PROFESSORES E PASTORES ENTRE KAXARARIS E KARITIANAS — Nilson Santos

PROFESSORES E PASTORES ENTRE KAXARARIS E KARITIANAS

Nilson Santos

Docente do Curso de Mestrado em Geografia – UFRO

nilson@unir.br

As centenas de políticas públicas voltadas à questão indígena têm sido tão diversas e difusas que é muito difícil compreender o modo como são absorvidas e o que elas efetivamente conseguem consolidar para o todo da cultura indígena. A diversidade de programas, de metodologias, de referenciais teóricos, e de grupos, conseguem, quando muito, realizar uma avaliação de curto prazo dos desdobramentos das ações desenvolvidas nas diversas aldeias, deixando as perspectivas análise de impacto de médio e longo prazo orientadas por conjecturas típicas de futurólogos

Ao longo dos anos, passam pelas aldeias pastores evangélicos, médicos, professores, garimpeiros, funcionários públicos, enfermeiros, freiras, soldados e toda sorte de pessoas “bem ou mal intencionadas”. O impacto dessas formas de contato foge ao controle, ultrapassando o que conscientemente se gostaria de ver desencadeado. Um celular, um estetoscópio, um GPS, um palm top, uma cartela de anti-bióticos podem simbolicamente, e por conseguinte, materialmente trazer conseqüências devastadoras na mudança de hábitos e valores.

Se pastores são tão intransigentes no trato com os pajés e etnocidas na incapacidade de lidar com a diversidade, enfermeiros que atuam em projetos de saúde e introduzem o diagnóstico de malária feito a partir de análise de mostra de sangue, ao mesmo tempo em que salvam vidas, acabam por desfigurar a espiritualidade e desautorizando ainda mais os pajés, os responsáveis pelo contato com o mundo dos espíritos, e com  os poderes de cura. Os microscópios substituem cocares e chocalhos, os comprimidos de primaquina tomam o lugar das defumações, e dos remédios da floresta.

Tudo que decorre do contato põe em cheque os valores e práticas existentes. Cada gesto, cada objeto são responsáveis por um grande movimento da consciência e da história da comunidade, sem que possamos ter a real dimensão das representações decorrentes.

Escola e Identidade Kaxarari

Muito embora estivéssemos em pleno verão de junho a estrada que até a principal aldeia oferecia condições muito ruins de transporte tornando o acesso difícil. O território Kaxarari fica ilhado por propriedades privadas sendo obrigatória a passagem por trilhas e pequenas estradas das fazendas de gado. Pedreira, a mais próxima e maior delas foi o local marcado para o encontro com os professores das outras aldeias.

A supervisora da Secretaria de Educação começou atuar em Educação Indígena há um ano e luta pessoalmente para realizar o acompanhamento dos professores, mas não consegue visualizar os desdobramentos do ensino bilíngüe, nem mesmo está muito convencida de sua importância, aliás nem mesmo sabe qualquer forma de se comunicar na língua Kaxarari.

De maneira geral entre as quatro aldeias dos Kaxararis há uma supervalorização do Português, a maioria dos professores vem da cidade e só sabem se comunicar em uma língua. Aliás, a escolha preferencial de professores que só falam Português vinha sendo exigida pelos próprios caciques a fim de favorecer somente esta modalidade de ensino. Juntamente com o desconhecimento de sua própria língua, todos os demais saberes da aldeia não fazem parte da escola.

Ao longo da semana que estive na aldeia raramente não se ouviam conversas que não fossem em português. Geralmente eram as mulheres que, de forma reservada, mantinham a conversa na língua.

Neste sentido tanto a supervisora quanto os professores precisariam conhecer a língua, a história e os demais elementos da cultura dos Kaxararis sob risco de manterem os conteúdos escolares voltados apenas para a cultura do branco, se opondo a própria política da Secretaria de Educação em tornar o ensino bilíngüe a referencia para projetos de educação indígena.

A preocupação com educação não partiu dos órgãos públicos, segundo José César, desde ao anos 90, a primeira professora da escola dos Kaxararis veio de Rio Branco, quando os índios a mantinham e pagavam o salário com a venda de borracha, depois outros professores vieram e foram mantidos na mesma condição. Assim tem sido desde que a antiga aldeia foi abandonada por conta da invasão de fazendeiros. Lá havia um tapiri feito de palha, e com o deslocamento da aldeia, foi construída a nova escola de madeira pelo governo do Acre.

Alberto é o atual cacique, e pretende permitir a entrada de madeireiras na aldeia, influenciado por seu filho que mora na cidade e tem sido procurado por madeireiros que vendem a ilusão de riqueza para a família do cacique e o compromisso de só retirarem a madeira que eles permitirem durante o tempo que autorizarem. As reuniões para autorizarem a retirada de madeira, têm sido tensas, confusas e uns poucos têm se unido ao cacique para colocar adiante o projeto, a maioria percebe que a riqueza de alguns vai ser a desgraça de todos os demais, enquanto isso o filho do cacique tem acompanhado os engenheiros florestais da madeireira fazerem o levantamento da área e o inventário das espécies que vão ser derrubadas. Seu irmão, José César, gostaria que a tradição do pajé voltasse, e tem se mostrado muito triste e apreensivo.

Nas conversas sobre a aldeia com Alberto e José César é notório o incômodo do irmão que perde o sorriso e afirma com semblante carregado que muitas coisas deixaram de ser ditas, e usadas porque os mais novos não se interessam mais. Tanto que não realizam festas há muito tempo; a colheita, a caça, a pesca deixaram de representar o início de novos ciclos de vida e de períodos de fartura, mesmo porque a cada ano é mais rara a caça, e o peixe, e cada vez maior a área de plantio, obrigando-os a aumentarem o tempo de trabalho como agricultores. A redução de oferta de comida tem obrigado os homens a trabalharem como peões nas fazendas vizinhas em troca de salários irrisórios por longos meses, alguns costumam ficar fora da aldeia por meses perambulando em busca de trabalho.

