Os Vivos do Dia dos Mortos – Elisabete Christofoletti

publicado na revista Primeira Versão n. 30


Os vivos do dia dos mortos

 Elisabete Christofoletti

elisabete.christofoletti@gmail.com

 

“ (…) as artes ou ciências práticas, não se aprendem só especulando, senão exercitando. Como se aprende a escrever? Escrevendo. Como se aprende a esgrimir? Esgrimindo. Como se aprende a navegar? Navegando. Assim também se há de aprender a morrer, não só meditando, mas morrendo (…) saber morrer é a maior façanha.” .Antônio Vieira, Segundo Sermão de Quarta Feira de Cinza

Participei há alguns anos da realização do trabalho de Incubação de Sonhos iniciado durante o Dia de Muertos, no México. Para quem conhece o México é inevitável retornar para casa abandonando seus encantos. O contato ou melhor a con-vivência com sua mitologia e seus rituais remetem às nossas próprias mitologias e rituais.

Foram dias, longos dias de indígenas horas conversando com os curandeiros zapotecas, ou caminhando diariamente pela antiga construção da Igreja/Museu de São Domingos, em Oaxaxa, e seu jardim de vegetação avermelhada, deixando a terra visível por baixo de suas folhas, possibilitando uma imagem de um mesmo tom, quente e árido, com a vegetação e a terra avermelhada, as construções em volta da praça de tijolo ou pedra em diversos tons ocre, em continuidade, quase sem ruptura, criando uma paisagem diferenciada dentro da cidade de Oaxaca, ou ainda percorrendo as ruínas de Monte Alban (local preferido dos sacerdotes para ligarem o céu e a terra; os astros e a agricultura) até a noite, quando os turistas não mais ocupavam seus caminhos, onde com o auxílio dos curandeiros que nos acompanhavam realizamos o ritual de evocação dos sonhos, já que estávamos iniciando nossos trabalhos de sonhos e a presença deles nos era fundamental, que estivéssemos em harmonia com nossa interioridade.

Como um ritual de iniciação, para entrar no círculo delineado na terra com flores amarelas, já difícil de enxergar pela chegada da noite, com o auxílio do luar, do fogo das tochas, marcado com o som de um instrumento próximo a um surdo, reproduzindo as batidas de cada coração.

Com a seiva de uma árvore queimando como incenso, um a um adentrávamos enquanto formávamos o círculo. A existência do círculo somente seria possível com a presença de cada um, o círculo era cada um, que passando por uma purificação em sua entrada, abdicava naquele momento de tudo tanto o possível para estar inteiro naquele ritual, que demarcava o ingresso neste mundo de interioridade explícita, protetor, de aceitação de cada um como se é, sem importar-se quem se é, de onde veio, quais suas riquezas, qual sua crença neste ritual.

Um ritual de iniciação também a uma etapa de reflexão, de um tempo que seria destinado a um contato bastante íntimo com a interioridade de cada um.

Após a purificação, é lembrado através de referências e agradecimentos os Deuses, que não estamos sozinhos, que somos criadores e criaturas, a presença do divino na existência.

Podemos entender a necessidade de lançar um olhar ao redor, aprendermos a enxergar em nosso quotidiano o que temos e conforme nossas escolhas estabelecermos um tipo de relação necessária e harmônica, não estabelecendo determinados confrontos quando não se fazem necessário.

A experiência de estar com um povo com uma arqueologia rica que faz parte do seu quotidiano, cujos mitos e xamãs remetem à sua história e à condição atual de muitos operários e comerciantes sobrepondo produção de mercadoria a atividade xamânica, obrigando a Igreja como instituição a viver um sincretismo, aceitando por exemplo que a comunidade participe do ritual do dia dos mortos, que faça tapetes de flores, serragem de madeira com sua porta com desenhos que nos remetem a essa festividade, para não perder espaço junto aos fieis, a instituição igreja precisou ceder, aceitar ou suportar, não sabemos ao certo, a cultura desse povo. Pensando sobre nossos rituais, no Brasil, foram os negros com seus cultos afro que tiveram que aceitar o sincretismo. A força, o significado desses rituais no México pode ser imaginado talvés por essa situação, que leva uma instituição sólida e tradicional como a igreja católica aceitar esse sincretismo, a respeitar a cultura mexicana. Para grande parte dos ocidentais, conviver com o diferente causa incômodo, como se a unicidade pudesse garantir alguma coisa, certezas, ou mesmo garantia de felicidade. Não é o poder religioso sobre um povo que lhe garantirá fieis.

