de Beowulf” é a adaptação do mais antigo poema épico inglês, que narra a história do lendário herói Beowulf nas terras da Escandinávia.

Considerado o mais importante escrito da cultura anglo-saxã, de autoria anônima, a história da origem do poema permanece controversa. Indícios apontam que surgiu na forma escrita entre 680 d. C e 725 d.C na Inglaterra, antigamente conhecida como Nortúmbria. Originalmente sem título, recebeu o nome Beowulf em 1805 (MAGALHÂES, 2008).

            O poema pode ser dividido em três grandes episódios: luta contra Grendel, primeiro feito heróico; luta contra a mãe de Grendel e Reconhecimento do herói; luta contra o dragão, último feito heróico e morte (MARALHÃES, 2008). Estes três momentos serão analisados neste trabalho do ponto de vista simbólico junguiano, a partir das imagens que nos são apresentadas no filme.

Como tantas outras produções contemporâneas, o filme traz a tão conhecida figura do Herói. Para a Psicologia Junguiana, o Herói é um tema arquetípico, isto é, encontra-se presente em todos os lugares, em todos os tempos e em todas as culturas.

A idéia de arquétipo foi pensada por Jung (1986) ao observar que os conteúdos da psicose, dos sonhos e da mitologia eram constituídos por predisposições psicológicas básicas e universais, que estariam na base da formação da personalidade. A estas predisposições atribuiu o nome de arquétipos (Arquétipo do Herói, do Pai, da Mãe, da Criança, dentre outros). Ao lugar psíquico onde se encontram abrigados chamou de inconsciente coletivo, parte da psique formada ao longo de nosso processo evolutivo enquanto espécie humana.

Os arquétipos não se tratam de “idéias inatas, mas de caminhos virtuais herdados.” (JUNG, 1982, p. 13, § 219). Significa que são predisposições, possibilidades, virtualidades psicológicas e, portanto, podem ou não serem ativadas pelo indivíduo ao longo da vida.

Uma vez ativados, a maneira como cada um vive a expressão na consciência dos arquétipos é única, apesar de serem constituídos por uma essência psicológica compartilhada entre todos os homens. A essência é o Arquétipo em si, o não perceptível e potencialmente existente, enquanto que a imagem arquetípica é a expressão dos Arquétipos na consciência, agora perceptível e atualizado (JACOBI, 1991).

Apesar das variações culturais, o tema do Herói encontra-se amplamente presente na mitologia. O mito é um conjunto de histórias relatadas de geração a geração que contém os segredos dos homens, da vida e do mundo. Conhecê-lo nos capacita a apreender a dinâmica da psique e sua transformação, em suas reações, desejos e sentimentos (ALVARENGA, 1983). Os mitos são expressões da psique, e é neste sentido que Jung acreditava na importância do estudo da mitologia. Ela sintetiza realidades arquetípicas fundamentais, e conhecê-las para melhor conhecer a si mesmo e o outro se tornou parte essencial da psicologia junguiana.

Os Heróis: também podemos aprender com eles, pois “a busca do conhecimento de si mesmo é anseio de todo ser humano e o herói mítico é a melhor expressão do buscar-se” (ALVARENGA, 2009, p. 14).

Quando o assunto então é psique, o Arquétipo do Herói é de fundamental importância, e tem sido amplamente considerado na literatura junguiana. Não é por acaso que as histórias heróicas tanto nos fascinam. Elas “são modelos exatos de como funciona a mente humana, verdadeiros mapas da psique. São psicologicamente válidas e emocionalmente realistas, mesmo quando retratam acontecimentos fantásticos, impossíveis ou irreais. Isso explica o poder universal dessas histórias” (VOGLER, 2006).

Olhar para o Herói Beowulf à luz da Psicologia Junguiana, que tem o mito do Herói como uma importante expressão arquetípica porque traduz e representa aspectos essenciais da psique do homem, é o que faremos neste trabalho.

Uma leitura simbólica, dentre tantas possíveis

A história começa com uma típica celebração do povoado do Reino de Hrothgar. O festejo é modesto, mas insuportável para a sensível audição de Grendel, um demônio solitário que vive com a mãe em um covil distante do Reino. Grendel se desespera com a algazarra e devora alguns habitantes. O desafio é lançado pelo Rei Hrothgar: “Os Deuses nada farão por nós que não façamos sozinhos. Precisamos de um Herói”. Ao saber dos rumores, Beowulf se proclama como aquele capaz de aplacar a cólera do demônio, dizendo fazê-lo por glória e não por ouro.