O que deveria ser uma reunião com a comunidade acabou se revelando uma conversa com alguns adultos que estavam na aldeia e os professores. Deste contato aproveitamos para enfatizar a importância do ensino ter um caráter prático mais intenso, de conseguir ensinar as duas culturas, e saber escrever nas duas línguas. Sobre o perfil do professor, espera-se que ele se aproxime mais dos mais velhos que conhecem melhor a língua e dominam mais plenamente o vocabulário a fim de implementar a escola bilíngüe, além da necessidade de deles mesmos aprenderem falar na língua.

Nesta mesma reunião acabamos abordando a ação de retirada de madeira da reserva. O clima bastante tenso é evidencia que a comunidade não está decidida a autorizar o trabalho das madeireiras, mesmo porque os últimos acontecimentos de garimpagem na Reserva do Roosevelt, com notícias de terror e morte em áreas indígenas os têm deixado apreensivos.

As quatro aldeias não têm mais pajés. Ele figura como uma espécie de inconsciente da aldeia e de superego. Ocasionalmente quando a aldeia começa a se envolver em demasia com a cultura do branco, o pajé começa a receber mensagens do mundo dos espíritos alertando sobre as desgraças que vão ocorrer, dando início a pajelanças procurando fortalecer o seu espaço e eliminar as fragilidades, uma espécie de trabalho preventivo envolvendo toda a população em seus rituais, além de realizar rituais no próprio território da aldeia. A visualização da intervenção do pajé acaba fazendo com que a aldeia reveja sua prática, ampliando a relação com o território sagrado de toda a reserva. Os rituais religam vivos com os mortos, re-significam a relação espaço vivido e território, a extensão territorial deixa de ser mera abstração para recobrar o sentido sagrado de cada igarapé, cada piseiro de anta, cada caminho, cada roça, cada árvore, e o lugar de cada entidade mítica.

Sem essa consciência, eles acabam prisioneiros das condições do presente, vivendo a reboque dos valores e da dinâmica que o branco impõe. Ficam reféns das ações de agentes de saúde, professores, técnicos, engenheiros, bem como de madeireiros, garimpeiros, políticos e toda gama da escória econômica. O processo de reflexão sobre a vida, a revigoração dos valores passa necessariamente pela figura do pajé.

A vulnerabilidade entre os Kaxararis é mais visível, pois restou a eles somente o cacique como liderança, que mais se parece com um presidente de cooperativa administrando o trabalho na aldeia e as ações que são desencadeadas. Nem mesmo festas específicas de colheitas foram mantidas. Ocupa-se dos “negócios”, das ações de saúde, da escola, das estradas, dos projetos. O cacique da aldeia Pedreira disse desejar que houvesse na aldeia carro para levá-los para a cidade, casa de alvenaria, escola de branco, luz elétrica, tudo o que representa o modo de vida e o conforto do branco. Neste sentido a aldeia muitas vezes se apresenta com um cotidiano de uma vila rural de pequenos agricultores que abriga famílias de trabalhadores ocupados com a sobrevivência do dia a dia, muito dependente do apoio dado pelos órgãos do Estado na forma da implantação das escolas e contratação dos professores, doação de medicamentos, e manutenção da estrada. Como disse professor Miguel: o Estado não traz nem mesmo remédio para dor de cabeça.

Como conseqüência, os mitos de origem e as histórias dos brancos se sobrepõem de forma esquizofrênica. No discurso mítico, a origem do futebol se deve a Tsurá, grande divindade, que se revolta contra as mulheres por porque elas jogavam sem roupa expondo seus corpos nus, assim, Tsurá as expulsa do jogo, entregando essa prática somente aos homens.

Neste sentido a coordenação pedagógica da Secretaria de Educação não pode se furtar a estimular seus professores a dominarem a língua Kaxarari. A dinâmica da aula deveria fazer com que a prática bilíngüe fosse garantida nas expressões de escrita e oralidade. A melhor forma de o professor dar boas aulas em português, passa pela necessidade de todos saberem a língua, principalmente os professores. Fazer com que os adultos aprendam a escrever na língua, é lidar com a cultura viva, é oferecer uma outra ferramenta de registro de comunicação, além de ser forte exercício dos mitos, da história e dos modelos de pensamento e organização de vida.

Os professores apenas executam as aulas contidas nas cartilhas encaminhadas pela secretaria de educação, não há um preparo anterior da aula, eles simplesmente retomam dia-a-dia o livro didático que a Secretaria de Educação compra para as escolas urbanas.

A relação da escola com a aldeia se limita a algumas reuniões com os pais, no entanto, deveria ter um papel duplo: ser ambiente que propicia o aprendizado, que oferece experiências e conteúdos, aos alunos, e igualmente se relacionar com a comunidade para criar canais para que ela manifeste o conhecimento que tem, sofrendo nesta dupla ação pedagógica o re-avivamento e a re-criação dos mitos e da vida. Gera o conhecimento para a comunidade e igualmente recebe dela conteúdos. O professor é alguém que torna acessível o que sabe, e é permeável ao conhecimento que a comunidade elabora e tem sistematizado.

Os mais novos nem sempre compreendem certas palavras que os mais velhos usam, neste sentido eles devem se apoiar mais vigorosamente no conhecimento existente, devem trazê-los para a escola com a mesma intensidade e dinâmica com que tornam acessível aos alunos aquilo que sabem, devem tornar o conhecimento escolarizado e o universo cultural da aldeia em objetos de reflexão na sala de aula, dar a mesma importância ao conteúdo dos livros bem como às músicas e histórias que os mais velhos conhecem.

Se os professores somente conseguem ensinar o que sabem, e devem estar abertos ao conhecimento vivo que acontece no dia a dia, negligenciar a dinâmica da vida nas aldeias representa o mesmo que condenar os Kaxararis a se tornarem meros trabalhadores e consumidores, pondo fim o narrador e a narrativa. Neste sentido é importante trazer principalmente os mais velhos para falarem sobre a memória da aldeia, sobre as histórias que deram a origem a vida de cada um resgatando sua teogonia e sua natureza, bem como as experiências vividas ao longo dos anos de contato com o branco. Todas as atividades da aldeia precisam fazer parte da escola porque elas (aldeia e escola) não são elementos cujas existências são independentes. A escola não pode ser um entreposto de informações, nem ser mero organismo do Estado para viabilizar um currículo, deve ser a própria comunidade, algo que dialoga com os saberes que a dinâmica social da aldeia vai produzindo. Se a história e a língua do branco se tornam acessíveis pelos livros e pela presença do professor, é necessário trazer para a sala de aula o que é a vida e a história da aldeia a partir de sua própria língua e cultura.