Participar do ritual do Dia de Muertos, provoca os sonhos noturnos, facilitando o encontro, a proximidade com nossas tantas mortes, assim como responsável por minha disposição em sentar frente a tecnologia e buscar aconchego nas palavras, imensas teias, de símbolos, manifestação também de nossa mitologia e refletir o mito da morte, afinal somos narrativas (explícitas ou não) possibilitando, criando nossas próprias leituras.

O México todo, nos dias que antecedem o Dia de Muertos começa a preparar-se para receber seus mortos. Na cidade do México, com três grandes mercados, o “De la Merces”, o “De las bruxas” e o mercado “Dos doces”, deparamo-nos com um encanto próprio a de cada um deles. São espaços onde é possível sentir a movimentação das pessoas, o ritmo de seu caminhar, o tipo de procura que são feitas nesses mercados, algumas situações familiares, conversas que chegam da caminhada da rua. Em meio as frutas, legumes, flores, plantas para todas as curas, material para realização de trabalho de vudu, curas dos males do coração e do corpo.

O mercado “De la Merces” é bastante grande e abriga inúmeras barracas, que formam um conjunto de cores bastante forte, pela diversidade delas. Nas barracas das frutas e legumes, mais um aprendizado, além de não poder tocar em nada, pede-se a quantidade desejada, medida por aquilo que cabe numa mão, mas não se escolhe. A própria vendedora pega indiscriminadamente com a mão o que nela cabe e entrega ao comprador, que ao abrir seu pacote pode encontrar frutos bons ou estragados.

Nas barracas de condimentos a variedade de salsa é muito grande, para um desconhecido podem parecer iguais, mas não são, além de terem sabores diferentes, são funções distintas. Os vendedores demonstram animação quanto alguma pergunta sobre como cada salsa deve ser usada, dividindo com muito bom humor as informações, que como infelizmente não pude testar, não posso também afirmar que sejam saborosas.

Normalmente os mexicanos não sugerem a visita a esse mercado dada sua localização, próximo a zona de prostituição (organizada pela estado) e de circulação de assaltantes.

O mercado “De las bruxas”, conta com um número muito grande de senhoras idosas trabalhando, orientando e vendendo seus produtos. A maior dificuldade está em chegar a esse mercado, que não contando com sinalização de indicação pela cidade, precisa explicação sobre sua localização. Vivemos uma experiência bastante interessante, como estava sendo muito difícil encontrá-lo, resolvemos tomar um taxi, mas quando o motorista soube para onde iríamos, parou imediatamente o carro e pediu que descêssemos, após uma certa insistência de nossa parte, disse que não poderia nos levar porque ele não pode ir ou passar perto desse mercado, tinha impedimentos para isso. Já bastante irritado e incomodado, sugeriu que também nós não fôssemos, pois, estas são coisas com as quais não deveríamos brincar, são sérias, precisam de respeito assim como ele o tem. Terminamos por descer do carro, sem ao menos conseguirmos alguma informação sobre como chegarmos lá.

O incômodo de nosso taxista, evidentemente teve efeito contrário, respeitar não significaria para nós perdermos a oportunidade de adentrar em uma parte desse mundo de magia, e com mais um pouco de insistência, conseguimos pegar um ônibus que nos deixou em sua esquina.

A mistura de cheiros, cores, materiais, caminhamos por suas ruelas, muitas vezes passando apertadas em meio a tantas pessoas que caminhavam, faziam compras ou estavam fazendo uma refeição sentadas em grandes bancos de madeiras, em torno de mesas também de madeiras. Parte do trajaeto fomos acompanhadas por algumas pessoas que ofereciam os serviços de leituras de mão, previsão de vida futura e execução de trabalhos. Em um dos corredores (eram muitos, um imenso labirinto, onde facilmente poderíamos nos perder) encontramos animais, a maioria filhotes, cachorros, papagaio, passarinhos, ratos, galinhas, etc, morcegos secos assim como parte de animais, sempre preparados e vendidos para a execução dos trabalhos, foi nesse momento que descobrimos que máquina fotográfica não é bem vinda. Convencidos de que a melhor e mais bonita imagem deveria estar em nossas lembranças, começamos a ouvir uma música, distante, mas ali.

