CONVERSA MOLE? – Sylvia Mello Silva Baptista

da net: http://www.forademim.com.br/site/2012/12/conversa-mole-por-sylvia-mello-baptista/ em 18.10.2013

CONVERSA MOLE?

Sylvia Mello Silva Baptista

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou

 

Nessa canção de Assis Valente, gravada por vários dos melhores cantores de
nosso país, o mundo não acabou e deu a maior confusão.
Quando se lê e se estuda mitologia grega, parece que tudo o que podemos
pensar ou viver,  que esteja no perímetro do humano, já está ali exposto.
É sempre uma emoção  encontrar descritas as nossas angústias, as nossas
iras, os modos mais  improváveis de dar cabo a dores, em histórias trágicas,
épicas, cômicas ou  prosaicas.
Foi nessa fonte que me deparei com uma passagem que fala também do fim
do mundo,  ou quase, e que passo a relatar aqui. Afinal, não é o mundo uma
grande roda de histórias  e estórias, para as quais afinamos os ouvidos,
suspendemos o tempo e assim, adiamos a morte?

Corônis era o nome da bela ninfa, filha de Flégias, rei dos lápitas. Apolo,
o grande deus luminoso e flecheiro, por ela se apaixonou, no que teve seu
amor correspondido.

apolo e coronis

No entanto, apesar de já levar a semente do deus em seu ventre, temia que
o imortal se desinteressasse por ela, quando a velhice a alcançasse (vejam
como a questão do  envelhecer e da morte vem de tempos imemoriais).
Entregou-se então a Ísquis,  um mortal, com quem poderia sofrer
acompanhada os efeitos do tempo. Apolo não era lá muito bem sucedido
nos amores e resolvia sua pendências de forma cabal. Pediu ajuda a sua
irmã Ártemis – deusa das florestas e da natureza  selvagem, também
exímia arqueira -, e executou sua vingança: com flechas morreram
Ísquis pelas mãos de Apolo, e Corônis pelas de Ártemis. (Quantos acertos
de contas aconteceram entre nós, mortais errantes, dessa forma apolínea,
terrível? O mito nos fala metaforicamente do tamanho da dor da exclusão).

Mas a criança que crescia no ventre da  ninfa foi dali retirada -talvez a
primeira cesariana jamais realizada -, e  nasceu Asclépio.

Como usava acontecer com todos os heróis, foi educado
pelo grande centauro Quíron. Tinha um talento nato no uso das ervas bem
como da  magia. Desenvolveu a arte da cura, e fez de Epidauro um centro
ao qual muitos  acorriam para dar fim a suas aflições.

Asclepio e Higia

Casou-se com Epíone
e teve com ela dois filhos, Podalírio e Macáon (presentes na Ilíada de Homero),
e quatro filhas  cujos nomes devemos atentar: Áceso (a que cuida), Iaso(a cura),
Panaceia (a que  socorre a todos) e Higia (a saúde). Tal filiação nos dá a
possibilidade de  entender que esse semi-deus se desdobra em aspectos que
provêm do próprio Apolo  –igualmente o deus da cura, além da  música e da
mântica – e que apontam para o cuidado.

De fato, Asclépio,  além de sabedor das artes curativas, era possuidor de um
poderoso pharmacón: o sangue da jugular direita  da cabeça degolada da Medusa.
Atena, a deusa que ajudou Perseu a cortar a cabeça da Górgona horripilante –
que transformava os que a olhassem nos olhos em estátua de pedra -, deu a
Asclépio um vidro com o sangue capaz de fazer ressuscitar  os mortos.
E assim ele fez. E fez com tanto gosto que o mundo dos mortos começou
a minguar.

Hades, o rei dos  Ínfernos passou a se preocupar ao ver que nenhuma alma
aparecia por ali desde que Asclépio exercia seu ofício. E foi reclamar com
Zeus, o grande maestro do Olimpo. Este não teve dúvida: num piscar de
olhos fulminou o curador com seus raios.