A escola da aldeia se torna meramente escola de branco se for refratária ao contexto cultural em que está inserida, porque ela traz a cultura do branco, sua temporalidade, sua ideologias, e sua ciência. A história e a geografia do branco são relatos de como o branco vê o espaço, ocupa o lugar, se relaciona e organiza sua sociedade a partir da dinâmica social e temporal que carrega. A forma de marcar a presença no território que os Kaxararis tem, a origem do nome da aldeia, as histórias dos mitos, e a definição do seu território nascem de sua própria geografia e história. Se grande parte da história do branco está relatada nos livros, toda a história de vida do povo Kaxarari está garantida na dinâmica da presença e na memória que antigos e novos carregam. Se a aldeia perdeu seus rituais e formas de fazer com que a história e a identidade da comunidade permaneçam vivas, cabe também à escola recriar esses rituais para viabilizar a catarse, para revigorar os laços com sua própria cultura, caso contrário, mesmo não pretendendo, tanto a dinâmica da escola quanto a participação do professor se tornam instrumentos de fomento da cultura dominadora do branco, representando nova forma de genocídio, diferindo apenas nos instrumentos que foram utilizados ao longo da história do contato do modo de vida do branco com as diversas culturas indígenas. Fazendo coincidir o resultado final, ou seja, antes as aldeias eram dizimadas por força do medo, da bala, da doença, e da morte. Hoje a escola dizima pelo apagamento de uma cultura, pelo esquecimento, pela vergonha e negação de todo um modo de vida, pela inculcação do modo de ser e viver do ocidente. Não são poucas as aldeias que já se referem a sua própria língua como “dialeto”, usando a expressão “língua” para o português, revelando a importância de uma sobre a outra, afirmando o Português como centro da comunicação, atribuindo ao seu “dialeto” o valor de mero adereço.

O estágio em que se encontram as aldeias dos Kaxararis, se deve ao modo como se vêem na relação com a cultura ocidental, a forma de representarem os velhos, e as condições históricas que enfrentaram. Trazer estes valores e códigos de significação de mundo para a sala de aula é o mesmo que recobrar a consciência, trazer a história da aldeia para ser celebrada na escola. Cada pedaço do território tem a vida dos Kaxararis, tem a marca de quem caça e pesca, das milhares de flechas atiradas, conta com a presença do pajé que sabe onde encontrar as plantas que curam, dos açaizeiros e pupunheiras, das guerras, dos cemitérios.

Identificar um piseiro de anta, fazer espera, construir um bom arco, usar os poderes do pajé faz parte da história e da ciência dos Kaxararis, e tudo isto deve estar presente na escola. Aos alunos serve muito pouco o conhecimento da geografia do branco se quando saem para caçar se perdem. Neste sentido a escola tem que dar conta das duas culturas, tem que ser ainda mais eficiente, para que a aldeia consiga manter sua identidade, defender seu território, além de saber lidar com a dinâmica da cidade.

Como a comunidade não participa da escola, há que se fazer um trabalho em cada maloca, trazer os pais para falarem sobre o que conhecem e sabem da aldeia. Desta forma a escola deixa de ser apenas um espaço do professor e do conhecimento escolar.

Enquanto a escola for vista como lugar à margem da aldeia, como território de branco, tudo o que a envolve será atribuído ao professor, da mesma forma que certas atividades são desenvolvidas exclusivamente por homens ou mulheres.

Como a escola não dinamiza a prática bilíngüe, ela é identificada como problema e responsabilidade de branco, por isso poucos vieram às reuniões marcadas para a noite, nem mesmo o cacique demonstrou qualquer interesse ou cuidado.

Quando ela se configurar de forma bilíngüe, quando todos perceberem que a cultura Kaxarari é conhecimento re-vivido e re-significado, é parte do processo de ensino-aprendizagem, quando os alunos tiverem como tarefa observar, aprender, ver, anotar, praticar, reproduzir, perguntar sobre tudo o que envolve a vida da aldeia, os adultos vão se interessar mais por ela e irão se sentir mais valorizados. Neste sentido os professores têm sido apenas divulgadores da cultura do branco, tornando-se meros reprodutores da cultura de fora, se esquecendo que a atitude que cada um deles tem na aula, diante da cultura do branco, diante da cultura Kaxarari, modela a atitude dos alunos diante de sua identidade cultural. Se o processo de aprendizagem das crianças se orienta pela observação e participação com os adultos na roça, na mata, no rio, na aldeia, eles deveriam fazer algo parecido na escola, ou seja, se é desta forma que os kaxararis estabelecem sua epistemologia, ela deve fazer parte dos saberes escolares. Mais impactante que o programa de conteúdos a serem desenvolvidos, é a atitude do professor diante do conhecimento. O que os mais velhos fazem se torna referência para as crianças, igualmente o que o professor faz se torna exemplo para os alunos.

O trabalho de supervisão deve funcionar como complemento da formação do Projeto Açaí, que objetiva a formação de professores, para isto sua dinâmica tem que se fundamentar nas duas formas de conhecimento.

As escolas têm uma diversidade de material que é pouco utilizada, de um lado isto evidencia o tipo de formação precária do professor e a qualidade de sua competência para dinamizar a aprendizagem, por outro as representações da secretaria da educação demonstram sua desorganização, pois não tem um inventário desse material para poderem otimizar seu uso. É possível encontrar mapas que os professores não sabem utilizar, maquinas de escrever, gravador, fitas de vídeo sem o aparelho de TV, aparelhos de vídeo sem fitas, bons dicionários, ábacos, coleções de livros de biografias, calendários em caixas ou simplesmente espalhados pelas salas.