Bela, alegre,  caminhávamos pelo labirinto embalados por sua toada, até que encontramos bem no centro de uma banca uma mesa onde quatro mulheres, de corpo forte e vestidas com roupas coloridas, jogavam um carteado, ao lado um casal dançava ao som de um grupo regional que estava  devidamente trajado apra a ocasião, uniformes pretos com detalhes brilhando, grande chapelões e pessoas em torno, de curiosos e não convidados, talvés somente nós, o restante demonstrava fazer parte do que mais tarde descobrimos ser a festa de aniversário da senhora que estava dançando, a dona de uma das barracas.

Enquanto estávamos hipnotizados pela festa, do fundo do imenso corredor, observo uma senhora com algumas uma cruz carregando encostada ao peito, enquanto se aproxima, percebo que a cruz que carrega guarda um Cristo moreno, quase negro.

Depois de resistirmos ao oferecimento de alguns produtos, a qual nos submetemos, as horas passavam e precisamos caminhar.

Outra viagem a nossas possíveis fantasias vivenciamos no mercado “Dos doces”, caminhando nas ruelas extremamente apertadas (por onde passava uma pessoa de cada vez e neste caso era dois ou três), encontramos tudo o que pudermos imaginar com motivos de morte, são caveiras, esqueletos, fantasmas de açúcar, chocolate, pipoca, pipoca de arroz, vários tipos de confeitos, enfeites elaborados em papel, plásticos, madeira, tolhas de papel recortadas com motivos de morte formando grandes varais.

Em Oaxaca, a tradição do “Dia de muertos” mantém-se com muita força, o mercado da cidade apesar de grande, no período de preparação para a festa fica pequeno, suas ruelas que já são estreitas não permitem o passo acelerado, nem mesmo esquivar-se de sacolas e pessoas. Uma grande mistura de cheiro, cores e formas criam um ambiente alegre, onde com bastante cuidado e exigência, é feita a escolha de cada elemento que irá compor o altar das oferendas.

Passando pelas bancas de comidas encontraram todo tipo de fruta, legumes, queijos, presuntos, salames, pães, bolachas, que habitualmente são comprados para consumo dos Oaxaquenhos, nesta ocasião também são escolhidos de acordo com os gostos dos mortos aos quais se deseja oferecer, para compor o altar que cada família irá montar em sua casa e depois no cemitério em cima das tumbas para seus mortos.

Nas barracas de brinquedos e artesanatos assim como nas de doces é possível encontrar tudo que a imaginação e a vida permite, sempre com motivos de morte. A vida é retratada em todos os seus momentos, crianças, adultos homens e mulheres, até mesmo vovós esqueletos, famílias esqueletos inteiras. Pequenas ou grandes, essas esculturas também retratam as mais variadas atividades profissionais, assim como os momentos da vida. São esqueletos dançando, tendo relações sexuais, comendo, bebendo, cantando, tocando instrumentos, dando aula, formas de representação dos prazeres da vida.

O Dia de Muertos para os mexicanos é acima de tudo a possibilidade da comemoração da vida, dia em que os que se foram recebem autorização divina para retornarem e partilhar a vida com os vivos.

Entre os dias trinta de outubro e dois de novembro acontece a grande festa. Nesta primeira noite as famílias preparam-se, já tendo montado um altar em suas casa com oferendas para os mortos, coloca-se os elementos simbólicos (chocolate, pão, fumo, mezcal, flores amarelas que simbolizam a sabedoria e encontra-se facilmente pela região neste período do ano) além daqueles objetos e alimentos que o morto mais apreciava, para que retornando possa sentir os prazeres que apreciava. Também lhe é oferecido um tapete, para que descanse de sua chegada para posteriormente fazer a viagem de retorno, que como todos imaginam deve ser longa e cansativa.

