Uma Roda Especial – Muitas Rodas Especiais

 

UMA RODA ESPECIAL – MUITAS RODAS ESPECIAIS

Sandra Margareth da Silva

RESUMO

            Este trabalho refere-se a uma experiência de Terapia Comunitária Integrativa (TCI), realizada na Associação Pestalozzi de Porto Velho com grupos de alunos deficiente intelectual, da Educação Profissional Básica, no período de 2009 a 2011. Trata-se do fortalecimento da autonomia, cuja importância reflete na proposta educacional para estes alunos.

Abordar-se-á a dinâmica de possibilidades de atuação da metodologia da Terapia Comunitária Integrativa TCI com esta clientela. Considerando a dificuldade de expressão oral de determinados alunos, me questionei como desenvolver os passos metodológicos da TCI, de modo especial “Falar na 1ª pessoa do singular”.

A experiência mostrou uma relação humanizadora, na qual todos participantes são protagonistas, pois a interatividade na roda, pautada pelo preceito de horizontalidade das relações grupais possibilitou o mútuo crescimento entre o coordenador de roda (terapeuta comunitário¹) e participantes (alunos).

 

OBJETIVOS

ü  Interagir com o grupo seguindo os passos metodológicos da Terapia Comunitária Integrativa TCI, numa postura relacional e colocando em relevo a potencialidade existente no DNA de cada ser humano.

ü  Acreditar na possibilidade de resposta do grupo, ou seja, compartilhar experiências de superação, no momento em que é lançado o mote².

ü  Possibilitar ao terapeuta comunitário o fortalecimento na postura de confiança no próprio grupo, como um gerador de resolutividade.

METODOLOGIA

            A experiência insere-se no Programa de Educação Profissional Básica, oferecido aos jovens acima de 14 anos de idade, da escola mantida pela Associação Pestalozzi de Porto Velho. Neste aspecto a TCI colabora no programa como atividades complementares à formação do aluno, contribuindo na habilidade de gestão (proposta curricular da Educação Profissional Básica para deficiente intelectual), no processo de crescimento de independência, autonomia e capacidade resolutiva.

A fidelidade aos princípios e à metodologia da Terapia Comunitária Integrativa TCI, (regras e passos) foram elementos de confirmação de possibilidades reais com pessoas especiais, isto é, não houve necessidade de diferenciação de atuação do terapeuta comunitário na roda.

Farei uma exposição das etapas da TCI assinalando fatos marcantes e comentários teóricos e pessoais.

Considerei na experiência as contribuições teóricas da psicologia analítica. A teoria da psicologia junguiana contribuiu na minha relação com o grupo; não considerando os participantes como pessoas limitadas, e sim com potencialidades. Sobretudo me reporto ao pós junguiano “Byington (1992) que descreve o arquétipo da alteridade, salientando no mesmo a presença de três componentes básicos: igualdade, liberdade e totalidade. A igualdade se refere não à confusão de identidades, mas à igualdade de oportunidades expressivas do Eu e do Outro, com a manutenção de suas diferenças. Liberdade sem a qual é impossível a plena expressividade do Eu e do Outro na sua interação dialética. E a totalidade se refere aos movimentos do Eu e do Outro em sua integração e diferenciação, num sentido que os transcende e os abrange. O arquétipo da alteridade rege a possibilidade de um encontro profundo e realístico entre as diferentes individualidades, encontro no qual as diferenças sejam não só preservadas, como possam integrar-se criativamente com as características específicas do outro”. O desenrolar dos acontecimentos nas rodas foram imbuídos destes três componentes básicos da alteridade, cuja aprendizagem e crescimento pessoal me constituíram.

 

INTRODUÇÃO

“A pessoa é um sistema psíquico que, atuando sobre outra pessoa,

entra em interação com outro sistema psíquico”. (Jung, 1991)

Através do trabalho na Associação Pestalozzi de Porto Velho houve a oportunidade de participar do curso sobre Terapia Comunitária (TC) em outubro de 2009, durante o curso nos lançamos no desafio de realizar rodas na própria instituição com grupo de jovens (na faixa etária de 14 a 50 anos) com deficiência intelectual da Educação Profissional Básica. As rodas de TCI ocorriam semanalmente, às sextas feiras, no período de 2009 a 2011, em média com 18 a 23 participantes, perfazendo um total de 32 rodas. Pode-se observar que os jovens com deficiência intelectual têm preocupações, anseios e necessidades iguais aos seus pares, ou seja, a deficiência intelectual não é fator excludente às emoções por eles vivenciadas. Os temas trazidos nas rodas nos possibilitam visualizar que a percepção de mundo, destes jovens é permeada de contextos do dia a dia, tanto pessoal, quanto social.

 

DESENVOLVIMENTO

Adalberto Barreto criador da Terapia Comunitária, assim a define:

“é um espaço de promoção de encontros interpessoais e intercomunitários, objetivando a valorização das histórias de vida dos participantes, o da identidade, a restauração da auto estima e da confiança em si, a ampliação da percepção dos problemas e possibilidades de resolução a partir das competências locais.”