A partir dos relatos dos professores sobre suas aulas, foram sugeridas mudanças na dinâmica da sala de aula. As carteiras deverão compor um semicírculo, os professores deverão falar menos e serem mais interrogativos, provocando o diálogo entre os alunos, fazendo com que a pedagogia da sala de aula se pareça com a forma das reuniões que a aldeia realiza para discutir e decidir sobre seus problemas. A disposição em fileiras das carteiras inibe os alunos a participarem e centralizam as atenções na figura do professor como detentor do saber e como sujeito do processo de aprendizagem, o que não se soma as propostas pedagógicas levadas adiante pela Secretaria de Educação.

A partir da forma de aprendizagem ocorrida na aldeia, foi sugerido aos professores que se apropriassem desse método, fugindo das aulas bastante tradicionais.

Há uma dificuldade muito grande em entender primeiramente o que é uma atividade prática e ela se aguça mais quando se percebe que os professores não percebem o caráter educativo dela. As aulas são abstratas e teóricas. Para José César levar as crianças para o mato é outro problema, pois elas não conhecem plantas, caminhos, nem os lugares, e nem mesmo os professores são capazes de fazerem isto com segurança, traduzindo esta atividade em algo que se possa aprender.

Na compreensão dos professores, na aldeia, a aprendizagem cotidiana não é mediada por processos dialógicos ou que necessitem relações mais complexas, pois o objeto da aprendizagem diz respeito ao processo de manutenção da sobrevivência física, como a produção de arcos, flechas, armadilhas, construção de ocas, no caso dos homens, e no caso das mulheres envolvendo o desenvolvimento de habilidades para a culinária, formas de cozimento de raízes, produção de farinha, preparo de peixes e carnes, plantio, e produção de utensílios domésticos. Apesar do trabalho com a roça ser para nós considerado “serviço de homem”, para os Kaxararis, por se tratar de uma etapa  no produção de alimento, ele é tarefa feminina.

A infância é um período da vida que não merece atenção direta dos adultos, elas aprendem espontaneamente, por iniciativa própria e por observação, andam pela aldeia, pegam os objetos de uso diário e manipulam ou “brincam” com eles. Próximo ao período de puberdade, quando acontecem os mais variados rituais de iniciação, os meninos são estimulados a acompanhar os homens nas caçadas e as meninas são trazidas para perto do fogo.

A proposta curricular para as escolas indígenas de envolve alguns conteúdos, objetivos e métodos que não foram observados no dia a dia da sala de aula. Esta etapa do Projeto Açaí, que implicou na observação de aula, levando-se em conta toda a preparação de nove etapas anteriores, e na discussão com os professores, demonstrou que de maneira geral os professores simplesmente reproduzem os livros didáticos, que em sua maioria foram produzidos para escolas urbanas. Por conseguinte muitos dos objetivos do projeto se transformam em temas transversais e acidentais. O resgate da história da aldeia, a identificação das práticas cultural, artística, religiosa e familiar não tem merecido atenção, e quando ocorrem se dão de forma fragmentária.

No caso dos kaxararis, onde dois dos professores mais atuantes foram trazidos da cidade, a cultura local é totalmente negligenciada. E por não serem kaxararis, não têm acesso aos propósitos de formação do Projeto Açaí nas Aldeias, e a toda a perspectiva do ensino bilíngüe que o projeto tem fomentado ao longo de suas etapas. Estes professores não sabem se comunicar na língua, transformando suas aulas em meros elementos de reprodução da escola do branco em condições muito precárias, cujo resultado parece duvidoso.

O referencial de prática pedagógica que os professores têm é bastante tradicional. Expressões como: “passar o assunto no quadro para os alunos aprenderem”, “ensino que eles têm que respeitar as regras de pontuação”, revela pouca intimidade com formas mais dialógicas de aprendizagem. A relação direta e voltada exclusivamente ao professor faz com que os alunos não estabeleçam relações de diálogo e aprendizagem entre si, reproduzindo o que há de mais formal e tradicional do nosso ensino.

O professor Dionísio que mora na aldeia é o menos empenhado e demonstra ser o que tem menor aptidão para o trabalho docente, está fora da sala de aula, mas tem mantido freqüência nas etapas do Projeto Açai. Durante a etapa na aldeia se mostrou entusiasmado pela tarefa de realizar um trabalho de recuperação das histórias e língua de sua etnia, mas não esconde sua dificuldade em lidar com crianças na sala de aula.

As aulas dos professores indígenas não diferem dos professores que vieram da cidade, pois eles não estão convencidos sobre a necessidade da escola bilíngüe: se os alunos sabem falar sua língua isto se deve ao aprendizado doméstico, ou seja, elas vêm para a escola sem saber falar kaxarari.

Somando-se a isto há uma pressão, principalmente da parte do cacique, para que a escola abra mão da cultura Kaxarari, voltando seus esforços por realizar uma educação tipicamente de branco. Isto tem tido reflexos em toda a aldeia, onde as famílias não têm uma relação orgânica com a escola.

A resultante deste conjunto é um grupo apático, disperso, sem consistência, e sem consciência do impacto que seu trabalho pode ter na aldeia.

Em função destas características, ficou bastante prejudicada a realização do Roteiro Para o Estágio Supervisionado, pois apenas dois dos seis professores tem participado do Projeto Açaí, sendo que apenas um está em sala de aula.

As professoras Denizete e Rosinalda, que não são Kaxararis, nem participam do Projeto Açaí, realizam o trabalho docente segundo a formação que receberam na cidade não tendo qualquer intimidade, nem a iniciativa de aprender a língua. Denizete fez curso de magistério e veio de Rio Branco à convite do cacique.

A professora Rosinalda completou a quinta série do ensino fundamental e assumiu o trabalho, reclama do diário de classe afirmando ser muito complexo de fazer o registro. Apesar de morar na aldeia há muitos anos, conhece poucas palavras e não fala a língua, dificultando até mesmo sua comunicação com o restante dos moradores da aldeia. Ambas demonstram ter boas aptidões para o trabalho docente, apesar da prática ser bastante tradicional e da formação frágil que receberam.

O planejamento é inexistente, pois fazem uso do material didático exatamente como é apresentado no índice do livro, substituindo qualquer necessidade de planejar aulas ou até mesmo de prepará-las. Alguns cartazes decoram a sala de aula, sem que isto seja presença da diversificação de instrumentos de aprendizagem.