Chegando ao cemitério é possível perceber que algo está acontecendo, há uma grande movimentação de carros, pessoas carregando os últimos preparativos. Ainda de dentro do ônibus vimos que um senhor carregava um caixãozinho com um esqueleto tocando saxofone, sua família o acompanhava, com passos rápidos caminhavam. Mais tarde, já dentro do cemitério, tornamos a encontrá-los, com o caixãozinho depositado em cima da tumba, e todos sentados e conversando em torno dela.

Na entrada do cemitério pelo lado de fora estão barracas com comidas típicas, são doces, salgadas e bebidas, que ajudam a aquecer o corpo para passar a noite e enfrentar o frio.

Após um passeio pela frente e redondezas do cemitério, onde pudemos observar um belo tapete (como aqueles feitos em Corpus Christh pela igreja católica no Brasil), com motivos de santo ou referente a vida envolvendo pessoas mortas, é um colírio para os olhos.

Entrar no cemitério é como se as cortinas do municipal de São Paulo fossem abertas, a sensação que sentimos ao estarmos sentados nas confortáveis cadeiras do municipal, em meio a sua suntuosidade, a cada vez que as cortinas abrem, o coração dispara e adentramos num espaço mágico. Assim é a sensação de passar pelos arcos da entrada do cemitério, abre-se um espetáculo do qual fazemos parte, personagens vivos, onde atuamos com nossa própria narrativa, são milhares de velas acessas, crianças dormindo, outras brincando, arrumando as oferendas, algumas vestidas de diablitos, adultos conversando, rádio ligados com as músicas mais variadas possíveis, pessoas tocando instrumentos. Na penumbra da noite os rostos iluminados por chamas, o início da neblina, a mistura de sons formando um mantra único.

Reunidas as famílias tomam o mezcal (aguardente elaborada a partir de uma planta o maguey, que depois de adulta, quando nasce o pendão de seu centro, é cortado e na cova assim criada emerge um líquido do qual é feito o mezcal), assim como oferecem aos que os visitam, trocam-se goles de bebidas, conversas, histórias e a certa altura da noite come-se uma comida própria para a ocasião o tamalis, uma massa de milho envolta em folha de bananeira com um molho preto e salsa (uma espécie de pimenta), lembra visualmente nossa pamonha, mas com sabor totalmente diferente e único.

Os sabores, cheiros sempre serão únicos, é possível lembrar de determinados odores sentidos na infância por exemplo e que não podem ser repetidos, justamente porque foram sentidos em dado momento e em dada vivência. Os sabores e odores estão muito mais vinculados a nossas lembranças, a situações que vivemos enquanto tínhamos contato com o que nos referimos, do que com um alimento, por exemplo, propriamente dito. A leitura que fazemos de uma situação vivida está vinculada ao que somos, pensamos, agimos naquele momento, ao contexto, isto é, vivemos uma situação, temos uma percepção, expectativa, envolvimento e constituímos uma narrativa, que neste momento nos torna especiais, únicos assim como o que vivemos. Dessa maneira o sabor do tamalis jamais poderá ser o mesmo, cada pessoa estabeleceu uma relação, buscou lembranças constituindo cada interioridade assim como a leitura sobre ele, portanto jamais se repetirá.

O significado de uma festa como essa, não pode ser desvinculado da cultura e crença de um povo, lembrando-nos sempre que não poderá ser transportada para outros lugares, fora de seu ritual, compondo e sendo composto por tantas e diversas narrativas do povo mexicano.

Ainda no cemitério, orações são feitas, de reverência aos Deuses, pedindo e agradecendo, colocando-se a disposição para que os seus possam vir visitá-los.

Caminhando por entre as ruelas do cemitério é possível conversar com as pessoas, ouvir tantas histórias de vida e morte (também Severinas em tantos sofrimentos, dores, uma vida miserável, mas que contrário a qualquer previsão sobrevive e surpreende), e sentir a perplexidade quando perguntam como é nossa festa do dia dos mortos.

As diferenças são perceptíveis. Sofremos com a morte (sentimento que também dividimos com os mexicanos), e nos esforçamos o máximo para dela distanciarmos, assim como dos que se foram. Em nosso finados, deparamo-nos com o sofrimento, passando os mortos a representar e carregar com sua lembrança sofrimento e dor, dor também solitária, ao contrário do como vivemos mexicanos, quando as pessoas se visitam, participam da montagem do altar de amigos, assim como partilham o momento de desmontar e saborear as oferendas.

