Quem é o Primo Alzhe?

da net em 10.11.2013: http://sbpa.org.br/portal/quem-e-o-primo-alzhe/

Com a maturidade, a chegada dos quarenta e tantos anos, uma dolorosa realidade se nos apresenta: a perda de memória. Aquela rapidez de lembranças que outrora se fazia presente dá lugar ao esquecimento de coisas básicas. Vivemos nos perguntando: “Onde estão os óculos, qual é o nome da mulher do amigo de infância, quando é  a consulta médica?”.

Não é difícil vermos amigos conversando uma linguagem que se entende só quando se está envolvido: “É a…mulher do…que mora na…lá na…”. Parece conversa de loucos, mas todos entendem quem é quem na história. É algo mágico de um pensamento truncado que faz sentido naquele cenário dos encontros.

Não é difícil aparecerem brincadeiras em torno do famoso primo Alzhe, numa referência à doença de Alzheimer que tanto assombra. Gargalhadas abertas entre os amigos cinquentões; certa complacência entre os pares, uma profunda compreensão da perda da memória recente. Estamos todos juntos neste barco da vida, pensam os amigos.

As gargalhadas diminuem, o susto aparece, a negação se faz presente, e a constatação vem pesada quando o primo Alzhe não é mais uma brincadeira – ele se transformou em Alzheimer, a doença.

Ela é sorrateira. Vem devagar e mansa se instalando e destruindo o cérebro.

O primeiro ataque, no hipocampo, onde as memórias são arquivadas, seguido por outros: perda da articulação de palavras; associação de palavra/significado, pessoa/nome, emoções/sentimentos; nas fases mais avançadas, o comprometimento da coordenação motora. Por fim, a regulação da respiração e do coração que leva à morte.

Um cérebro vivo e capaz se transforma numa massa sem viço, sem cognição. Em vida, o cérebro é transformado num órgão praticamente morto.

Conviver com o princípio da doença é angustiante para a pessoa. Ela sabe que está perdendo a memória: o acesso às suas lembranças já se transformou em transtorno. A vergonha estampa-se nos olhos dos filhos quando o pai ou a mãe não reconhece uma pessoa próxima, ou quando pergunta pela milionésima vez a mesma questão. É massacrante.

Uma paciente idosa, já falecida há muitos anos, contava-me a angústia de se lembrar do meu nome, do que eu fazia, do porquê  vinha ao meu consultório, sem, no entanto, lembrar-se do meu rosto. Durante os primeiros minutos das nossas sessões, ela olhava-me atentamente, pedia para passar as mãos no meu rosto, pois acreditava que se tivesse a memória sensorial talvez fosse mais fácil relembrar. Tiramos fotos juntas, para que pudesse levar minha imagem com ela. Já era tarde: não conseguia lembrar-se daquela pessoa ao lado dela. Entretanto essa história acompanhada de angústia repetia-se semanalmente.

E eu acompanhava de perto sua demência. Angustiava-me pela angústia dela e principalmente pela vergonha que via nos rostos dos familiares como se a doença fosse um demérito dela e falha deles.

Que doença é essa? Por que ela não só leva embora a memória recente das pessoas como também toda sua memória?

Um amigo querido contou-me a dor que sentiu ao ver o desespero nos olhos da mãe quando foi anunciado que ele estava na casa para visitá-la. Ela procurou o filho criança pela casa, amparada por aquele “senhor” que ela nunca havia visto. “Cadê meu filho, moço?”. Foi a pergunta angustiada de uma mãe que se fechou em silêncio.

Por que essa doença leva embora meu pai, minha mãe, meu grande amigo? Por que ela não leva embora apenas a memória recente?

“Cadê meu pai? Cadê minha mãe? Cadê meu marido?” Onde eles estão, para onde vão e como vão?

Uma viagem angustiante, triste, escura tanto para o doente como para a família.

Devido ao meu trabalho com idosos em consultório, tenho aprendido ao longo dos anos a lidar com pessoas demenciando; confesso que aprender   não me faz entender a subjetividade da doença, porque ela é  violenta, ingrata e severa.

Existem casos de psicoses que são desenvolvidos não apenas pela herança genética como também pelo padrão, muitas vezes paradoxal, da dinâmica familiar. O não reconhecimento no olhar da mãe pelo filho é destrutivo. É o olhar vazado, sem reflexo que o faz não existir.

E na fase madura, quando filho vive essa situação? Ele vê no olhar da mãe o vazio do não reconhecimento. É opaco, sem reflexo. Apesar de ter mais instrumentos emocionais e racionais para lidar com o vazio e sem a ressonância do olhar apaixonado da mãe, não é menos desesperador.

É um tormento.

Naquele olhar de outrora, não me reconheço mais e nem reconheço o outro. Fisicamente é meu ente querido, todavia cadê a alma, cadê o amor, cadê minha mãe, meu pai ou meu querido?

Foram embora? Foram roubados? Simplesmente se foram…

Atualmente já não me interesso tanto pelo olhar vergonhoso dos familiares; interesso-me pela angústia de não ser mais visto. Se eu pudesse ver os familiares de minha primeira paciente com Alzheimer, talvez pudesse ajudá-los, tratando não só da vergonha que sentiam da idosa demente como também do fato de não existirem mais para ela. A vergonha de não serem mais nada além de cuidadores que davam condições para ela viver.

Ela não os via e nem os conhecia.  E eles, familiares, também não reconheciam aquela idosa que havia ido embora há anos de suas vidas. Era um corpo que precisava ser tratado com a maior dignidade possível, mas a alma, já havia ido para outro lugar.

Ainda não consegui fechar um pensamento sobre a simbologia do Mal de Alzheimer, o porquê de ele vir roubar a alma do nosso querido. O que ele quer dizer psiquicamente? Por que essa violência com as relações familiares?

Até recentemente, o único que roubava almas era o Diabo, em troca de favores. O Alzheimer não. Ele não dá nada em troca, chega manso,  estabelece-se confortavelmente sem fazer barulho. Quando os familiares percebem sua presença, parte do cérebro já foi destruída. E a alma do idoso foi levada embora.

Quem é o primo Alzhe?

Se alguém souber, por favor, me avise.

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