O professor mais empenhado, e que por sinal destoa do grupo é Marcondes, que tem procurado aplicar a filosofia do Projeto Açaí na sala de aula. A escola da pequena aldeia Paxiuba, apesar de ser pouco aparelhada, sugere dinâmica. Marcondes já atuou num pequeno galpão coberto de palha de 2×2 metros, que chamava de escola.

A Aldeia Paxiuba tem dois professores, um atuando com crianças e outro com adultos. A freqüência dos alunos tem sido pequena porque no inverno eles vão quebrar castanha e no verão vão para a mata pescar e caçar.

O espaço com apenas a cobertura de palha que alagava a qualquer chuva, devido ao reconhecimento da aldeia e ao respeito que a comunidade tem pelo trabalho do professor Marcondes, mereceu a construção de um espaço mais adequado, contando com a ajuda da aldeia.

Aldeia Marmelinho, a mais distante das aldeias dos kaxararis, é a que oferece o acesso mais difícil, combinando estradas entre fazendas, rios sem ponte e trilhas no meio da floresta. Apesar da distância e do acesso difícil, é a mais influenciada pela cultura do branco. Todos falam  português e somente uns poucos ainda se lembram de sua própria língua. Segundo o professor Miguel a escola hoje tem poucos alunos porque os pais vão trabalhar nas fazendas e os filhos os acompanham ficando muitos dias sem comparecer às aulas.

Escola e Identidade Karitiana

A chagada na aldeia Karitiana Kyowã se deu no final de uma manhã seca do início do mês de julho. O nome Kyowã quer dizer boca de criança, o que fala faz, o que fala cumpre.

Na entrada da aldeia fica a escola, um prédio de alvenaria com cobertura de telhas de amianto. A pintura das paredes é padronizada em duas cores. As janelas pequenas de madeira pioram ainda mais o calor abafado das salas de aula, que apesar de não terem forro a temperatura é insuportável aos alunos do fim da manhã até o meio da tarde. Distante de árvores, o prédio escolar é a presença mais marcante e desconfortável do estado e da cultura do branco. O nome da escola (Escola M. E. F. 4 de agosto) não tem qualquer relação com o esforço dos educadores por viabilizarem o ensino bilíngüe, eles nem mesmo sabem o porquê do nome.

A construção e compõe-se de três salas de aula, um corredor central, uma cozinha, uma dispensa e um quarto usado como alojamento pelo representante da SEDUC, que passa parte do mês na aldeia acompanhando e supervisionando o trabalho dos educadores. Magno é o assessor da escola há um ano e meio e atua como um misto de supervisor, diretor, administrador e coordenador pedagógico. Neste tempo disse ter apenas começado com os professores a elaboração do planejamento escolar, a elaboração do calendário, e a organização da história da comunidade.

Quando de nossa chegada a aldeia estava vazia e umas poucas crianças que nos viram esconderam-se logo do intenso sol do meio dia. Logo sabemos que estão todos no roçado, envolvidos na colheita do milho. Apesar do preconceito histórico associar índios ao ócio, os karitianas trabalham exaustivamente todos os dias. Saem para o roçado com a primeira claridade do dia, e retornam somente quando o sol se põe, para preparem a última refeição do dia, enquanto alguns assistem televisão numa cobertura central da aldeia, outros, principalmente jovens vão a uma das três igrejas, sendo duas de denominação Batista, uma Igreja Cultural vinculada ao Sammer Institute, além da presença de uma freira católica.

Todos os pastores são karitianas e sua formação se resume as orientações ocasionais de pastores da cidade. Funcionando no clássico estilo pneumático, o culto tem uma orientação subjetiva e a pregação tem um caráter intimista, além de ser repetitiva. Os dias de cultos são os mesmo para todas as igrejas: quartas e sábados. A disposição espacial das igrejas repete o modelo urbano de um púlpito a frente, e bancos coletivos dispostos em duas fileiras, a ornamentação é feita com artesanatos elaborados pelos próprios “fiéis”. Enquanto a construção de uma delas lembra antigos barracões de seringal, outras duas lembram catedrais de palha, são reproduções das antigas malocas com estrutura de madeira, e totalmente recobertas com palha trançada. Mesmo que alguns deles não tenham apreço nem envolvimento com as igrejas, acham importante a presença das duas construções como representações do esforço em manter viva sua cultura.

O lugar da aldeia é cortado ao meio por um igarapé serpenteado onde todos lavam roupas e tomam banho. Nunca os vi “brincando” na água. Afirmam que faz muitos anos que não há mais ocorrência de peixe no rio.

A ligação entre os dois lados se dá por uma grande ponte de madeira, construída pelo branco, que destoa das casas da aldeia.

Depois de passarmos parte da tarde descarregando a comida e o material escolar, fomos preparar as redes no alojamento da secretaria de saúde que fica ao lado da escola.

Nesta noite, fomos nos apresentar de casa em casa e solicitar a presença de todos para as reuniões noturnas onde seriam expostos os motivos da visita e haveriam discussões sobre a escola.

Apesar dos professores saberem de nossa chegada, metade do grupo só chegou no dia seguinte.

Na casa que ocupa o espaço central da aldeia há uma cobertura central bastante grande, que abriga as reuniões da aldeia, este é reconhecido como um lugar sagrado, é o lugar das quatro toras.

Com nossa presença, e com um galão de combustível, foi possível ligar um grande gerador. Enquanto aguardávamos a chegada dos moradores assistirmos a parte final do telejornal e o começo da novela, na TV (opoko oom sobakapay – para ver a imagem do branco) alimentada pelo gerador que ilumina igualmente algumas malocas e a ponte. Quando decidimos pelo início da reunião os homens começaram a discutir entre si falando por quase meia hora na língua karitiana, aparentemente resolvendo problemas com relação ao trabalho no roçado, passando depois a falarem sobre nossa presença. O cacique Garcia que já não ocupa o posto é o mais consultado na discussão. As mulheres, que ficam em pé e fora do espaço das quatro toras apesar de falarem alto apenas comentam entre si o que os homens falam. Na discussão algumas palavras tomadas empréstimo do português são possíveis de entender como: importante, escola, projeto político pedagógico, governador, decreto, professor, outras são construídas como opoktop (chicha de branco – usada para cerveja e cachaça), isotãj (fogo de ferro – usada para isqueiro)

Apesar de ficarem de fora do espaço sagrado e de não falarem a não ser que sejam convocadas, as mulheres detém um alto controle sobre a aldeia. Por vezes, as decisões tomadas nas assembléias são posteriormente modificadas pela influencia que exercem sobre os homens.