Quando o jovem Herói aparece para enfrentar Grendel, encontra-se em seu aspecto mais impetuoso e corajoso. Mesmo com os alertas do povoado sobre o risco do desafio e sendo acusado pelo Conselheiro Unferth de querer satisfazer o próprio orgulho e vaidade, Beowulf enfrenta o monstro completamente despido, convicto de que pode derrotá-lo.  Diz o Herói: “Então eu matarei o seu Grendel. Eu, Beowulf, matei uma tribo de gigantes. Esmaguei crânios de serpentes marinhas, e este…este seu Troll, não os incomodará mais”.

Beowulf contra Grendel: http://media.kino-govno.com/images/beowulf/beowulf_6.jpg

A crença inabalável de Beowulf na própria força, junto ao desejo de glória, parecem manifestações da inflação egóica. De acordo com Pieri (2002), Jung caracteriza a inflação do ego como um estado de prepotência e presunção. O ímpeto, a coragem e autoconfiança são atributos necessários para que todo herói complete sua jornada, mas perigosos quando administrados por um ego inflado. A inflação dificulta a análise crítica de si mesmo e da realidade externa, em uma espécie de cegueira narcísica onde não se vê muito além do próprio ego.

Byington (2008), autor da Psicologia Simbólica Junguiana, apresenta uma idéia que nos interessa. Ele considera que todas as funções da vida (o amor, coragem, inveja, medo, etc) não são boas ou más em si mesmas. Depende da maneira como são vividas. Se administrada pelo ego de forma criativa, a função serve ao crescimento saudável da personalidade; se vivida de forma defensiva, instala-se na Sombra – que para o autor é a parte da psique formada por uma distorção na maneira como elaboramos os símbolos.

No caso de Beowulf, a arrogância, a vaidade e o desejo de poder aparecem de forma defensiva, isto é, permanecem inconscientes na sombra do Herói.

O primeiro grande desafio é enfrentar Grendel. Este, na batalha contra Beowulf no famoso salão de Hidromel do Reinado, dirige-lhe uma fala muito interessante: “Eu não sou demônio!”. Grendel aponta para a necessidade de que Beowulf veja para além de seu ego inflado e confronte o “demônio” que existe dentro de si mesmo – sua própria sombra.

Grendel: http://users.task.com.br/rsilveira/lendadebeowulf01.jpg

Para Jung (1977), a sombra é o arquétipo da personalidade que abriga os traços, emoções e idéias não aceitas pela consciência e desconhecidas pelo indivíduo. Quando negada ou ignorada, torna-se ameaçadora e destrutiva, mas é capaz de se tornar criativa na medida em que se integra à consciência. Este é um pressuposto essencial no processo de individuação descrito por Jung (1982), na medida em que só podemos nos tornar aquilo que realmente somos se pudermos também reconhecer partes de nós mesmos que não nos agradam.

Para avançar na individuação, Beowulf precisa ser capaz de reconhecer, elaborar e integrar sua sombra (vaidade, orgulho, desejo de poder) de forma criativa. Precisa ser capaz de entender o que Grendel quis dizer quando foi acusado de ser o verdadeiro demônio.  Entretanto, Grendel perde um dos braços, escapa do salão e morre em seu covil. Beowulf não consegue vê-lo morrer, o que simbolicamente pode nos dizer se encontra incapaz neste momento de integrar a própria sombra, isto é, de observá-la morrer como sombra e renascer integrada à psique consciente, então transformada.

Uma segunda possibilidade de confrontar a própria sombra surge ao aceitar a tarefa de batalhar contra a mãe de Grendel. O Herói parece sentir medo à medida que entra na caverna escura e inundada. Espera encontrar um demônio grotesco e feio, surpreendendo-se ao emergir da água uma belíssima e sedutora mulher.

