Jung e o Aprofundamento Pessoal – James Hillman

da net em 25.agosto de 2013:

http://grupohimma.blogspot.com.br/2013/08/jung-e-o-profundamente-pessoal-james.html

Jung e o Profundamente Pessoal – James Hillman

Ao longo destes últimos anos, o campo junguiano testemunhou a parceria intelectual e imaginativa de dois dos seus  maiores e mais importantes nomes: James Hillman e Sonu Shamdasani.
Em 2009, Hillman e Shamdasani começaram a realizar uma série de conversações para discutir e comentar a importância do “Livro Vermelho” na vida e na obra de Jung. Este encontro foi tão fecundo e prazeroso que ambos decidiram publicar um livro onde essas conversas pudessem ficar registradas. O livro foi lançado este ano e se chama “Lament of the Dead – Psychology after Jung’s Red Book” e é constituído de 15 encontros onde Hillman e Shamdasani nos brindam com o imenso e estético prazer da arte do diálogo.

É importante destacar que também neste ano foi publicado o primeiro volume da biografia sobre James Hillman escrita por Dick Russel – “The Life and ideas of James Hillman” – e, coube a Sonu Shamdasani escrever a introdução do livro, na qual ele presta uma singela e sincera homenagem ao seu amigo recém-falecido.
O texto que o Grupo Himma disponibiliza aqui consiste na fala que Hillman preparou para o encontro com Sonu Shamdasani realizado no dia 19 de junho de 2010 na Library of Congress- Washington D.C. ( aqui o link onde é possível assistir a este encontro:http://www.youtube.com/watch?v=Oy-x7BLlBYg)

Nele, assistimos a um depoimento emocionado de Hillman ao relatar sua experiência frente ao corpo morto de Jung e o quanto aquela cena ( imagem) marcou um momento inaugural na sua própria vida pessoal e profissional. Há outros “confissões biográficas” que Hillman oferece durante a sua apresentação, traço este que durante décadas tinha sido suprimida da grande maioria dos seus livros e textos, pois ali havia um  homem que se recusava a acreditar em biografias. Curiosamente, fiel ao seu espírito Puer, é somente no seu último livro escrito “O terrivel amor pela guerra” que Hillman compartilha com seu leitor vários episódios de sua vida pessoal como sonhos, cenas de infância, recordações e etc. No final da vida, a revelação da vida vivida sob o manto do Daimon, ou como o próprio Hillman uma vez escreveu: “Os avisos do Daimon agem de muitas maneiras”.
O grupo Himma convida à leitura e espera que este breve texto possa ajudar no debate sobre o Livro Vermelho mas também venha a funcionar como uma gentil sedução para aqueles que desejam se aproximar das letras e imagens de James Hillman e da Psicologia Arquetípica.

Marcus Quintaes

Eu sei que uma das intenções de Sonu era disponibilizar este material para aqueles que trabalharam durante muitos anos na tradição de Jung, e que ele acredita que pessoas que devotaram suas vidas a essa tarefa realmente merecem ter acesso a ele, e ninguém merece mais do que James Hillman, que é nosso próximo orador. James é provavelmente o mais eminente erudito entre os analistas junguianos e o fundador da psicologia arquetípica. Ele nasceu neste país, estudou na Sorbonne de Paris e formou-se no Trinity College em Dublin. Recebeu seu PhD pela Universidade de Zurique e também recebeu seu diploma de analista do Instituto Jung dessa cidade. Foi diretor de estudos no instituto até 1969, e nesse ano chegamos em Zurique e conhecemos James Hillman. Então ele fundou a Spring House e Spring Publications. E certamente temos mais de 15 volumes de sua autoria, Re-Visioning Psychology, The Soul’s Code, In Search of Character and Calling e muitos outros livros. Atualmente está sendo produzida uma edição padronizada de 10 volumes de psicologia arquetípica, que inclui muitas de suas obras, e o sexto volume, sobre psicologia alquímica, está no prelo. Acredito que será lançado no outono. Outros, [inaudível] acredito que já foram publicados. Assim, a edição padronizada de psicologia arquetípica estará disponível. E enquanto isso, aqui está o homem cuja cabeça concebeu tudo isso, James Hillman.
Jung e o Profundamente Pessoal
James Hillman