Depois de um bom tempo foi possível que nos apresentássemos e disséssemos que estávamos na aldeia para a realização de um trabalho de avaliação junto aos professores e junto à comunidade do programa de formação de professores do Projeto Açaí.

A semana de lua cheia iluminou o terreiro todas as noites e inundou a rede atada no pequeno galpão aberto.

Na manha do primeiro dia de trabalho solicitei que os professores fizessem três desenhos com os seguintes temas:

1 – o que é importante na história da aldeia;

2 – como vêem o branco;

3 – sobre o papel da escola.

Começaram sempre com lápis preto fazendo os contornos, e depois, usaram cores para preencher os espaços, não aceitaram hidrocor alegando estragar o desenho.

No conjunto de desenhos sobre a historia da aldeia o rio é um elemento comum, acompanhado das ocas construídas com palha. Junto às ocas aparece uma tora deitada que é utilizada para nas festas para os homens se sentarem. A presença do peixe, das árvores também aparecem como parte da aldeia. Mesmo se tratando de um grupo de professores, nenhum deles desenhou a escola na aldeia, deixando claro que a escola não faz parte da aldeia.

A origem do povo Karitiana está marcada pela ocupação do território de outro povo que acabou se misturando: eram os Kapivaris, que ocupavam o mesmo lugar no igarapé onde hoje existe a aldeia Karitiana.

Processos semelhantes das transformações da origem e incorporações também ocorrem com suas divindades. Bota~yy, uma divindade mítica e guerreira, fica no terceiro mundo e domina todos os demais: o dos espíritos; o segundo composto pelo céu, pelas estrelas e pelo sol; e o terceiro onde fica a terra.

Com o contato com o branco, Bota~yy se traveste em Deus. Igualmente o seu filho Otanda senhor da terra e da superfície dos rios assume a condição de Jesus Cristo. Orá, igualmente filho de Bot~yy domina o mundo que fica abaixo da terra e as profundezas dos rios, que por analogia se torna o demônio.

Esse processo de “amansamento” promovido pelo branco e incorporado por eles, tem provocado um apagamento coletivo de certas características como a prática do canibalismo e a guerra como um dos elementos basilares de sua cultura.

Luis Carlos sobre seu primeiro desenho afirmou: “antigamente tinha muito peixe aqui onde é a aldeia, Karitiana morava em Candeias e veio pescar aqui onde tinha Kapiravi e ouviu um pássaro cantar e revolveu arremedar aquele pássaro. Veio atrás e viu uma oca e uma pessoa fazendo tocaia. Depois Karitiana veio conhecer a aldeia daqui. Ficou cinco dias e voltou, e o Kapivari convidou Karitiana para morar aqui porque tinha muito peixe.

João Batista: “No tempo de antigamente só tinha casa de palha, agora tem duas ocas aqui, e isto é importante para nós. Hoje mudou muito porque tem casa de alvenaria, tem casa coberta de telhas. A oca de palha é melhor é mais fresco, agora tem que fazer mais.”

Marcelo: “Antes tinha oca, era uma para todo mundo e quando estragava fazia outra.”

Quanto a representação que fazem do branco, ele aparece como alguém superior que ensina o branco a fumar, usa roupa, tem carro, estrada, tem casas, ruas, e leis de trânsito. Esta sensação de inferioridade do índio que só tem sua nudez (desenho de João Batista) é visível na maneira como encaram o conhecimento, e a escola a ponto de abrirem mão da sua forma de realizarem o aprendizado, incorporando procedimentos pedagógicos tradicionais do branco.

João Batista: “fiz uma comparação. Antigamente o índio não usava roupa, só tinha a pintura corporal, hoje usa roupa e muita coisa mudou.”

Sobre o papel da escola, todos apontam que ela deve fomentar a sua cultura, preservar as festas da chicha e da flauta; contribuir para manter seu modo de vida e as tradições do uso de plantas, e estimular a permanência das pinturas corporais. Na reunião, os adultos disseram estar preocupados em voltar a fazer as festas, uma vez que vivem tão envolvidos no trabalho da roça, tendo pouco tempo para preparar e fazer festas.

Estranhamente há uma distancia abissal entre a prática e o discurso recorrente na aldeia. Todos são enfáticos em afirmar que a cultura dever ser preservada, mas se empenham pouco em realizar isto. A escola não é percebida, nem pelos professores, como um espaço de vivencia da cultura Karitiana.

Da observação das aulas de quatro professores: Luis Carlos (professor da primeira série), Marcelo (professor da segunda série), Inácio (professor da terceira  série) e João Batista (professor da quarta série) ficou a impressão de uma formação pedagógica muito frágil, pouco afeita a dimensão prática. A aula do professor Marcelo mereceu atenção, pois ficou calado toda a aula, apenas copiando o livro didático no quadro negro.

A escola que realizam não tem desdobramentos práticos, eles não pedem para que os alunos tragam objetos para a sala ou façam coisas, nem mesmo os acompanham em atividades fora da sala de aula, reproduzindo o modelo teórico mais tradicional de aula.

O conhecimento familiar é passado sem mediações teóricas muito complexas, ele se dá pela experimentação, e imitação. Neste sentido o cotidiano de aprendizagem da escola é o oposto do que se pratica na aprendizagem das crianças na aldeia. Mesmo com professores sendo karitianas, o modelo tradicional de ensino se repete, apesar dos exemplos do dia a dia. Os professores rapidamente incorporam os modelos do branco, deixando claro que o cotidiano da escola e da aldeia tem pouco em comum.