A atuação da TCI na educação especial – deficiência intelectual, foi um desafio. Considerando a definição de Adalberto Barreto quando refere-se “a possibilidades de resolução a partir das competências locais”, constatei na prática esta realidade. Os alunos foram protagonistas, intervencionistas, e cuidadores.

Quando iniciei esta experiência de rodas de TCI, busquei adequar a metodologia da TCI sob um olhar da psicologia analítica, aliado ao princípio da co-responsabilidade.

A METODOLOGIA DA TCI

ü  momento de acolhimento

 

A formação de roda possibilita que o espaço assim formado, facilite uma atitude de escuta ao outro. Constituindo assim, uma ampliação da consciência, alicerce para fortalecer o arquétipo da alteridade como constituinte básico da condição humana. Os  participantes da roda se reconhecem como grupo, são capazes de ouvir o outro e crescem neste movimento relacional dentro do espaço grupal.

“o diálogo verdadeiro, no qual todos os interlocutores  encontram-se em posição semelhante e igual oportunidade de  expressão, apresenta-se como um caminho para o entendimento entre os grupos humanos e, ao mesmo tempo, para a afirmação de seus traços             mais característicos”. (www.ijrs.org.br – A psique e o nós na dinâmica de grupos\Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul)

 

Identifiquei a formação da roda como elemento estruturante do grupo. Inicialmente os alunos apresentavam dificuldade na percepção espacial, para formar o círculo com as cadeiras. A medida em que as rodas aconteciam, essa estruturação espacial foi se delineando melhor, tornando-os mais capazes de organizarem as cadeiras em círculo. Outra observação estruturante diz respeito à lista de presença (em anexo) em que suas grafias vão-se tornando esteticamente mais ordenadas.

 

ü  Apresentação e escolha dos temas

Esta etapa transcorreu de forma natural. Houve uma ocasião, em que uma aluna apresentava na roda seu tema; porém pela dificuldade de fala eu não conseguia compreender seu discurso. Isto era uma barreira entre mim e ela. Coloquei no grupo minha dificuldade em compreender sua fala, e perguntei: alguém pode ajudar e dizer o que entendeu? Um aluno logo se prontifica e faz a “tradução” da sua fala; a qual foi confirmada por ela. Este episódio me leva a compreender que a escuta no espaço grupal é geradora de cura psíquica. A aluna sentiu-se aceita, acolhida, compreendida e cuidada no grupo, fato observado pelas suas expressões de felicidade. Este fato me reporta ao que Leonardo Boff(2000) fala sobre o paradigma do cuidado: “As habilidades de escuta, compreensão e acolhida representam canais de comunicação, unindo as diversidades e resultando em soluções mais democráticas e abrangentes para os problemas vividos pelas comunidades”.

ü  Contextualização

A variedade dos temas apresentados (em anexo) foram organizados nos seguintes panoramas, mediante suas colocações na roda:

ü  Busca de identidade  agrupei de acordo com aspectos caracterizados como necessidade de auto afirmação, de individuação.

ü  Alívio de sofrimento nesta categoria vem em relevo uma fala categorizada por alívio ao poder falar de experiências antigas, ou falas de desabafos.

ü  Preocupações com o coletivo  demonstra temas com questões sociais e dramas da sociedade.

 

ü  Momento da Problematização

A etapa da Problematização³ proporciona a ampliação da consciência; o tema apresentado passa por uma percepção grupal, gerando no protagonista uma escuta ampliada. Neste sentido, Jung fala:

“Individuação, portanto, é transformação; significa tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando que  nos tornamos o nosso próprio si-mesmo” (JUNG, 1978, p. 49).

            Certa ocasião o tema escolhido era violência e alcoolismo, na qual a protagonista aluna vivenciava com seu companheiro. Quando lancei o mote (ser violentada), um aluno contou sua experiência de namoro e do que representa gostar de alguém, falava do carinho, de alegrar-se ao ver o sorriso da namorada. Dizia ele: “quando a gente gosta, não bate; faz carinho”. Seu depoimento mostrou uma relação afetiva, da qual seu conceito de amor é humanizante.

ü  Rituais de agregação

Analisando os depoimentos no momento de encerramento da roda, percebe-se que a atividade foi prazerosa. O grupo foi descobrindo aos poucos a sistematização da roda e criando uma consciência grupal. Era comum observá-los convidando os colegas para participar da roda, o sentido de co-responsabilidade tornando-se concreta quando ajudava a recolher crachás  e empilhar as cadeiras.

 

RESULTADOS

Superação do desafio da aplicabilidade da TCI com deficiente intelectual, cada roda realizada trazia numerosos conhecimentos e entusiasmos.

A elaboração deste trabalho também me impulsiona a refletir sobre uma prática da psicologia social, numa abordagem junguiana, aliado à teoria da Terapia Comunitária. Busco compreender o espaço comunitário como forma estruturante na individuação dos jovens com deficiência intelectual.

