Para que não percamos o ônibus das Utopias – Castanho

da net: http://blog.teatroficina.com.br/

“Para que não percamos o ônibus das utopias.”

por Castanho

Protestos e passeatas em diversas capitais do país. Em São Paulo a cada dois dias reúnem-se ao menos cinco mil pessoas. Há uma onda crítica chamando-os de vândalos.

1977. Neste ano começaram pequenas mobilizações. Raras passeatas. Pequenos grupos tentando se manifestar. Dentro das faculdades, as discussões eram sobre melhores condições de ensino. Haviam enfurecidos embates sobre falta de papel nos banheiros e a qualidade da cantina. Os temas parecem, hoje, banais. Então romperam as salas de aula. Era um movimento que passava a caminhar depois de ficar estático em 1975 quando da morte de Herzog. Usp, Puc e Cásper Líbero. Neste período éramos visionários e as palavras de ordem começaram a brotar como que por encanto. Não sabíamos onde queríamos chegar com exatidão. Genericamente gritávamos “abaixo a ditadura”, que era um motivo objetivo. Fim da Lei de Segurança Nacional. Anistia. Mas, lembrem-se: começamos com o as questões banais. Enfrentávamos a polícia. Jatos d’água com areia e tinta, cacetetes e, em algumas ocasiões, baionetas. Em determinadas manifestações erramos. Destruímos bens públicos. Fomos chamados de vagabundos, terroristas, inconsequentes, isso nos momentos mais elogiosos. Fichados pelo DEOPS, agraciados com o Artigo 477. Mas, não se iludam: nós, cada um de nós, derrubou sim a ditadura. Estávamos no ônibus das utopias. Embarcamos e a cada quilômetro rodado tínhamos um monte de certezas e um punhado de dúvidas. Estas, no final, venceram. Mas nos forjamos assim.

2013. Estou 35 anos e duas filhas mais velho. Como pai sofro de um incômodo público e notório. Sinto que minhas filhas não possam (ou não pudessem) compartilhar de uma utopia coletiva. Sinto pois as utopias fazem com que sejamos adultos melhores e com sonhos que permeiam a busca de justiça. As utopias impedem que a coluna se vergue a ponto de considerar normais preconceitos, fome e repressão. As utopias alimentam a ideologia. Não é exatamente o que Marx diria, mas… É com este olhar que as manifestações pela passagem de ônibus me surpreendem. Com um misto de compreensão e de alegria.

É banal dizer que as passeatas impedem o direito de ir e vir. Tal direito é impedido pelo preço das tarifas excessivas como excessivos são os preços de aluguéis, alimentação e outros. Quando ouço que São Paulo é cara, via de regra falam dos restaurantes, do cinema ou do estacionamento. Os indicadores são os dos abastados. Ouvi até dizerem ser um absurdo manifestantes que se mobilizam por “apenas” R$ 0,20. Sofremos um deslocamento de classe. Para a maioria de nós, que estávamos nas passeatas, R$ 20,00 mensais quase nada significam. Se não nos atrapalha e nem atrapalha a vida da imensa maioria dos 5 mil manifestantes, por que reclamam? Bem, não sou gay e participei de atos contra a homofobia e da Parada Gay. Sou ateu e defendo a liberdade religiosa. Sou brasileiro e contra a invasão do Afeganistão. Alguém imagina que só os jornalistas devam defender a liberdade de imprensa? Ah, diriam: mas a liberdade de imprensa afeta a todos. E a passagem de ônibus não. Eles se mobilizam porque descobriram que possuem este direito. Que podem falar por quem não consegue falar. Encontraram um mote que os une além das roupas, músicas e falta de perspectiva. Dizem que a maior parte deles não tem consciência e são cobrados por isso. Agora eles usam a consciência que tem e agem. Mas são criticados por agir. Querem jovens conscientes desde que pensem como o status quo. A consciência exigida, pensam, deve ser moldada a golpes de cacetete e com a batucada de tiros e bombas para que dancem conforme a música. Finalmente os jovens estão em descompasso.