Com a morte, abrimos um ciclo de dor, sofrimento e penitência, e por isso precisamos nos distanciar dos nossos mortos, morte é sinônimo de separação e não de reencontro, esta concepção aumenta ainda mais a dor já existente, fugimos dos que amamos, dos que sentimos falta, de nossos sentimentos, mortes, perdas, de nós mesmos.

O momento da constatação da morte, seja para nossa cultura ou a mexicana, é o mesmo: dor, sofrimento apresentam-se com grande semelhança de forma e sentido, a existência de rituais (de encontros) para o “Dia de muertos” não altera, nem exclui a dor da perda.

Quando a morte de um ente querido acontece, somos mobilizados por ela, mas esta é uma situação em que entramos em contato com a dor que é única e própria de cada um, dor da perda, daquele que se foi, do que se viveu e que não poderá mais ter continuidade, a impotência e a lembrança de tantas outras perdas que acumularam-se ao longo dos anos durante a construção de cada história de vida; porém não choramos a perda do outro ou pelo outro, mas por nós que permanecemos, pelo que possamos vir a sentir. A dor é por nós, cada um de nós.

Trabalhar com as perdas não é tarefa fácil. Poucas vezes e em raras situações deparamo-nos com uma situação como essa, onde podemos participar da opção em viver esta experiência, não podemos impedir, vivemos em grau máximo nossa IMPOTÊNCIA. Impotência diante da morte, mas não diante de tantas pequenas mortes que ao longo da existência passamos uma a uma, e que insistimos, para assumirmos posteriormente o papel de vítima, graças a  uma possível impotência.            Não só a morte, mas a vida também contém mistérios que envolvem nossas crenças. Vida e morte/Morte e vida, crenças e rituais, lembremos que os evangelizadores, donos de verdades, quando chegam buscam a todo custo impor essa sua verdade como única, para dominar interfere em conceitos, formas de vida estabelecendo uma nova crença, provocando genocídio.

Sentada no café em frente a praça principal, em meio a uma saborosa margarita, pudemos ouvir algumas histórias no mínimo bastante instigantes, como esta de mesmo de forma sintética tentarei relatar.

Contam os estudiosos dessa cultura, que no princípio da colonização mexicana, os indígenas atribuíam a cada indivíduo várias entidades anímicas e cada uma delas correspondia a um destino diferente depois da morte. (Para compreender esse conceito, precisamos deixar de lado o conceito cristão de um Deus único)

Os povos Nahuas habitantes da região central do México compreendiam a morte como o momento da dispersão dos componentes do ser humano, sendo que consideravam três os principais centros anímicos do ser humano que correspondiam a três níveis do cosmo.

O primeiro, situa-se no coração, guarda consigo a essência humana, a vida. Quando a pessoa morre, ele deixa o peito como o deus do vento. O coração depois da morte permanece sobre a terra, pois, pertence não a um indivíduo, mas a seu grupo familiar.

O segundo, situado no cérebro, está vinculado a individualidade e ao destino pessoal, sai da cabeça como uma serpente e depois da morte repousa sobre a terra, além de geralmente ser guardado por seus familiares em uma caixa que contém suas cinzas e mexas do cabelo da pessoa que morreu.

O terceiro, situado no fígado, representa o motor das paixões, se dispersa na superfície da terra e pode converter-se em fantasmas ou enfermidades, como o vento noturno.

O poder da morte era atribuído a Deus que a partir do modo de vida de cada um, determinava como seria sua morte, isto é, os Deuses avaliavam o bom e o mal de cada um e estabelecia seu destino a partir desse momento. Para as pessoas, porém, o mais importante era cumprir uma função cósmica do que necessitassem o prêmio ou o castigo, não existiam paraísos de ócio, mas sim de trabalho. Acreditava-se ainda que todas as criaturas tinham um coração indestrutível e de natureza divina, Dom esse oferecido pelo deus que os haviam criado.

A forma da morte de cada um indicava o lugar para onde se iria. Depois da morte haviam quatro lugares para designar seu destino, “el Mictlan” que significa lugar dos mortos, situado nas profundezas da terra, para onde se dirigiam os que haviam tido uma morte comum.