Muito obrigado, Beverly, e muito obrigado, Sonu. O título para os meus pensamentos nesta manhã é Jung e o Profundamente Pessoal. E de fato, provavelmente é uma boa manobra na velhice ser profundamente pessoal. Não só em relação ao profundamente pessoal de Jung como também a algo do meu passado. Mas primeiro quero citar uma frase de Auden, Wystan Auden, o poeta. “Somos vividos por poderes que fingimos compreender”. E isso é tudo. E o que a obra de Sonu está fazendo, o que a obra de Jung fez, o que este livro é e o que Jung passou sua vida tentando escrever e deixar claro, é  essa atividade de fingir compreender, de tentar compreender os poderes. E estamos sempre lutando contra as enormes limitações da mente e da linguagem ao tentar compreender os poderes que estão nos vivendo e quando percebemos que estamos sendo vividos. Não somos os agentes da alma. O ego é um mito, uma figura que nunca encontrei em lugar nenhum, exceto nas palavras em algum lugar lá fora. Tudo isso são tentativas de compreender os poderes. E isso muda a maneira, como imaginamos o que está acontecendo na vida e o que acontece nos relacionamentos, o que acontece na terapia, o que acontece em todos os outros lugares. Somos vividos por poderes que fingimos compreender.

Naturalmente, nunca entendi isso e ainda não entendo totalmente, mas o sinto. E hoje são 19 de junho de 2010. Em junho de 1961 eu tinha 35 anos, e permitiram-me ir até à casa de Jung para oferecer meus respeitos ao corpo de Jung. Ele estava em uma sala separada e alguns de nós viajamos de Kusnacht até Zurique. Lembro-me de levar um lírio, um desses lírios brancos enormes, você sabe, essas lindas flores que aparecem representadas na psicologia e na alquimia. E fomos maravilhosamente recebidos por Frau Lily Jung, Frau Annie [inaudível], Frau Gret Bauman [inaudível] e ficamos algum tempo no sofá, pessoas diferentes chegando e partindo, e vi as fotos dos velhos tempos e fomos maravilhosamente recebidos nesse período de luto. Então foi provavelmente o segundo ou terceiro dia, não sei ao certo; tive meu momento na sala com o corpo e prestei minha homenagem, eu tinha meu lírio, e a mensagem, o significado que recebi foi vá embora, ou vá adiante ou deixe o passado para trás, algo assim, e fazer meu trabalho. Agora, depois disso, foi interessante o lírio, pois me lembro de Yolande Jacobi, que fazia parte do grupo naquela época, que trouxe rosas vermelhas. Eu trouxe um lírio como imagem da anima. Sabe, eu era o jovem de 35 anos possuído pela anima, possuído pela ideia da alma, a maciez, a adulação, todas essas virtudes representadas pelo lírio. Mas a mensagem era ir embora, ir em frente, deixar o passado para trás e fazer o meu trabalho. E isso – isso era como [inaudível]. Então, durante muitos e muitos anos, me pareceu, eu estava fazendo o trabalho. E ao mesmo tempo eu estava desfazendo o trabalho. E eu estava vivendo a tensão que Sonu Shamdasani mencionou na noite passada, a tensão entre o público e o privado. Agora eu alcancei, ou resolvi essa tensão por um momento ao contar essa história. Mas contar uma história é algo público, ou pode ser contar em público algo que é intimamente privado. E o Livro Vermelho de Jung é um livro de uma profunda privacidade e intimidade. Assim, naturalmente há essa tensão, qual parte é pública, qual parte é privada, até onde ir com isso ou com aquilo? Naturalmente, mais tarde na vida a questão é o que é público e o que é privado, mas que diferença isso realmente faz.