Fico surpreso quando leio os textos da imensa maioria dos jornais. Na década de 70 chamávamos a imprensa como garantia de respeito. A imprensa, no episódio, não está se dando ao respeito. Não falo dos repórteres, alguns deles inclusive agredidos e presos. Não falo das pessoas físicas. Falo das palavras impressas ou das imagens dispersas.

Os jovens e seu movimento não sabem onde exatamente querem e vão chegar. Talvez porque a utopia esteja sob seus olhos. A utopia é conseguir organizar, manifestar, agir em grupo intervindo no fazer social. Vi um ex cineasta falando que as manifestações lembram o que aconteceu em São Paulo quando dos ataques do PCC. Colocou definitivamente uma lente distorcida em seus olhos. A mesma lente que dispara tiros de borracha, bombas, borrifa spray pimenta como se os jovens fossem criminosos. O crime que cometem é descobrirem que agora utopia não é o futuro. É o presente. Havia algo no ar. Agora está nas ruas.

Eu, repito, 35 anos e duas filhas mais velho, prefiro que elas estejam nas ruas a ficarem sentadas num apartamento coma boca cheia de dentes esperando a morte chegar. Talvez por nostalgia. Talvez porque ainda tenha nos óculos redondos um pouco de maluco beleza. Mas, tenho certeza de que os jovens fazem bem, certo e devemos a eles a oportunidade de nos lembrarmos do que somos feitos. Se resta em cada um de nós um fiapo de sonho e um relance de utopia, temos a chance de descobrir em qual dobra do corpo estão.

Eles não são vândalos. Erram ao destruir patrimônio público. Vão aprender que o bem público é pago com o dinheiro dos impostos da cada cidadão. Que é errado pichar, depredar ou destruir um bem público. Mas estão aprendendo sozinhos. Nas décadas de 70 e 80, havia um grupo de políticos, artistas e outros dando guarida a cada manifestação. Nos protegeram em diversas delas. Estes, que dariam guarida hoje, fazem parte da geração de 70. São nossos filhos, filhos de nossos amigos, sobrinhos que estão nas ruas. Onde estão os deputados, senadores, vereadores e outros que viveram e se forjaram exatamente nas passeatas da década de 70? Estão onde não deveriam estar. Longe e com olhar severamente crítico. E o pior, alguns fazendo coro contra os tais vândalos. Infelizmente para eles a utopia chegou ao ponto final.

*Justiça seja feita: vejo agora uma foto de Plínio de Arruda Sampaio na manifestação. Tenho centenas de divergências com ele. Mas sou obrigado a dizer que está onde um político deve estar. Em tempo 2: Toninho Vespoli, vereador do PSOL, também esteve na manifestação e em uma delegacia.”13jun2013---o-ex-deputado-estadual-e-ex-candidato-a-presidencia-da-republica-plinio-de-arruda-sampaio-psol-defendeu-a-manifestacao-pela-reducao-das-tarifas-de-transporte-coletivo-em-sao-paulo-nesta-1371162575222_192

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2 pensamentos sobre “Para que não percamos o ônibus das Utopias – Castanho

  1. VIVA A DIVERSIDADE !!!!
    Enquanto as pessoas saem as ruas para uma grande catarse: protestando, caminhando, correndo, provocando, pintando, apanhando, quebrando, gritando, dancando, … outros mudam de opiniao de olho no ibope (triste Datena e Ronaldo), outros ficam fazendo malabarismos linguisticos para continuar a descredenciar os movimentos (telejornais da rede globo), outros ainda ficam preocupados apenas com o futebol (Pele pedindo para que as pessoas deixem de protestar para apoiar a seleçao de cartolas e corruptos do futebol).
    Viva a diversidade e a mudanca !!!
    quem sabe amanha teremos os datenas, ronaldos, e peles olhando a lua e nao simplesmente seus tristes egos narcisistas !!!!

  2. Poizé Nilson, foi lindo ver um Datena sendo detonado ao vivo, por falar em Pelé, vi uma foto na rede onde o Maradona segurava um Cartaz dizendo “Pelé no es solo por 20 por centavos” http://statigr.am/p/482643963049602345_399940954
    Vendo as transmissões feitas pelos telejornais, acho incrível o enfoque que eles dão aos “vandalos” e mostram com menor enfoque o apelo das pessoas.

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