Os Camelos Também Choram: no Resgate da Nossa Humanidade – Elisabete Christofoletti

Os Camelos Também Choram: no Resgate de Nossa Humanidade

 

Elisabete Christofoletti

elisabete.christofoletti@gmail.com

Este documentário de noventa minutos de duração foi apresentado em 2003, fruto de um trabalho de final de curso da escola de cinema  da Alemanha de dois diretores estreantes, Luigi Falorni e Byambasuren Davaa, que concorreu ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor documentário. A proposta inicial contemplava a vida do povo nômade moradores do Sul da Mongólia, no deserto de Gobi, mas com a época de nascimento dos filhotes de Camelos, os diretores tiveram a sensibilidade necessária para sentir o material que tinham em mãos e cederam ao novo, presenteando-nos com o cotidiano de uma família onde acolhimento, cuidado, paciência, generosidade, persistência, tolerância são vivências profundas, como o trabalho do analista. Em meio à delicadeza, o contato com o belo e o rude.

Um filme onde seus diretores não se conheciam, um encontro ao acaso na Universidade em Munique, sem nenhuma história fantástica, com grandes heróis, é um filme que fala das pessoas e cuida da relação homem-natureza (como brilhantemente apresentado no filme francês Crin Blanc em 1953, a união do cavalo com o menino, os impulsos instintivos que quando reprimidos nos distancia de uma vida mais harmoniosa, de nossa totalidade) sem fragmentação ou dissociação.

Enquanto vinha me bezuntando neste filme e preparando este texto, Ananta, nossa cachorra está prenha e dá a luz a dez lindo filhotes. Eu, pensava e vivia os Camelos, quando participamos da morte de um filhotinho, seu adoecimento, a dificuldade da amamentação e nossa luta para que a mãe e seus filhotes tivessem saúde. Pura Sincronicidade!

O filme tem início com uma lenda, sobre Camelos.

Em uma ocasião pelo reconhecimento da bondade dos camelos, Deus lhes presenteou com chifres, mas um dia o veado pediu o chifre emprestado para se enfeitar e participar de uma festa. O Camelo, como conseqüência de sua própria bondade emprestou, mas nunca mais lhe foi devolvido. Desde então os Camelos ficam olhando no horizonte com o olhar perdido, distante, esperando que o veado volte para lhe devolver os seus chifres.

Os Camelos são animais melancólicos, contemplativos, lento, das poucas e escolhidas afecções, símbolo de sobriedade, equilíbrio, resistentes e justamente aqueles que ajudam a atravessar o deserto, conduzindo o homem de um Oasis a outro.

Em CHEVALIER e CHEERBRANT (1993), encontramos a simbologia do chifres como eminência, elevação, poder, fecundidade, segundo os Hindus é potência, do bem contra o mal, troféu, apropriação da força (que vemos em muitas culturas pela batalha se come, fica com algo do inimigo vencido). Na tradição Judaica e Cristã o chifre simboliza a força e tem o sentido de raio de luz. Pode representar a força divina e a arrogância e agressividade dos soberbos. Na tradição Celta é uma força defensiva. Jung, símbolo de abertura e iniciação como no mito do carneiro de “tosão de ouro”. Representa ambivalência, um princípio ativo e masculino e outro passivo e feminino por sua abertura em forma de lira e receptáculo. Quando une estes dois elementos o ser humano assumiu-se integralmente, atinge a maturidade, o equilíbrio, à harmonia interior.

Seria esta então uma História sobre Confiança? Ou uma História em como nos sentimos despossuídos de nossos chifres, de nossa vitalidade?

Somos mergulhados em um quotidiano bastante concreto pelas necessidades de afazeres muito práticos, sobrevivência destas quatro gerações, do contraste entre novo e velho constantemente, a maneira como vivem as hierarquias.

Seria esta uma história sobre o novo e o velho? Sobre a União dos Opostos?

Mas, em época de cria dos Camelos a comunidade prepara-se, com seus rituais agradecendo e pedindo benções a todas as divindades, um a um os camelos vão dando cria, ficando por último uma camela que dará a luz pela primeira vez, foge, tenta evitar o que está por vir, demonstra estar assustada (lembrando que sempre serão vistas por nossos olhares de humanos, projetamos nossos conceitos, sentimentos e expectativas).

