A Pré-Consciência e os Pré-Socráticos – Nilson Santos

A PRÉ-CONSCIÊNCIA E OS PRÉ-SOCRÁTICOS

 

NILSON SANTOS

nilsonsantos@yahoo.com.br

 

Muito já se disse sobre a contribuição da Filosofia Grega para a formação da Cultura Ocidental. Não pairam dúvidas sobre a decisiva influência do pensamento de pelo menos dois gregos na constituição de toda a Filosofia Ocidental: Platão e Aristóteles.

Porém acerca dos pré-socráticos, compete-nos ainda reforçar alguns aspectos basilares, que contribuíram de maneira decisiva para a identidade do homem ocidental, mas que foram sendo distorcidos com o passar do tempo, em verdadeiro exercício stalinista de esquecimento voluntário e de inversão de premissas. Como resultado, vinculamos quase sempre o papel do pensar, anterior à tradição grega clássica, à lembranças de modos singelos de lidar com o mundo, como aventura romântica de arco e flechas do conhecimento, como se o conhecimento tivesse origem a partir de Sócrates, cabendo ao antes a imagem de rudimentares construções.

O pensamento pré-socrático se justifica para a filosofia, como reflexão despojada do caráter filosófico, devido a aparente precariedade de sua construção, muitas vezes revelando-se como exercício de pensamento tipificado como lógico-matemático, na tentativa de somente dizer a phýsis ou a arché, revelando profunda perplexidade diante do mundo que o cercava, porém, apoiados em razão incipiente. Se tomarmos a tradição do pensamento de Anaximandro ou Xenófanes, não reconhecemos que não ultrapassavam a compreensão da natureza, e nem mesmo era sua pretensão, sendo por causa disto identificados nos escritos tanto de Platão quanto de Aristóteles como estudantes da natureza.

Mantendo o mesmo sentido, Parmêmides, Leucipo ou Demócrito parecem ter realizado papel semelhante, ao buscarem os elementos constitutivos, onde as coisas primárias, pudessem fazer surgir as secundárias.

Faz-se evidente aos nossos olhos ocidentais, que estas expressões de sondagem do mundo dentro de forte apelo sensorial ou dentro de procedimentos especulativos simplificados, não conseguiram se constituir como filosofia, pois faltava à elas disciplina metódica tal que pudessem apresentar corpo rigoroso no âmbito da intelecção, ou seja, nunca se prestaram, apesar de não ser este seu propósito, a organizar método de compreensão do homem e do mundo a partir dos mesmos elementos básicos que conseguiriam irradiar ordem e sentido partindo de uma premissa epicêntrica.

Não é possível falarmos ainda em filosofia, como corpo racional ocidental, tipificado como razão, pois não foram sistemáticos o suficiente para atingirem a radicalidade racional de cada tema, ou seja, a raiz epistêmica como eixo explicativo daquilo que buscavam compreender.

Nem mesmo foram capazes de fazer o exercício inverso, ou seja a inserção do conhecimento particular que peremptoriamente estabeleciam na sua totalidade, para poderem compreender de forma mais extensiva o sentido e a profundidade de suas proposituras, nem realizaram as relações evidentes entre as partes e o todo, nem compararam o produto de cada tradição, expressão típica do modo de pensar da ocidentalidade, nem mesmo identificam os elementos ou pontos fragilizados que seriam passíveis de nova ação investigativa.

Para a maioria dos manuais de filosofia, a contribuição dos pré-socráticos foi importante apenas por lançar as bases do rompimento com o conhecimento místico, muito embora continuasse perigosamente preso ao mito. Como resultado sua atitude efetivamente não convence a ocidentalidade, mas é inegável, que após a instauração da razão grega – estabelecendo a distinção entre sagrado e profano, entre razão e mito – esta nova tradição toma o que lhe antecede como parte da sua história constitutiva, onde o resultado desta fagocitose evolutiva é a crença segura de que fora da filosofia ou da razão, havia apenas fragmento.

Esta situação aponta para uma vontade por criar oposição e dicotomias entre criador e criatura, gerando ou apenas incrementando mais tarde outras oposições: corpo e alma (Malebranche), sujeito e objeto (Hume), ser e aparência (Platão), racional e irracional (Kant), consciente e inconsciente (Freud), indivíduo e sociedade (Durkheim), desejo e dever (Agostinho), fé e razão (Descartes), comunismo e capitalismo (Marx), sociedade e natureza (Rousseau), materialismo e idealismo (Hegel), popular e erudito (Marcuse) democracia e autoritarismo (Habermas).