Somos todos escândalos.
Mas cada qual ao seu jeito, naturalmente.
Assim, a tensão de fazer e desfazer, a tensão entre desfazer a linguagem sobre a qual Sonu estava falando, essas palavras que obscurecem nossa tentativa de compreender o ego, o inconsciente, esse tipo e aquele tipo. Essas palavras racionais são o que sobrou da psicologia de outros períodos, psicologia de outras dimensões, psicologias de outros psicólogos. A própria linguagem de Jung não era assim. Foi por isso que o lançamento do Livro Vermelho foi uma grande virada para mim. Uma revelação do meu “desfazer” [“undoing”] de todos esses anos, de tentar trabalhar e resistir essa linguagem dos opostos. Você usa a palavra “contrários”. Contrários não são opostos, são necessários um ao outro. São correlativos, coexistentes; não pode haver um sem o outro. Preto e branco não são opostos. Só são opostos se sua mente precisa pensar de uma maneira aristotélica e colocá-los na categoria de opostos; caso contrário, você pode ter todo tipo de brancura sem pensar sobre preto, e pode ter todo tipo de negrume sem qualquer tipo de oposição necessária. Não existem bagas brancas. Não há carvão branco; isto é, não são necessários, são erros de pensamento. E foi esse conflito o tempo todo que me ocupou, mas agora, com o Livro Vermelho, há essa revelação. A revelação de que a linguagem, sua linguagem de psicologia é imagística, é poética. É pré-dialética, pré-lógica. Jung escreve sobre essas sentenças que ocasionalmente podem ser esquecidas em Tipos Psicológicos, que você mencionou como sendo tão crucial, e que acredito ter sido o primeiro livro que foi escrito depois dos inícios daquilo que foi vivenciado com o Liber Novus. Terei razão sobre isso? – 1921, eu acho, sim. Ele diz, “A imagem não é um reflexo psíquico de um objeto externo. Não é porque você viu algo e depois teve uma imagem disso, mas um conceito derivado do uso poético.” O uso poético é o começo do idioma certo para a psicologia se estamos falando sobre os poderes que nos possuem, uma imagem de fantasia, e eles aparecem no espaço e como vozes, mas não são a princípio patológicos. Ele escreveu – vou dar o número dos parágrafos. Parágrafo 722 emTipos Psicológicos, “a imaginação é a atividade reprodutiva ou criativa da mente em geral.” O que a mente faz? Ela não inventa palavras, como o ego. Ela inventa formas imaginativas, figuras, melodias, frases poéticas, momentos deinsight, intuições, fórmulas. A Imaginação é a atividade reprodutiva ou criativa da mente em geral. A fantasia como atividade imaginativa é a expressão direta da vida psíquica. O que a psique faz tão naturalmente como uma galinha põe um ovo – a psique humana fantasia. Essa é a atividade primária. Nossos sonhos vêm antes do nosso pensamento. Veja bem, essa é uma maneira de olhar o mundo que me parece ter sido realizada na vida de Jung no Livro vermelho que é a concessão da mente que vem da época de Aristóteles, mas que é reforçada particularmente de Descartes em diante, a mente racional, a mente que era dominante no século XVIII, onde Blake e Swedenborg eram seus contrários.
Essa mente não resolve o problema, e a psicologia que deriva dessa mente não resolve o problema. Então naturalmente todo mundo faz terapia, porque estão usando a mente errada para lidar com a psique. E os terapeutas estão usando a mente errada para lidar com as psiques daqueles que estão usando a mente certa. A mente está criando imagens e fantasias, e elas são realidades vivas que falam conosco. Elas às vezes vêm como figuras, mas não apenas figuras, já que digo que uma melodia é uma imagem psíquica. A fantasia como atividade imaginativa é a expressão direta da vida psíquica, e é idêntica à citação de Jung sobre o fluxo da energia psíquica. Então a nossa energia, nossa vitalidade emocional, seja qual for a direção que ela tome, para cima ou para baixo, para dentro ou para fora, a energia psíquica é na verdade apenas um aspecto, o outro aspecto das figuras e formas da fantasia. Assim, se você deseja tomar posse das suas emoções, saber qual é a emoção ou sentir a expressão da sua emoção, se está preso por uma emoção, tente descobrir a imagem daquela emoção, que diz muito mais sobre a emoção do que simplesmente sofrer a própria emoção. Não é para sair da emoção, é para encontrar sua forma, encontrar sua fantasia para elaborá-la mais, de modo idêntico ao fluxo da energia psíquica. Ele diz ainda mais em Tipos Psicológicos, dessa vez no parágrafo 78, “A psique cria realidade todos os dias. A única expressão que posso utilizar para essa atividade é a fantasia.” Uau. A psique cria a realidade todos os dias. Pensamos que existe um mundo interno psíquico e que existe a realidade. Cuidado, não faça isso.