Finalmente depois de muito sofrer, seus gritos de dor e medo, o filhote com a ajuda dos nômades nasce. É bonito, grande, magro e albino. O filhote é posto em contato com a mãe, que desde o primeiro momento o rejeita. Podemos pensar: não o reconhece pela diferença da cor? Associa a ele o sofrimento vivenciado até aquele momento? Rejeita? Afinal sentimentos Humanos ou instintivos.

Os nômades passam a estar mais atentos ao filhote, buscam em toda sua sabedoria e experiência de vida, formas para aproximar mãe e filho, enquanto isso acompanhamos a relação dos outros filhotes com suas respectivas mães, sedo cuidados, amamentados, o documentário nos presenteia com imagens de aceitação talvez de uma atitude instintiva, das mães acolhendo seus filhotes, com movimentos que nos remetem a afetos externados e filhotes buscando suas referências nestas mesmas mães.. mas todo o esforço da família para que a mãe reconheça o filhote e este sua mãe, não obtém sucesso.

Seria esta uma história sobre a relação entre pais e filhos?

Dentro das redondas tendas, que em seu centro com as estrelas ao céu formam belíssimas mandalas, forma que característica de movimento deste povo nômade, ao contrário do formato quadrado que habitualmente as cidades tem, exortando sua estabilidade, acompanhamos também o processo de aceitação e exercício de convivência, entre as gerações, quando diferenças, conflitos são evidenciados, ganham espaço, vida e são elaborados. O respeito ao mais novo, que diz estar preparado para ir acompanhar o irmão mais velho a cidade em busca do professor de música, o grupo o respeita, reconhece sua avaliação de que pode fazer isso, e é aceito. Respeito. Assim quando Ugna e Dude retornam da cidade e o mais jovem pede aos avós uma TV. Os conflitos não são pesados, mas vemos a aceitação, interação de novas gerações.

Seria esta uma história sobre a harmonia entre homem e natureza?

A Peregrinação.

No trabalho terapêutico, nas atividades que professam uma fé (como expressão de um pressuposto anímico), necessitamos quotidianamente vivenciar estas situações, como reconhecimento, aceitação, respeito, rejeição.

Alguém em sofrimento, com dor, inicia um processo de peregrinação para chegar ao espaço da análise, o momento da tomada de consciência, seja pelo sofrimento, pela pressão dos amigos, uma idéia é gestada, uma preparação, uma vivência interna e externa para a construção do vaso terapêutico.

Quem chega, perdeu sua força, teve seu chifre roubado, ceifado, sem vitalidade…com a confiança e a crença rompida.

A Peregrinação exige preparo, a o reconhecimento da necessidade, para a procura do analista ou como diriam os Mongóis do Professor de Música, aquele que sabe tocar a alma e permitir que sua música seja ouvida. Antes, porém foram feitas inúmeras tentativas para se atingir a harmonia. A não aceitação do que também somos, aquele outro dentro de nós que insiste em nascer, que nos incomoda, que nos coloca em sofrimento e trabalho de parto que tantas vezes não havíamos nos predisposto, mas como o compromisso do nosso inconsciente não é com nossa consciência, mas com nossa totalidade, nossos “filhotes” nascem: albinos ou não. O diferente assusta, incomoda, parece-nos mais feio e assustador a primeira vista, do que efetivamente são.

Mas, a peregrinação exige ainda organização no tempo, mudança de rotina, o ritmo precisa ser revisto, ao priorizarmos o interno, não temos mais a mesma disponibilidade para o externo. Quando estamos gripados, naturalmente nosso corpo solicita mais cama, mais descanso, é preciso diminuir o ritmo para ser cuidado e curado.

Seria esta uma história sobre a luta pela aceitação de si mesmo e dos próprios sentimentos?

Sacrifício!

Várias são as exigências de sacrifícios, do encontro com o outro eu, reorganização econômica (o sacrifício é também concreto), o envolvimento das pessoas mais próximas, como vimos no filme os filhos saindo à procura do Professor de Música e a necessidade da permissividade para o crescimento.

Seria esta uma história sobre busca, sacrifício, persistência e sensibilidade?

O Acolhimento.

Sem julgamento, o cuidar pelo que o outro demonstra, pelo que traz. Buscando no processo e ritmo o caminho para o encontro e tocando o coração, no processo de individuação de cada um. Estar presente sem estar. Nosso filhote albino recebe auxílio sutil, intervenção sem agressão, o re-conhecimento do cheiro da mãe e filho, uma aproximação física, tato, encontro possibilitado.