A sociedade karitiana tem um forte discurso de respeito a palavra dos mais velhos, muito embora esteja desprezando seu pajé, que apesar de ter dado remédio e curado a missionária franciscana que mora na aldeia, continua a perder prestígio e respeito.

A interferência das igrejas evangélicas tem sido sentida na sala de aula pelo que os professores chamam de desunião da aldeia. Cada um pensa somente na sua igreja e não mais em toda comunidade, e os alunos tem repetido em sala que o importante não é estudar e sim estar de bem com Deus. A partir da conversão ao cristianismo messiânico é necessário se perguntar: se a igreja é a coisa mais importante por que ir a escola? Por que Estudar?

Aparentemente quem mais tem procurado manter viva a cultura karitiana são os pastores evangélicos. É claro que mais cedo ou mais tarde alguma forma de conflito religioso aparecerá. Hoje já é sentido que o pajé não tem tido espaço na comunidade, e ameaça não retornar mais à aldeia, fundando uma outra comunidade.

E já acontece certa acomodação sobre sua mitologia: a cosmogonia Karitiana, Bota~yy, agora Deus, acima dos 3 níveis, nunca foi acessível aos karitianas, mesmo os pajés conseguiam chegar, no máximo, ao mundo imediatamente abaixo que pertence aos espíritos. Os atuais pastores, por dizerem estar em contato direto com Deus, conseguem estar num nível superior ao dos pajés. Nesta hierarquia os médicos brancos são os curandeiros, pois cuidam das doenças do corpo, os pajés cuidam das doenças do espírito e os pastores têm o acesso direto a Bota~yy.

O trabalho em sala de aula é tão tradicional que faz pensar sobre o tipo de formação que vem ocorrendo no Projeto Açaí. Os professores dividem suas aulas em disciplinas de maneira estanque, mantêm o ritual comum de notas, provas com perguntas de certo e errado,  atividades de repetição, cópia,  chamadas e mantém expressões como “passar de ano”, “aluno atrasado”, “aluno adiantado”.

No início de uma aula o professor fez a seguinte anotação na lousa:

Escola M. E. F. 40 de agosto

Data: 01 de agosto de 2004

Aluno:

Professor:

 

Disciplina: Língua Portuguesa

 

Leia e copie:

 

O jacaré, a jibóia e o bode

 

O jacaré bebe café

A jibóia bebe cajuada

E o bode?

O bode joga dado e bebe água de coco

 

ja –  je – ji – jo- ju

 

Em função da dificuldade dos professores indígenas realizarem operações matemáticas com frações, fizemos algumas atividades práticas, com o objetivo de estimulá-los a repetir o mesmo em sala de aula. As disciplinas de Geografia e História são verdadeiros laboratórios experimentais. Como ainda não há uma sistematização escrita da cultura Karitiana para essas disciplinas, isto pode correr de maneira dinâmica pelos professores, percorrendo lugares, e ouvindo dos velhos as histórias, eles têm a possibilidade de dinamizar as disciplinas e dar mobilidade aos seus conteúdos, mas em função de suas tarefas na escola, os professores têm se distanciado das atividades realizadas na aldeia como a agricultura e a caça. Isto os torna ainda mais distantes de se sentirem estimulados a acompanhar seus alunos.

Não há um preparo anterior da aula por parte dos professores, eles simplesmente retomam o livro didático na seqüência da aula anterior.

A relação da escola com a aldeia tem se dado a partir de algumas reuniões formais com os pais. A escola tem um papel duplo: por um lado ela é um ambiente que propicia o aprendizado, que oferece experiências e conteúdos, aos alunos, e a comunidade, e por outro cria canais para que a comunidade manifeste o conhecimento que tem, sofrendo a ação pedagógica. Gera o conhecimento para a comunidade e igualmente recebe dela conteúdos.

O professor é alguém que torna acessível o que sabe, e é permeável ao conhecimento que a comunidade elabora. Os professores mais novos nem sempre compreendem certas palavras que os mais velhos usam, neste sentido eles devem se apoiar no conhecimento existente devem trazê-los para a escola com a mesma intensidade e dinâmica com que tornam acessível aos alunos aquilo que sabem, devem tornar o conhecimento escolarizado e o universo cultural da aldeia objetos de reflexão na sala de aula, dar a mesma importância ao conteúdo dos livros e as músicas e histórias que os mais velhos conhecem. Afinal os professores somente conseguem ensinar o que sabem, e devem estar abertos ao conhecimento vivo que acontece no dia a dia. Neste sentido é importante trazer principalmente os mais velhos para falarem sobre a história da aldeia, sobre as histórias que dão sentido a vida, bem como as experiências acumuladas. Assim, todas as atividades da aldeia precisam fazer parte da escola porque elas (aldeia e escola) não são instituições cuja existência independem uma da outra. A escola não pode ser um entreposto de informações, nem ser mero organismo do estado para viabilizar um currículo, deve ser a própria comunidade, algo que dialoga com os saberes que a dinâmica social da aldeia vai produzindo. Se a história e a língua do branco se tornam acessíveis pelos livros e pela presença do professor, é necessário trazer para a sala de aula o que é a vida e a história da aldeia.

Desta etapa do projeto Açaí duas tarefas foram discutidas e deverão ser implementadas. A primeira envolve a identificação dos livros didáticos, dos para didáticos, dos livros de literatura que a escola tem, para que seja organizada uma biblioteca na sala de aula, onde os alunos poderão manipular os livros, aproximando-os do universo da leitura, bem como servirá de estímulo aos professores para que também organizem suas leituras.

A segunda tarefa implica na reativação da Casa Bilíngüe. Neste sentido um dos professores que atua na sala de aula deverá implementar ações de fomento a memória da aldeia, registrando e organizando os relatos dos velhos sobre a formação da aldeia social e territorial da aldeia. Este espaço irá organizar um programa de educação de adultos prioritariamente na língua karitiana, pois enquanto os mais jovens sabem escrever na língua e não tem domínio vocabular, os adultos sabem a língua mas não sabem escrever.

A escola vai ampliar seu raio de atuação, trabalhando com os adultos no período da noite.