A realidade psíquica e então a realidade, a realidade que é sempre sólida, dura, real, fria e assim por diante. Bem, essa realidade também é uma fantasia. E alguns podem não reconhecer que isso é uma fantasia, e assim a chamamos de realidade. Seja lá o que chamamos de realidade é uma fantasia que ficou teimosa e bloqueada, e que se tornou opaca em relação ao fluxo de energia psíquica que há nela. Isso abre a coisa toda. Isso abre a alma para viver, para viver isso como uma linha de Saroyan, uma das suas peças, duas pessoas se encontram e uma diz para a outra, “qual é a fantasia agora, Kitty Duval?” Esse é o relacionamento. Qual é a fantasia agora? Não o que aconteceu quando você tinha quatro anos. O que aconteceu quanto você tinha quatro anos também é uma fantasia.

Agora, o que estou tentando elaborar é que isso também é profundamente pessoal. Pensamos que o que é profundamente pessoal é o que aconteceu conosco quando tínhamos quatro anos. As feridas que sofremos, as esperanças despedaçadas, os relacionamentos que temos ou tivemos, as intimidades, as memórias; isso seria o profundamente pessoal. Mas essas são as coisas que aconteceram com todo mundo. Todo mundo já foi abandonado. Todo mundo já se desapontou. Todo mundo já se encheu de entusiasmo. Essas são experiências profundamente coletivas. O profundamente pessoal é o envolvimento com os próprios demônios ou a visita ao inferno. E o encontro de Jung com aquelas figuras, isso é a parte mais íntima, profunda, inesperada, completamente surpreendente e individualizada da vida. Em outras palavras, o encontro com a própria alma, e o Livro Vermelho começa com isso. Jung sentiu que havia perdido sua alma. Agora era sua tarefa encontrá-la ou descobrir para onde ela estava ou o que havia acontecido. Isso é profundamente pessoal. Agora, isso muda muita coisa, porque todo o reino da psicoterapia há cem anos vem seguindo o caminho de que o profundamente pessoal é a minha vida pessoal, minhas memórias pessoais, minha infância pessoal, minhas experiências pessoais, meu pessoal – o subjetivismo do meu, o que Freud chamada de [inaudível] ou o inconsciente pessoal, ou o reprimido. Mas há alguma coisa que não é coletiva do desse modo, e não coletada, digamos que não é comum para todos nós, mas é algo profundamente individual, relacionado com a fé. E foi isso com que Jung mais se envolveu, segundo minha leitura do Livro Vermelho; ele estava envolvido em descobrir o que está nas profundidades da alma que foi dada a ele, e a fé que foi dada a ele. Bem, isso muda o que é importante na sua vida. Isso muda, já que essas coisas que você está tentando resolver em relação à sua vida pessoal estão realmente sendo vividas por um poder, como estamos tentando compreender. E é necessário um tipo de corajoso fiat mihi, “que isso seja feito a mim”, para entrar nisso. Novamente, no profundamente pessoal do meu próprio caso, quando cheguei em Zurique em 1953, os terrores que me espreitavam, que eu não compreendia ou de que eu tinha medo, pareciam estar nas profundezas. Eu não tinha lido sobre a descida de Jung pelo buraco do [inaudível], mas eu tinha a sensação que havia coisas que iam subir e me pegar. E comecei a fazer pequenas pinturas do que podia estar lá embaixo, porque fui encorajado a fazê-las pelo meu analista, e parecia ser a maneira certa de lidar com isso. E lembro-me da descida – naquele meu momento específico, era na água. Eu desci até o fundo do mar, e havia um monte de criaturas lá tentando me agarrar, me prender e fazer coisas e assim por diante. E tive a experiência de que podia respirar debaixo d’água, e isso foi uma revelação. Seja lá o que o que isso signifique, pareceu ser uma revelação que eu pudesse realmente permanecer nesse reino e fazer coisas, conversar, fazer perguntas, me movimentar, explorar e respirar debaixo d’água. Era tão literal, tão concreto e vívido estar debaixo d’água, e ao mesmo tempo era a imaginação, a fantasia que me permitia respirar. Este é apenas um exemplo das centenas de exemplos desse tipo de trabalho que Jung inventou. Inventou, digo, porque ele o inventou para a psicologia moderna. As pessoas têm feito jornadas exploratórias desde sempre, e as registraram de várias maneiras, em sagas, na obra de Dante, na obra de Blake e no passado distante, todo tipo de gente fez isso, Hildegard von Bingen e assim por diante. Não é essa a questão; a questão é que Jung fez algo diferente com isso. Ele inventou isso em parte como um caminho, um método, algo que pode ser registrado cuidadosamente e observado com uma mente fenomenológica.