A delicadeza dessa família desde o primeiro momento, nos remete a relação tão delicada, cuidadosa e importante entre pais e filhos, a relação entre as velhas e doces relações de amizade, nas tão delicadas relações entre os casais, a construção do espaço seguro, confiante da sala de aula para o processo de aprendizagem, assim como a relação no trabalho analítico, na construção do vaso terapêutico espaço especial para o caminho do Si Mesmo.

Antes de grandes, volumosas atuações, precisamos chegar perto, reconhecer o outro, senti-lo, possibilitar que o outro se reconheça e que nos reconheçamos neste papel também.

Ainda dentro deste sentimento, possibilitar enxergar e buscar dentro das relações existentes as repostas para suas próprias dificuldades, afinal como sabemos o antídoto, o remédio para a cura está dentro do próprio veneno, o semelhante cura o semelhante. A vida está contida na morte, a alegria está contida na dor e assim por diante.

Esta família de nômades (são quatro gerações vivendo juntas, com seus conhecimentos e necessidades e ansiedades, desejos, principalmente dos mais jovens, que desde sempre são responsáveis pelo novo) atua o tempo todo como grandes analistas, daqueles que nos coloca de frente com a vivência analítica, por sua postura, paciência, respeito, generosidade…identificando o tempo analítico para que mãe e filho se reconheçam e se encontrem.

Seria esta uma história sobre o papel do analista?

O RE-CONHECIMENTO.

Depois de uma série de tentativas a família passa a ordenhar o leite (alimento no qual todos os outros estão contidos, símbolo da abundância, fertilidade, com capacidade curativa do corpo e do relação com o afeto) para dar de comer ao camelinho, mas sabe que isso não basta, é preciso que aja aceitação, relação com a mãe, ser RE-CONHECIDO. Trata-se aqui de um povo que vive a natureza em si, como parte integrada, o instinto assimilado.

Percebendo que chegaram aos limites de suas tentativas, recorrem a um ritual antigo, que somente um professor de música poderá fazê-lo, é preciso que este músico seja talentoso, especial, comprometido, dedicado, unindo o novo e o velho (alusão a essa questão encontramos também muito delicadamente apresentado no filme Himalaia). A comunidade não tem esta pessoa e os dois filhos mais jovens, Ugna e Dude, saem em busca do professor. O mais novo, que mal consegue subir no camelo insiste em ir, se diz preparado para a trajetória do herói. Assim como fez com os camelos, a família olha, avalia, e permite ao filho mais jovem acompanhar o irmão. O herói é invocado, sobe em seu cavalo, ops! Camelo e segue caminho.

A Peregrinação continua com a decisão e saída dos dois jovens, como um ritual de iniciação, afinal depois do retorno ambos voltam diferentes, solicitando as mudanças vistas e encontradas no mundo de fora e a comunidade demonstra abertura para assimilar os processos de mudanças.

Sempre que saímos, deixando para trás uma situação, vamos passando por vários processos de mudanças, saímos em busca de algo e podemos inclusive encontrar o que fomos buscar, mas vamos obtendo outros ganhos pelos caminhos. Não importa se chegamos a Itaca, mas sim o caminho que fizemos até lá.

A partir do quotidiano da família, da comunidade, constitui-se um olhar antropológico, a TV que fascina Ugna, como talvez o rádio de pilha havia há anos atrás encantado o avô  e o contato com a cura de dores, que re-conhecemos na mãe Camelo e seu filhote.

O caminho é longo, vão fazendo paradas, dando notícias da família, levando e trazendo noticias do mundo de lá e de cá. Experimentam o acolhimento de outras casas, de sabores até chegarem à cidade maior e localizar o professor de música, que é solicitado a acompanhá-los até a comunidade para fazer o ritual e busca o aceite da mãe pelo filhote.

A Música com seu poder de nos emocionar, de conectar-se com nossa alma, levando-nos a outro mundo, que nos embala desde os primeiros momentos no colo da mãe, no chacoalhar do berço.

Há entendimento por parte do professor de música do papel que lhe está sendo solicitado e com a modernidade da moto (sempre o novo e velho juntos, respeitosamente) chega. A família reunida acompanha a ritual, amamentar não basta, é preciso o VINCULO o aceite da mãe para que o filhote não só sobreviva, mas forte e saudável.

Seria esta uma história sobre rituais?

O RITUAL MUSICAL. Não se buscou remédio, mas uma lenda.