Os que caíram em combate eram oferecidos em sacrifício ao sol em “el Ichan Tonatiuh Ilhuícatl”, o céu que é a morada do sol, assim como as mulheres mortas em seu primeiro parto ou comerciantes que padeceram em seu trabalho.

O paraíso da vegetação “el Tláloc” recebia os que foram golpeados por um raio, afogados ou que sofreram enfermidades ligadas a água.

Para os recém nascidos que morriam antes mesmo de conhecerem alimentos sólidos, era destinado um lugar chamado de “Chichihualcuauhco”, onde podiam alimentar-se com leite, lá havia uma árvore com frutos em forma de mamas e enquanto esperavam uma nova oportunidade de vida, poderiam continuar a se alimentar.

Não podemos deixar de salientar, que segundo essa crença, cabe a Deus somente direcionava a pessoa morta, o destino já está traçado partindo das escolhas que uma a uma foram feitas. A responsabilidade pela felicidade, infelicidade, cabe a cada um, que dessa maneira assume em suas mãos sua própria história de vida e morte.

Dentro da cultura mexicana, os cultos aos mortos ou sobre a morte, são vários; como por exemplo o culto aos deuses da morte, como responsáveis pelo ciclo que perpetua a vida, seja ela vegetal, animal ou humana. O culto aos antepassados através da veneração dos restos mortais que eram depositados no templo da comunidade, buscando força e proteção. Também o culto às forças sobrenaturais contidas em relíquias utilizadas como objetos sagrados e por isso também geradores de poder; e por último o culto aos mortos, preparação do corpo, separação das partes e envio de cada uma delas a seu destino, preparando dessa forma também o cadáver para sua conservação e a homenagem a seus restos.

Dissociamos em nossa cultura a vida da morte, assim também são estabelecidas nossas relações quotidianas, mas não podemos fugir de nossas mortes diárias.

Temos vivido em um mundo que dia a dia volta-se mais para a mercadoria, para o acúmulo, colocando em segundo plano a interioridade e singularidade de cada um. Abrimos mão de nossa cultura em nome de outra que provavelmente deva ser melhor, mesmo que não a conheça muito bem, e em nome de uma tal praticidade, modernidade, vamos extirpando os poucos rituais que ainda nos restam.

Talves pela ausência de rituais para quase tudo, que tenha ficado tão encantada com esse grande coração que senti durante minha estadia no México, desde a gentileza pelas ruas, o acolhimento pelos desconhecidos, o cuidado com o qual foram feitas as deliciosas e saudosas tortillas com flor de abóbora e queijo, na esquina do pequeno hotel, ao senhor dono da charutaria que gentilmente conversou, e permitiu que trouxesse o melhor que podia me oferecer, ao garçon do café que sem a preocupação de perder clientela ensinou pacientemente a receita da melhor margaritta que alguém possa ter provado, ao rapaz que passou dias pintando a bela virgem de Guadalupe que finalmente encontrei, a todos que nos mercados, nas feiras, pacientementes dicidiram suas fabulosas histórias de morte e vida, de crença e esperança apesar de uma vida também difícil e amarga, principalmente por estarem na condição de vizinhos pobres do grande senhor de nossos tempos, e finalmente pela gentileza e afeto que não xamãnica, mas veio dos velhos xamãs, detentores de sensibilidade e olhar além das aparências, que conseguiram conviver com as diferenças mesmo sabendo de sua existência e encerraram essa jornada com um sopro de caracol (com o desenho de um diablito) no coração.

Ecoando ainda o sopro do caracol, precisamos resgatar nossa possibilidade de escolha, nossas narrativas, que são tantas, tantas narrativas de vida e morte tantas Severinas quanto desejarmos.

#mitologia#

#mythology#

#psicologia analitica#

#day of the dead mexico#

#dia dos mortos no méxico#

#analytical psychology#

#Day of the Dead rituals#

#rituais do dia dos mortos#

Anúncios

2 pensamentos sobre “Os Vivos do Dia dos Mortos – Elisabete Christofoletti

  1. temascal a parte, o méxico é lugar de pulsao de vida, celebração da morte, e o fim da vida para muitos viventes que sofrem com o politico-traficante-policial

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s