Mãe de Grendel: http://hqverse.blogspot.com.br/2007/11/neil-gaiman-fala-sobre-beowulf.html

Ela pode ser vista simbolicamente como a representação da anima de Beowulf, um sistema de expectativas do homem com relação à mulher que surge para auxiliar o Herói a acessar o inconsciente (GAMBINI, 2008), estando lá aspectos destrutivos e potencialmente criativos de sua sombra que não foram integrados na batalha contra Grendel. Anima também significa o “caminho da criatividade, das grandes transformações da psique” (ALVARENGA, 2009, p. 19).

A água que ocupa a caverna pode simbolizar o inconsciente, o corpo de Grendel estirado em uma das rochas nos remete à sombra do Herói, e o ouro como representando a possibilidade criativa de transformação do inconsciente.

Beowulf é então mais uma vez alertado, agora por sua anima, sobre a necessidade de confrontar sua sombra: “Sei que debaixo desse glamour é tão monstruoso quanto meu filho Grendel”. A Anima tenta mostrar à Beowulf que ele luta por orgulho, vaidade e poder.  Entretanto, ela testa o herói, seduzindo-o: “Enquanto você me amar e o chifre dourado estiver em minha posse, você será eternamente rei, eternamente forte, grande e poderoso. Isto eu prometo. Isto eu juro.” Beowulf escolhe mais uma vez não encarar a sombra de frente, sucumbindo à sedução. Concede um filho à mãe de Grendel e lhe entrega a Taça do Dragão Real, um magnífico chifre de ouro que recebera do Rei como recompensa por Grendel.

É interessante notar o que o ouro – na forma do chifre dourado – parece simbolizar nesta altura da trama. Ao entregá-lo temporariamente como parte do acordo, é como se Beowulf desistisse de sua capacidade criativa e de transformação. Até aqui, o Herói não parece interessado em seu próprio “ouro” (preciosidades psíquicas). Chega ao reinado avisando que não anseia “ouro”, mas glória: Beowulf não busca vida psíquica, fica preso no sombrio desejo de poder e reconhecimento.

Beowulf escolhe, assim, o caminho mais curto, um atalho para se tornar forte, grande e poderoso. Não escolhe o caminho da individuação, que só viria através do confronto com a própria sombra. Beowulf se transforma por fora, mas não por dentro: A Canção de Beowulf, o valente, é cantada por todos, menos por ele próprio. Torna-se um Herói vazio, Herói apenas por fora.

Beowulf: http://walls.free.total-wallpapers.com/free-wallpapers/1839/beowulf.jpg

Este “vazio” fica mais claro quando, de repente, nos deparamos com Beowulf mais velho. Parece amargurado, arrependido e sem a vitalidade psíquica do jovem Beowulf. Em um diálogo com um homem que invade o reinado, o Herói expressa o sofrimento de estar morto em vida – morto psiquicamente: “Sabe por que não pode me matar, meu amigo? Porque morri faz muito tempo, quando era jovem.” Parece que não há movimento psíquico criativo em Beowulf.

Há quem faça a mesma coisa que todo mundo, quem viva para o dinheiro, para a moda ou para qualquer coisa indicada pelo coletivo. […]. Em psicoterapia, é conhecido como mimetismo psicopático esse seguir de forma medíocre os slogans e as receitas para viver. Atualmente isso acontece com escandalosa profusão e nada tem a ver com o viver psicológico. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2010, p. 38).

O viver psicológico – a psique em movimento – parece não suportar uma vida superficial, baseada apenas em modismos coletivos. Ou seja, a existência de vida psíquica implica no que Jung chama de individuação, o que significa se aproximar cada vez mais de nossa natureza profunda, dos chamados internos ou reclamos da psique, chegando ao que há de mais único e precioso em cada um de nós.

Beowulf mais velho: http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/foto/0,,11995213-EX,00.jpg

Quando nos afastamos da individuação, pode surgir a sensação de vazio, de que falta algo fundamental que precisa ser preenchido como condição para uma vida mais rica de sentido. O vazio de Beowulf pode ser entendido como conseqüência de escolhas do passado e do presente que não estão de acordo com as necessidades de sua psique e, portanto, não pertencem ao processo de individuação.

Neste ponto precisamos retomar Beowulf quando chega ao Reinado para enfrentar Grendel. Seu ego encontra-se inflado, de acordo com a leitura simbólica deste trabalho. As conseqüências da inflação, em minha análise, ocorre em pelo menos dois sentidos.