Mãe e filho são colocados perto um do outro, o professor de música coloca um instrumento, que é um violino feito com duas cordas de crina de cavalo, em contato com o corpo da mãe, enquanto são cantadas as preces pela mãe de Ugna e Dude, o vento e a batida de seu coração fazem o instrumento vibrar e emitir um som, quem de alguma forma possibilita ao Camelo ouvir sua voz interna, seu coração, apagando as memórias de um parto difícil, de dor, rejeição, medo da nova situação. O professor então retira o instrumento e toca, a mãe camelo, solta uma lágrima antes de aceitar o filhote, Botok, empurrando-o com tranqüilidade para pegar seu leite. Esta é a magia da vida, o encantamento se processa.

O professor de música, homem detentor de sabedoria, um médico que recebeu um chamado de emergência. A natureza por si mesma harpeja sua harmônica sabedoria. Os sentidos são reordenados pelo som que vem de dentro, todas as outras tentativas que vieram de fora, não mas tiveram serventia aqui.

Presenciamos um re-encontro da natureza consigo mesma, a superação de um início desarmonioso, o afeto re-une através da linguagem da alma.

 

“Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar sabedoria. E nós que perdemos o contato com o micro e o macrocosmos ficamos bestificados com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais. Bem que os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria e saravam até a mania de perseguição.
Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no universo com o primeiro som audível um Ré bemol e que a palavra só surgiria mais tarde. Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam  que o universo era uma partitura musical, que o intervalo musical entre a Terra e a Lua era de um tom  e que o cosmos era regido pela harmonia das esferas.

Os primitivos na Mongólia sabem disto. Os camelos também. Mas nós, os pós-modernos, cultivamos a rejeição, a ruptura e o ruído.” (Camelos também choram de Affonso Romano de Sant’Anna, recebido pela internet).

 

Jung em Memórias nos chama a atenção para a importância de nos mantermos em contato com as coisas simples da vida, para facilitar nossa conexão com nossas camadas mais profundas, antigas da psique.

A família em conjunto comemora a relação – re-ligare.

Re-ligare, retomada do vinculo com a alma, como que de mais importante, puro temos, com a amorosidade e interação com o outro.

Enquanto mãe e filho se re-conhecem, enquanto o filhote camelo experimenta pela primeira vez do leite, leite do corpo dessa mãe, não roubado, mas oferecido pela mãe, Ugda que foi a cidade, aparentemente pela primeira vez vê o mundo da TV, dos desenhos animados, amplia seu olhar, as gentes diferentes, barulhos, movimentação da cidade e comercio. Acessos a mundos desconhecidos.

Seria esta uma história sobre a relação entre gerações?

A vinculação com a alma, vai permitindo o descobrimento de novos e profundos mundos, nasce também uma nova forma de conhecer o outro, de enxergar o mundo.

Seria esta uma história sobre o outro dentro e fora de nós?

Enquanto a mãe camelo aceita seu filho a comunidade também aceita a modernidade. Por quais mudanças passará? Onde guardamos nossa persistência Botok? Seus esgar? O choro abandonado, solitário de Botok? O olhar de descobertas de Ugna?

A música sensibiliza e nos coloca em contato com os sentimentos mais simples, aqueles do dia a dia, evoca a capacidade de tolerância, sentir a música que deve ser tocada para cada um, para cada situação, encontrar nossos próprios rituais de transformação.

No deserto, na aridez de nossa vida, tocar em nossa humanidade.

Mas afinal, que filme é este?

Sobre a relação entre pais e filhos; sobre a relação entre gerações; sobre a harmonia entre homem e natureza; rituais; o novo e o velho; persistência e sensibilidade; o papel do analista; busca; sacrifício; sem grandes batalhas e heróis gigantescos é a luta pela aceitação de si mesmo dos próprios sentimentos, do outro dentro e fora de nós; sobre Camelos…sobre cada um de nós, nossa humanidade.

 

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 7 ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1993.

Camelos também choram de Affonso Romano de Sant’Anna, recebido pela internet

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Um pensamento sobre “Os Camelos Também Choram: no Resgate da Nossa Humanidade – Elisabete Christofoletti

  1. Num mundo desprovido de mitos, a música deixa de ser um canto encantador, para ser mercadoria, espetáculo, show, performance aeróbica. Tudo vira espetáculo, tudo vira fetiche, tudo vira dinheiro.

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