E eu digo uma mente fenomenológica em vez de uma mente empírica porque ele não estava fazendo um experimento apenas no sentido de “vamos tentar isso e ver o que acontece”. Ele estava deixando o fenômeno falar. E há uma diferença aqui entre o empirismo e a fenomenologia. Porque o empirista está também tentando fazer algo com o que é. E o fenomenologista, antes de tudo, está permitindo que o fenômeno fale e todos os pensamentos sobre o assunto, o que ele deve ser, como deve funcionar, todas as informações históricas são postas de lado, e você fica simplesmente com a maneira como o fenômeno aparece. E Jung deixa o fenômeno falar. Agora, precisamos saber como é difícil deixá-lo falar. Na nossa cultura, precisamos nos lembrar que – só um momento – porque eu tenho uma pequena observação. Acho que está em Marcos, o Marcos bíblico e você poderão me dizer. Jesus não permite – isso, Marcos 1:34, “Jesus não permitiu que os demônios falassem.” Agora, percebem que ao deixar o demônio falar, ao deixar as vozes falarem, Jung estava fazendo um movimento de demonologia, como Karl Jaspers teria dito, e ele estava abrindo, ele estava imediatamente sendo herético como seu pastor afirmou no seu funeral, que ele era um herege.

E isso é muito importante, porque os hereges pertencem à igreja, eles não são simplesmente hereges. Eles têm um papel importante, e assim ele deixa o demônio falar. Marcos 1:34 diz, “Jesus não permitiu que os demônios falassem. Afasta-te de mim, Satanás. Descer até o inferno. Morte, onde está o teu aguilhão?” Essa abertura produziu um movimento radical no relacionamento de Jung com o cristianismo, e as vozes dizem às vezes no Livro Vermelho, o cristianismo que ele tem e não é – Sonu poderá dizer-me onde estão essas passagens sobre o cristianismo – que Jung, embora fosse cristão, não estava descobrindo o cristianismo no livro. É mais ou menos isso – de modo que ele diz, e você pode ver por que ele está permitindo que outras vozes, a multidão de vozes, falem e sejam figuradas, sejam personificadas, tenham tanta realidade quanto outras figuras. Na maneira cristã fundamental e básica de ver a questão, só há uma voz que pode falar com você e precisa ser a voz de Jesus, de modo que todas as outras estão fora do jogo. Assim, as imagens também são vozes e elas trazem algum tipo de mensagens dos mortos, e isso era uma das coisas que eu adoraria conversar mais com você, Sonu, quem são os mortos? Quem são os mortos no livro de Jung? Eles são seus ancestrais pessoais? São os mortos de Jerusalém dos Sete Sermões? Quem são os mortos? Qual é a mensagem dos mortos e por que a América, por que a nossa cultura que tem tanta dificuldade com os mortos? É tanta dificuldade, nosso presidente nem mesmo pode ir aos túmulos dos mortos, nosso ex-presidente. Nós temos essa tremenda muralha entre a vida e a morte, de modo que a qualquer custo precisamos manter os viventes vivos, porque quem sabe o que há do outro lado? Não há um senso de permeabilidade entre a vida e a morte, de fluxo dos outros, das vozes das figuras, dos poderes na nossa vida cotidiana, de nossa relação com aqueles no outro lado que nos velhos tempos costumavam dizer, boas vindas, seja bem-vindo pelos ancestrais quando morre. Em vez disso, há esse grande desconhecido e você morre sozinho, e todos esses horrores são imaginados porque não há um senso dos ancestrais. E naturalmente nossos ancestrais são os americanos nativos que viviam nessa terra. Então talvez sejamos separados dos nossos mortos por aquilo que enterramos. E ir até os mortos faria vir à tona várias coisas que não queremos que venham à tona. Mas a questão é que me parece que os mortos são o encontro diário com tudo que foi deixado de lado, enterrado, queimado, afogado, esquecido de propósito e que continua a mandar pequenas mensagens por todo tipo de pequenas intuições, palpites, insinuações, alertas, presságios, as pequenas sensações no estômago que dizem, “Não, acho que não vou fazer isso. Não vou atender o telefone dessa vez. Vou deixar passar.” Esses pequenos avisos e alertas, são enviados por quem? Quem está nos protegendo diariamente de não fazer isso ou aquilo? Lembre-se do que Sócrates afirmava – seu daimon nunca lhe dizia o que fazer. Ele só era alertado quanto ao que não fazer. Onde isso se encaixa, não fazer algo? O momento de se segurar, de se conter, o não, o momento do não, esses são os mortos nos mantendo seguros, cuidando de nós? Atualmente, esse livro é tão – quantos milhares? Posso ter os números novamente? Quanto era mesmo?
>> 46.000 em inglês.
>> 46.000 em inglês, 10.000 –
>> E edições em mais idiomas estão chegando.
>> E mais idiomas, imagine só –