O ego se fecha na própria inflação e não observa com atenção – ou desconsidera – a realidade externa. Quando Beowulf enfrenta Grendel despido, demonstra sua coragem e auto-confiança. Por outro lado, a inflação o leva a arriscar a própria vida mais do que o necessário. Também põe todo o Reino em risco ao sucumbir à sedução da mãe de Grendel, percebendo as possíveis conseqüências só mais tarde através do Rei Hrothgar que o alerta sobre a maldição.

Outro resultado da inflação é que a psique se empobrece, isto é, prepotência do ego dificulta o reconhecimento e confronto com o inconsciente para avançar no que Jung (1982) chama de individuação – o processo por meio do qual nos tornamos aquilo que realmente somos. Beowulf parece cada vez mais tomado pela sombra à medida que não busca reconhecer e integrá-la: não escuta Grendel que afirma não ser um demônio; não escuta a mãe de Grendel que o acusa de satisfazer o próprio orgulho e vaidade, deixando-se seduzir por ela; até chegar a um terceiro elemento representativo da sombra, seu filho-dragão, gestado pela mãe de Grendel.

Por outro lado, com o tempo, Beowulf torna-se também mais maduro. Há um nítido contraste com o ego inflado do jovem-herói Beowulf. Apesar de intensamente tomado por uma ferida na auto-estima e preso nos sentimentos de culpa e impotência, o que observamos neste momento é alguém que se considera cheio de defeitos, reconhecendo-se em sua humanidade[3]. Tem consciência dos erros cometidos no passado e se responsabiliza por eles.

Este novo contexto psicológico – de um Beowulf mais maduro – parece fundamental para a terceira fase da trama. O chifre dourado é devolvido pela mãe de Grendel à Beowulf, indicando que o acordo de paz se encerra. Simbolicamente, Beowulf recupera o seu “ouro”, isto é, a capacidade criativa de seu ego, a vitalidade psíquica perdida na sombra da vaidade, do orgulho e do desejo de poder.

Diante de seu filho-dragão, Beowulf encontra sua última possibilidade de redenção e, diferente da juventude, não luta contra o dragão por glória, mas para proteger o reinado. Assume a atitude de um verdadeiro Herói, que se sacrifica pelo coletivo com honra e nobreza.

Jung (1989) acreditava que, além do ego, que é o centro de nossa consciência, existe um elemento psíquico fundamental na individuação, chamado de Self ou Arquétipo Central. Ele não só organiza os diferentes Arquétipos de nossa personalidade, como conhece e expressa o que há nela de mais singular.

Em sua autobiografia, Jung (1989, p. 19) afirma: “Tudo o que nele [no inconsciente] repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade.” Para que a personalidade se desenvolva, de modo que o indivíduo se aproxime cada vez mais da individuação, o ego precisa se conectar com o Self dando espaço para que o mesmo se constele. A inflação egóica dificulta esta conexão, por acreditar que o ego é a única realidade psicológica de valor.

O movimento de Beowulf para salvar o Reino de seu filho-Dragão parece decorrer de uma demanda de seu Self. Não para ser eternamente glorificado como o Grande Beowulf, mas porque ele precisa fazer para se transformar em Herói também por dentro. O ego mais maduro de Beowulf parece mais conectado com este arquétipo organizador da personalidade, o Self. Depois de anos de reflexão, elaboração e aprendizado, é que a tarefa de lutar contra o monstro – a sombra – teve um caráter transformador.

Considerações Finais

Esta não é a única leitura simbólica possível para “A Lenda de Beowulf”. Como Jung (1988) afirmava, os significados dos símbolos são inesgotáveis porque se fundamentam no inesgotável inconsciente criativo do homem. Além disso, outros símbolos como a Rainha, o Rei e o Conselheiro, trazem outros significados que poderiam enriquecer nossa compreensão da psique.

Escolhi enfatizar o personagem Beowulf por considerá-lo um símbolo que representa aspectos essenciais do processo de individuação. A escolha do conceito de individuação como linha mestra da leitura simbólica de Beowulf deve-se à sua importância na vida psíquica, e a cujo entendimento Jung dedicou sua vasta e complexa psicologia.

A individuação permeia nossa existência durante toda a vida, e implica na árdua e contínua tarefa de vasculharmos nosso mundo subjetivo, com todos os seus encantos e desencantos, forças, fraquezas, potencialidades, virtudes e conflitos.