Antes que seja tarde, afirmar que esta seria sua contribuição mais significativa, tomando a contribuição dos pré-socráticos dentro destes limites tão estreitos, presta-se antes ao reforço da sensação da imprescindibilidade da filosofia, como se tudo se partisse e se dirigisse a ela, numa trajetória espiral-ascendente, onde as situações se somam evolutivamente, mesmo que aparentemente se revelem como novo paradigma (Kuhn).

Nem mesmo a aferição do verdadeiro, ou o empenho na revelação das inquietações do homem se configuram como bases efetivamente importantes naqueles que, a exemplo de outras mitologias, aventuraram-se na jornada de instituição de um tipo de consciência.

Ao inquietar-se com o mundo existente, os pré-socráticos estabeleceram a possibilidade de tomá-lo, romperam com o discurso de outras identidades míticas que os antecederam, desacreditaram no natural preexistente, carregando-as de conteúdos novos e próprios, diga-se nova singularidade plasmada; os seres intrinsecamente ontológicos, cuja existência não dependia do homem, são imediatamente posta em suspenso. O logos heraclítico não realiza distinção entre criatura e criador, sua constituição prevalece em tudo, a consciência do homem a tudo se estende, tudo é ele.

As afirmações de Parmênides em torno da invariabilidade do ser, como condição de superação da dóxa para o estabelecimento da alétheia, ilumina paradoxalmente a mesma direção de Heráclito, que defendia o oposto, a impossibilidade da ontologia, dado o caráter mutagênico do ser. Ambos falam sobre a natureza, sobre o mundo como algo passível de tornar-se abstrato, de serem instituídos e reconhecidos, elevados à categorias sociais, são reconhecidas e preenchidas de significações e aí sim passível de serem ditas, comunicadas e sentidas.

Os pré-socráticos inauguram a criação da natureza. Como deuses, passam a se reconhecer como homens e a dizer as coisas; o como e porquê existem, dão vida à natureza: vida humana. Instalam-na como modo de consciência, criam tudo o mais a imagem e semelhança do homem, humanizando o Caos. A natureza e todas as suas relações e desdobramentos passam a existir por causa do homem.

Estranhamente a tradição filosófica inaugurada posteriormente não mais reconhece como sendo natureza e homem parte do mesmo todo. Desta cisão, onde se apartam mundos, inaugurando nova consciência que aparta criador e criatura, decorrem ontologias que obrigam o sujeito (agora existente) a extasiar-se com objeto (também recém criado). Estranhamente tudo passa a ter vida e existência própria, provoca no homem o ato de maravilhar-se, não mais se reconhecendo, não mais sendo dele, não podendo ser reinventada, mas descoberta e investigada.

Com este deslocamento, o homem conquista a perda de sua autenticidade, fazendo submergir sua singularidade, sua distinção, subalternizando-se lógica da natureza que criou. Ao narrar sua existência, e a maneira como a concebe, não vence a narração, não preenche de significado e significações sua vida, sucumbe ao discurso ordenador da natureza, deixa-se envolver com o mundo e seus caprichos.

Os pré-socráticos ao valorizarem a gênese do mundo, valorizaram na verdade a gênese demiúrgica de si próprios. Esta inquietação que acabou por desembocar até mesmo em vários conceitos-aforismos elaborados sobre a origem da phýsis e da arché, pode ter aos olhos da química ou da física modernas papeis insignificantes, mas se os nossos primeiros pensadores erraram para a ciência, acertaram para práxis social, grosseiramente negligenciaram princípios básicos da química; por desconhecimento, negaram leis elementares da física, por descontinuidade lógica inviabilizaram a astronomia, porém constituíram o existir da natureza fecundada pelo por cada um.

Não é sem motivos que Platão preocupou-se com os pré-socráticos e fez-lhes crítica. Porém, apesar de afirmar ser a psyché (princípio vital, alma) a fonte do movimento, em contrapartida à noção da própria natureza com origem própria, Platão cede aos encantos da filosofia, estabelecendo dois mundos, hierárquicos e portadores de ontologia própria.

Com contribuições desta ordem, a filosofia acabou por permitir que o homem aprofundasse cada vez mais certas formas de sistematização do conhecimento, o grande rebento da filosofia, acabou por realizar simbiose com um modo de manifestação do trabalho, enquanto ação do homem na natureza, assim solidifica-se a tríade filosofia, ciência e capital, numa união cada vez mais indissolúvel e indistinguível.