O responsável pela Casa Bilíngüe, na medida em que as aulas aconteçam, fará o registro em fitas para posterior transcrição, estendendo seu trabalho a visitas para gravar as histórias, músicas, gerando textos didáticos a serem utilizados com as crianças.

A partir da observação das aulas, foram sugeridas mudanças na dinâmica da sala de aula. A disposição em fileiras das carteiras inibe os alunos a participarem e centralizam as atenções na figura do professor. Elas deverão compor um semicírculo, os professores deverão falar menos e serem mais interrogativos, provocando o diálogo entre os alunos, fazendo com que a pedagogia se pareça mais com a forma das reuniões que a aldeia realiza para discutir seus problemas.

Sobre a atuação do assessor Magno. A SEDUC, na medida em que disponibiliza um funcionário para estar a disposição da aldeia, deva estabelecer um roteiro de trabalhos e tarefas a todos os assessores das aldeias a fim de otimizar o trabalho desses profissionais. A princípio ficou acertado que o assessor irá organizar a biblioteca nas salas de aula, fomentar e orientar a leitura para os professores, auxiliá-los na preparação das aulas, estimular a dimensão prática e retomar o trabalho de elaboração da história da aldeia.

Como ponto de partida para a organização dos conteúdos das disciplinas, elaboramos um esboço para Geografia:

Segunda Série:

Geografia Karitiana

– localização da casa

– localização dos meios de orientação na aldeia

– rios

– moradias

– território

– produção ecxonômica: extrativismo, plantio

– poderes na aldeia

– associação

– ong`s

Terceira Série

– poderes na aldeia:

– igrejas

– pajé

– cacique

– professores

– associação

– outras aldeias

– outras associações

– instituições

– rios do município

– floresta do município

– estado: povos indígenas

 

Quarta Série:

– populações do campo: seringueiros, MST, ribeirinhos, agricultores, garimpeiros

– destruição de áreas indígenas

– povos da cidade

– migração

– estradas

– os povos indígenas na Amazônia e do Brasil

– o movimento indígena brasileiro

– instituições indígenas

– degradação ambiental no Brasil

– desmatamento

– queimadas

– poluição dos rios

– garimpos

Elaborar um calendário escolar foi bastante difícil para nós, não para eles, porque as festas que eles realizam ao longo do ano não têm fixidez de calendário. Temos a necessidade convencional de registrar as manifestações do tempo, ou da natureza num calendário matemático, sem levar em conta que as características daquilo que queremos registrar não obedecem necessariamente ao calendário. A piracema não ocorre num determinado dia de um determinado mês, mas se dá quando certas condições se sobrepõem.  Portanto fixar em um dia, ou até mês as festas que envolvem colheita, caça, pesca só fazem sentido quando naturalmente esses eventos se manifestam. Na verdade as festas indígenas são ainda mais radicais neste aspecto, pois é possível que ocorra um determinado evento sem que haja na aldeia a construção do espírito coletivo para aquela festa. Em algumas ocasiões os karitianas simplesmente não realizam algumas festas postergando para outro semestre ou até mesmo para outro ano.

Quando o pajé não sente que há um clima favorável na aldeia, percebendo que o nível de conflitos compromete o efetivo envolvimento da aldeia, a festa simplesmente não acontece. A realização de um evento na aldeia não se dá simplesmente por uma convenção social, mas por ser a representação de um conjunto de manifestações que envolvem dinâmica da natureza e dinâmica social. As festas não são obrigações protocolares, mas manifestações vivas da aldeia. A festa da jatuarana pode ocorrer em qualquer dia de janeiro, fevereiro setembro ou simplesmente não ocorrer naquele ano.

A festa da jatuarana acontece se o rio encher, se a jatuarana aparecer e se houver uma necessidade ou uma predisposição social para que o evento ocorra, fugindo da idéia do estabelecimento de um calendário fixo para as festas.

Certas comemorações que a cidade realiza tem meramente significação abstrata como dia da escola, dia da pátria, dia da mulher, registrados num abstrato calendário, comemorando de forma meramente formal, pois temos uma sobreposição de signos vazios, que podem ser imediatamente preenchidos com qualquer coisa. Isto significa que mesmo sem haver uma disposição interna, ou mesmo um amálgama social que justifique podemos comemorar algo por protocolo, simulando o clima de festa, celebrando artificialmente, fechando o ciclo de abstrações vazias.

A compreensão disto foi difícil e os professores foram repetitivos e insistentes até que nós conseguimos entender e admitir esta possibilidade.

Para eles a exatidão do evento se materializa quando os elementos que fazem parte se evidenciam.

PLANEJAMENTO ANUAL DAS FESTAS E ATIVIDADES DA ALDEIA E CALENDÁRIO ESCOLAR

JANEIRO                                           FEEREIRO                               MARÇO        

18 dias letivos                                  20 dias letivos                      20 dias letivos

Festa da jatuarana (5 dias)

Festa da chicha( 3 dias)

ABRIL                                                 MAIO                                     JUNHO                      

20 dias letivos                                  20 dias letivos                      20 dias letivos

colheita do milho               colheita do milho

Flor do Maracujá

(Porto Velho)

JULHO                                                           AGOSTO                               SETEMBRO                

férias dos alunos                             20 dias letivos                      20 dias letivos

Projeto Açaí                                    pescaria com timbó          pescaria com timbó

(5 dias)                                  plantio do milho

OUTUBRO                                         NOVEMBRO                         DEZEMBRO               

18 dias letivos                                  Projeto açaí                         22 dias letivos

Tapagem (barragem do rio)        Tapagem                              festa da chicha

(3 dias)

Natal (2 dias)

Ano Novo (2 dias)

 

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Um pensamento sobre “PROFESSORES E PASTORES ENTRE KAXARARIS E KARITIANAS — Nilson Santos

  1. neste texto sinto uma inveja criativa danada da capacidade de integração. a vivência dos mitos do lugar, das mitologias pessoais.
    fico pensando, na sensação dos que vieram “nos colonizar” e no desespero da incompreensão quando entraram em contato com nossas florestas, nosso povo. deve ter sido insustentável mesmo, só restava aniquilar, matar deixando vivo, para não se sentir ameaçado.
    será que ainda continuamos fazendo isso?

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