O Herói, como mencionado anteriormente, do ponto de vista simbólico, é a melhor expressão deste processo arquetípico de busca pela singularidade (ALVARENGA, 2009). É por isso que as histórias heróicas tanto nos mobilizam – porque elas traduzem essa nossa trama subjetiva de imparidade.

A trama de Beowulf, neste trabalho, é vista como um Herói que não consegue lidar com a própria sombra e, por isso, se distancia do processo de individuação. Só quando na meia-idade, Beowulf descobre que assumir a função de Rei apenas para se tornar forte, grande e poderoso é uma tremenda sedução do coletivo. Seu ego se alimentou desta realidade por um tempo, até ser acometido por uma sensação de arrependimento e vazio. Beowulf não encontrou vida psíquica enquanto Rei ou enquanto Herói após se deixar seduzir pela mãe de Grendel.

Encontramos um paralelo na contemporaneidade muito semelhante à condição de Beowulf enquanto Rei: a fama. Associada mais diretamente a profissões no campo da música e do cinema, a fama é invejada pelo coletivo por trazer promessas de popularidade e riqueza, o que é equacionado como felicidade. Conforme discutimos, o problema não é assumir a função de Rei ou ser famoso, mas assumi-las sem vida psíquica, sem individuação. Lembremo-nos de Byington (2008): depende de como vivemos as funções da vida, se criativa ou defensivamente.

Ao tomar consciência de sua pobreza psíquica, já não havia tempo para Beowulf optar por uma vida mais próxima de sua individuação. Entretanto, diferente do passado, conseguiu se aproximar de sua psique ao escolher o caminho da redenção, sacrificando-se pelo Reinado.

“Falar de heróis-heroínas é contar histórias de nossas próprias vidas”, como escreveu Alvarenga (2007, p. 117). Todos somos Heróis em busca de nossas respectivas singularidades.

 

Referências

ALVARENGA, M. Z. Édipo: um herói sem proteção divida: a saga dos labdácidas. São Paulo: Caso do Psicólogo, 2009.

ALVARENGA, M. Z. O Graal: Arthur e seus Cavaleiros. Goiânia: Dimensão, 1997.

BYINGTON, C. A. Psicologia Simbólica Junguiana: A viagem de humanização do cosmos em busca da iluminação. São Paulo: Linear B, 2008.

GAMBINI, R.  A Voz e o Tempo: Reflexões para Jovens Terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

JACOBI, J. Complexo, Arquétipo, Símbolo na psicologia de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, 1991.

JUNG, C. G. Chegando ao inconsciente. In: JUNG, C. G. (Org.). O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977. p. 18 – 104.

JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. 3 ed. v VII/2, Petrópolis-RJ: Vozes, 1982.

JUNG, C. G. O Desenvolvimento da Personalidade. 3 ed. v XVII Petrópolis: Vozes, 1986.

JUNG, C. G. Memórias, Sonhos, Reflexões. 12 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. 360 p.

LÒPEZ-PEDRAZA, R. Sobre Eros e Psiquê: um conto de Apuleio. Rio de Janeiro, Petrópolis: Vozes, 2010.

MAGALHÂES, L. D. Beowulf, a Épica Anglo-Saxã e o Tema do Cantor.  Língua, Literatura e Ensino, v. 3, p. 289 – 299, Maio/2008.

PIERI, P. F. Dicionário Junguiano. São Paulo: Paulus, 2002. Tradução de Ivo Storniolo.

VOGLER, C. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 49.


[1] Trabalho apresentado e publicado nos anais do II Seminário de Psicologia (SEP) – “50 anos de Psicologia no Brasil: A produção do conhecimento e as desigualdades regionais”, realizado pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) em 2012, Porto Velho, Rondônia. Edição 01, p. 1 – 9.

[2]  Psicólogo e Membro do Grupo de Psicologia Analítica (GPA) de Porto Velho, Rondônia. Texto contando a história do GPA por Elisabete Christofoletti, intitulado “Jung em Porto: Uma história”, pode ser acessado em https://gpaportovelho.wordpress.com/2013/02/16/jung-em-porto-uma-historia/.

[3] O trecho sublinhado não consta na versão original deste trabalho.

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