A força produtiva e destruidora desta aliança, acabou reforçando a objetificação das regras do mundo, desumanizando e eliminando a práxis social enquanto singularidade e elemento dirigente da criação, transformando-a em acessória, dependente a ponto de não conseguir validar nem reconhecer o que produza se não passar cientificamente pelo buraco da agulha do método. Em momentos de Pós-Modernidade (denominação desnecessária se percebemos que a teia constituída pela ocidentalidade continua atada aos mesmos princípios), enquanto o ser social se desfaz em toda sorte de relativismos, a ciência e o capital parecem esbanjar saúde, arvorando-se o direito de investigarem e validarem o mundo.

Mas o que fez a ciência senão retirar-se do campo da historicidade e das implicações epistemológicas, ontológicas e políticas, para validar a si mesma como conhecimento universal?

Se tomarmos como verdadeiro, aquilo que pode ser repetido e mensurado, dentro de determinadas condições interpretativas impostas por ela, ciência, e validada também pelo ritual criado e reconhecido por ela, tudo o que está fora dos seus limites, não pode ser reconhecido, não tem o estatuto de verdadeiro, não existe, torna-se lenda, assume a condição de mito. Todas as manifestações sociais que forem encontradas fora da capacidade de domínio da ciência, resumem-se a pura superstição ou suposição, passível de ser duvidada, desacreditada e até mesmo negada como existente. O resultado disto é um cosmos sem identidade, onde até mesmo o ser social é colocado sob suspeita de inverosimilhança. O existir possível passa inexoravelmente pelos rigores do método, e as manifestações aceitas devem caber em modelos fragmentados que são incapazes de serem abrangentes e articulados entre si. Neste caso a soma das partes nunca tem como resultado um todo.

Muito embora a ciência surja como manifestação, tornou-se a única forma aceitável tanto material como espiritual de comunicação e investigação, só podemos falar, pensar, criar e procriar se respeitamo-la.

A ciência moderna, em que pese a noção de confiabilidade e objetividade que inspire, revela-nos o mundo anterior e posterior aos pré-socráticos, dominados pela teogonia, onde dizer o Caos e ordená-lo era bastante precário pois, quase sempre os deuses é que dirigiam as coisas do universo o comportamento de cada ser social e o sentido de existência de cada comunidade. A ciência apenas substituiu os deuses, mantendo a mesma tradição.  Substituímos os discursos míticos do passado por discursos míticos do presente. Diz ela, hoje, o ser, o destino e a origem das coisas. Assim a práxis social não reconhece na produção da ciência a si própria como autora, suspeitando e apartando-se de si mesmo, ou seja de outros discursos míticos que podem também ordenar o Caos, despojando-se da condição de criadora, para empossar a criatura (ciência) em seu lugar, aceitando a sina imposta por ela.

Vivemos a pré-consciência, tempo da não criação, da resignação, da genuflexão diante do mundo dito de fora, obedecemos os deuses e seus caprichos para não ser penalizado, exatamente como os gregos que temiam a ira dos deuses do Olimpo. Vivemos em tempos onde o destino do homem é traçado pelas Esfinges, Minotauros, Hidras, Atenas e Hermes da ciência moderna, restando a cada um de nós, a exemplo dos gregos, pequenas combinações para minimizar o sofrimento, nunca extirpá-lo, para descobrir mais, nunca atingir o conhecimento pleno, para sermos bons coadjuvantes, nunca demiurgos.

Compete nestes tempos de mercadoria, diálogo profundo e destrutivo consigo mesmo, em torno da nossa competência e capacidade, de romper o emaranhado socialmente produzidos, dissolvendo cada núcleo gerativo. Se a ciência não permite, por conta do seu núcleo fundante, outras alternativas que não estejam contidas no sistema que a nutre devem ser encontradas, mas inicialmente faz-se imperioso destruí-la.

Pensar a filosofia com os fundamentos ontológicos e epistemológicos postulados até o presente, representa ficarmos restrito ao universo reformista. Não é sem motivos que muitas alternativas geradas no seio da filosofia, nestes últimos anos, foram rapidamente absorvidas e incorporadas, trazendo não a contradição para o coração do sistema, mas antes vitalidade, consenso e modernidade as relações materiais e espirituais do Capital.

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