Hades

Não há quem não fique indignado ao ouvir essa parte do mito. Como pôde
Zeus, o grande regente, zelador de tudo o que há sobre a Terra, como ele
teria tido a coragem de matar quem estava em pleno exercício do dito
“bem”? Mas nada é casual na sabedoria grega. Quem se indigna é a nossa
consciência ocidental baseada na cultura judaico-cristã que propala a
existência de um bem e um mal dissociados. Continuemos nossa história
para entendermos o modo flexível do raciocínio aqui  presente.

Apolo ficou furioso em ver seu filho morto, e num troco indireto liquidou
os Ciclopes, seres gigantescos, filhos de Urano e Geia, aqueles que
presentearamZeus com o raio, o trovão e o relâmpago. Com isso talvez
tenha tentado dar a Zeus  o gosto amargo da perda de um afeto, como a
que padecia, a ele imposta pelo  senhor do Olimpo. Hades, rei dos
Ínfernos, gostou desse ato, e viu seus domínios  se povoarem novamente.

asclepio

O mundo não acabou para Hades, mas acabou para o mortal Asclépio,
que no entanto, depois de fulminado, foi divinizado.

Isso nos faz pensar na relatividade das situações. A Psicologia Analítica,
fundada por C. G. Jung, olha para o manancial de conhecimentos da Grécia
antiga e vê ali uma sapiência em nada dispensável. Nesse casamento de
olhares, vemos que a unilateralidade das coisas leva a um desequilíbrio
insuportável com conseqüências nefastas. Apesar do ato de Asclépio ser
revestido das melhores intenções, ele incorreu no grave erro da hybris,
a imperdoável soberba que os gregos não admitiam nem mesmo aos mais
bravos heróis. Asclépio arrojou-se no papel de um deus. Fez um uso abusivo
do instrumento que lhe foi dado, o sangue da cabeça da Medusa. Esse
impulso ao  qual seguiu, passou do ponto e sua morte o lembra (nos lembra)
de seus (nossos) limites e da necessidade de humildade na sua (nossa) ação.

perseu e medusa

O termo  “humildade” tem em sua raiz “húmus”, que significa matéria orgânica,
a mais rica em nutrientes; ela se forma sobre a superfície terra, e para dela nos
aproximarmos, devemos nos ajoelhar, nos dobrar. Não por coincidência, a meu
ver, a palavra “reflexão” também possui o sentido do fletir-se.  Ao se refletir,
volta-se a consciência em direção a si mesmo. Com isso quero apontar para a
necessidade de observação deste necessário movimento de reflexão humilde.
O fim do mundo, o fim da picada, é não nos dobrarmos a essas verdades seculares.

E vejam que interessante. Em Epidauro, a medicina praticada, idealizada por
Asclépio, era a chamada nooterapia, ou seja, a cura pela mente.
O lugar era um centro cultural e de lazer, composto por um Odéon
(teatro onde se ouvia música e poesia), um Estádio (onde se faziam
competições esportivas de quatro em quatro anos), um Ginásio
(para exercícios físicos), um Teatro e uma Biblioteca com obras de arte.

Teatro Epidauro

Convido o leitor  a refletir onde estão, na nossa forma contemporânea de viver,
essas práticas que apontam para uma inteireza do homem, unindo corpo
e mente, pensamento e sentimento, arte e beleza. A perda desse referencial
harmônico e a constatação de uma visão de mundo e do homem tão
fragmentada, isso não  é o fim do mundo?

__________________________

1] As informações sobre o mito de Asclépio aqui relatado foram por mim
colhidas no Dicionário Mítico-etimológico de Junito de Souza Brandão, Editora
Vozes.

 

 

 Sylvia  Mello Silva Baptista formou-se em Psicologia pela PUC-SP.
É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia
Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA,
coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica
da Clínica da SBPA.
Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades
de Desenvolvimento”,  “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e
Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da
Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”,
todos  editados pela Editora Casa do Psicólogo.

Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

 

http://www.visiteedith.com/

sylviamellobaptista@gmail.com

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