>> Outra edição.
>> E mais outra edição. Estamos na sexta edição, imagine só, na lista de best sellers. Imagine. Apareceu na semana passada na série Law & Order: Criminal Intent [risos] caso vocês assistam. Como era mesmo o nome, Criminal Intent? Caso vocês tenham visto, o próprio Livro Vermelho foi mostrado e fazia parte de um culto.
Estava inspirando alguém – inspirando alguém, não sei se eram vampiros ou sei lá o quê –
Agora, naturalmente ele teve resenhas – sabe, tivemos reuniões como essa em Nova York e Los Angeles e o New York Times e assim por diante. Qual é a sua importância  na nossa cultura neste momento? É o que eu tenho a dizer sobre os mortos, sobre as vozes, sobre deixar o demônio falar, sobre o profundo fundamento politeísta que foi esquecido, sobre as profundezas abissais da própria vida pessoal do indivíduo e sua importância, e a busca individual não por significado, mas por imagens – por imagens. Significados não sustentam você, mas as imagens são suas companheiras. Você pode ter todos os slogans, explicações e compreensões do mundo, mas o que sustenta você são as vozes e figuras com que você vive e pode falar. É isso que está faltando? É isso o que eles chamaram – é tão radicalmente diferente de qualquer outra coisa na psicologia, tão radicalmente diferente da atual [inaudível] cultural de tecnologia, economia, razão, informação. Você sabe, quando o livro foi escrito – não sei se já passei muito do tempo. Será que eu –

Ok. Quando o livro estava sendo escrito, digamos, por volta de 1915; nessa época, a mente estava voltada para Blavatsky [inaudível], serialismo, parapsicologia, e havia o trabalho de importantes intelectuais como William James e muitos outros na Inglaterra, dadaísmo, expressionismo alemão, Joyce. Houve experimentos compatíveis e comparáveis em outras áreas. No nosso tempo, esse livro é absolutamente aberrante porque temos vivido – nós vivemos em uma maneira de pensar estreita, técnica, racional, explicativa, causal. Encolhemos tremendamente nossa mentalidade desde o início do século, quando este livro não seria considerado tão estranho, penso que não teria sido estranho. Afinal de contas, Jung escreveu sua dissertação de doutorado em 1900 sobre fenômenos ocultos para um curso de medicina. Pense nisso na medicina atual.

A medicina da atualidade está cheia de fenômenos ocultos.

Mas, de fato, o livro é um tipo de necessidade. O livro é uma necessidade no nosso tempo e é reconhecido em um nível profundo da psique coletiva. Muito obrigado.

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