O fortalecimento da identidade de cada jovem participante das rodas, trouxe ao grupo um sentido de pertencimento; acredito que a regra: dizer seu nome e colocar na 1ª pessoa do singular a sua colocação foi um elemento que favoreceu o respeito a sua identidade.

Oportunizar a realização de trabalhar com a família destes jovens sobre os temas apresentados, através da equipe multidisciplinar (psicologia, assistência social e orientação educacional).

Contribuir com a escolaridade do aluno, cuja professora que foi auxiliar de roda, disse que a partir da experiência vivenciada ela havia mudado sua relação com seus alunos, passando a compreender melhor suas vivencias e trabalhar melhor a habilidade de gestão, a qual era sua função pedagógica.

 

CONCLUSÃO

A Terapia Comunitária Integrativa pode fazer parte da proposta pedagógica, criando alicerces para o amadurecimento de jovens com deficiência intelectual na preparação para o mercado de trabalho.

Acreditar e trabalhar pela inclusão social das pessoas especiais com a estratégia da TCI é uma possibilidade real.

 

Referencias:

BARRETO, A. P. Terapia Comunitária passo a passo.  Fortaleza CE: Gráfica LCR, 2008 .

BYINGTON, C. A. B. Pedagogia Simbólica-a construção amorosa do conhecimento do ser. Rio de Janeiro RJ: Record\Rosa dos Ventos, 1996.

JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Petrópolis RJ: Editora Vozes, 2000.

Acesso : www.ijrs.org.br\artigo: A psique e o nós na dinâmica de grupo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANEXOS

Variedade de temas

Busca de identidade Alívio de sofrimento Preocupações com o coletivo
Ansiedade com viagem Morte de seu irmão Morte marido da presidente da entidade
Ser demitido do trabalho Pai que bebe muito Briga na escola
Ser obrigada aos afazeres domésticos Morte da mãe em acidente de trânsito Briga de casal -alcoolismo
Meu irmão manda eu calar a boca Discussão com irmão muito chato Bandido entrou na escola e matou crianças (Noticiário RJ)
Querer ver um filme e a mãe não deixa Perda de parente Colegas dão porrada lá fora
Dificuldade para arrumar emprego Pai viajou para SP (TFD) Medo de caminhar na rua
“Ter um celular que tira foto (só prá mim)” Nojo de ver uma pessoa vomitar Menino deu um tiro na professora e se matou
Discussão em casa porque mexem em seus objetos pessoais Mãe passou mal dentro do ônibus Carreta bateu no carro e matou uma pessoa
Roubo de boné na escola O teto da casa caiu Acidente de transito
Alguém que senta no seu lugar (carteira) Roubaram dinheiro da bolsa da mãe Doença na família
Irmã briga muito, prá eu cuidar do sobrinho pequeno Morte da avó Julgamento do casal Nardoni que matou a criança(revolta – indignação)
Sentir-se isolado dos colegas Revoltado porque a pessoa que atropelou seu pai, fugiu Reapresentação do casal Nardoni que matou a filha
Só brincar com menino pequeno Briga na família: quebra-quebra Reincidência de acidente de transito no mesmo local onde a mãe foi acidentada e veio a óbito
Briga entre irmãos pelo celular Avô que morreu Bandido na rua 7 de setembro, roubou loja
Pai não deixa eu ser cowboy

 

Irmão com dengue, pai quebrou a clavícula no banheiro  
Em casa tá todo mundo chateado: ninguém fala nada Padrasto alcoolizado quebrou tudo dentro de casa  
Alegria por estar se aproximando o Natal e poder viajar de férias

 

Reapresentação da morte do irmão com fio elétrico

Briga em casa; é porrada toda hora

 
Entrar de férias Doente e não poder vir a aula  
Não aceitação da troca de professora Melhora da saúde do pai  
  Não ter viajado para as competições escolares, por estar doente  
  Não ter permissão para brincar na rua e ser agredida fisicamente pela mãe (tapa na cara)  

 

Depoimentos

“Gostei da terapia” – “Ele é meu amigo”- “A terapia é saúde” – “Fiz amizade” – “gosto da roda”- “Obrigada” – “Tô aprendendo a respeitar o outro” – “Roda é bom” – “Eu gosto da terapia” – “gostei, quero vir outra vez” – “Estou contente porque você (terapeuta) veio hoje” – “minha mãe de lá (céu), manda um abraço para todos vocês” – “vou rezar na minha igreja pelo seu pai” – “gostei de ser acolhido e poder dançar” – “Feliz por um colega ter entrado na roda” – “Toda sexta feira fico feliz porque tem terapia” – “Foi bom desabafar” – “Falar dos problemas é bom” – “Foi um alívio”.

Depoimentos gestuais

Um aluno deu um abraço na colega que falou sobre seus pais, dizendo do bom relacionamento que há entre eles.

Abraço coletivo numa aluna que chorou profundamente a perda de sua avó.

Depoimento gratificante

Uma aluna que não fala, por questões emocionais, um dia sentiu-se encorajada e cantou uma canção e o grupo cantou junto com ela.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s