A Desmedida de Epimeteu e o Humano Pós-moderno – Ana Célia Rodrigues de Souza

IMPORTANTE: Na semana anterior havíamos publicado este mesmo artigo, porém tivemos alguns problemas com o post e foram omitidas várias páginas. Agora segue o texto completo. Esperamos que possa ser lido, agora sim, completo e que possamos continuar investindo em nosso maior desejo: que é dialogar, trocar nossos conhecimentos, além da geografia. Sejam todos bem vindos!

A desmedida de Epimeteu e o humano pós-moderno

Ana Célia Rodrigues de Souza

 

E aquilo por que ansiamos e de que temos necessidade

é alma – alma de peso e substância.

Unamuno, M. (Tragic sense of life) in Hillman (2010, p.319)

Sinopse:

O artigo parte do Diálogo Protágoras de Platão, onde o Sofista Protágoras conta para Sócrates o mito de criação dos mortais e a distribuição de atributos às diversas criaturas (feita por Epimeteu), para pensar as desmedidas da humanidade pós-moderna. E, propõe uma reflexão sobre o ego como centro da consciência a partir de conceitos de filósofos neoplatônicos e de James Hillman.

Abstract:

The article starts from Plato’s dialogue Protagoras, where the sophist Protagoras tells Socrates the creation myth of the mortal and the distribution of attributes to the various creatures (made by Epimetheus), to think the unreasonable ones postmodern humanity. And, proposes a reflection on the ego as center of consciousness from neoplatonic concepts of philosophers and James Hillman.

Sinopsis:

El artículo se ha ido del diálogo Protágoras de Platão, donde las cuentas de Sofista Protágoras para Sócrates el mito de la creación de los mortals y de la distribución de cualidades a las criaturas diversas (hechas por Epimeteu), para pensar en los desmedidas unas de la humanidad después-moderna. E, considera una reflexión en el ego como centro de la conciencia de conceptos de los filósofos neoplatonicos y de James Hillman.

Palavras-chave: desmedida, Protágoras, neoplatonismo, psicologia arquetípica, ego e pós-modernidade.

Key words: unreasonable, Protagoras, neoplatonism, arquetipic psychology, ego and postmodernity.

Palavras-chave: desmedida, Protágoras, neoplatonismo, psicología arquetípica, ego y después-modernidad.

Epimeteu, Protágoras e Sócrates

Vamos começar localizando esse personagem do mito grego Epimeteu, cujo nome etimologicamente significa do grego “aquele que vê depois”; é irmão do titã Prometeu que por sua vez é aquele que sabe antes, percebe de antemão, o prudente, “pré-vidente”; ambos, filhos do Titã Jápeto e a Oceânida Clímene , segundo Hesíodo (Brandão,1991).

Num dos Diálogos de Platão (427 – 347 a.C.), intitulado Protágoras, que marca o fim de sua primeira fase de atividade criadora, caracterizada por um Platão que se bate em causa própria, na defesa de suas ideias até as últimas consequências, segundo Nunes(2002) : Sócrates discute com o famoso sofista Protágoras sobre a arte política que se destina a formar bons cidadãos.

Neste Protágoras (o Diálogo), ficamos sabendo que os sofistas itinerantes, de passagem por Atenas, hospedavam-se em casas de pessoas ricas e ali mesmo realizavam suas conferências. E, uma particularidade interessante: os alunos inscritos nesses cursos, com o fito de obterem a sabedoria anunciada, depositavam num banco a quantia combinada previamente com o professor, sendo que este só poderia levantar sua “fortunazinha” acumulada na conta, depois de terminado regularmente o curso (Nunes, 2002). O interessante é que as conferências eram cobradas e os direitos e deveres de ambos os lados garantidos; pois não aconteceria de alunos assistirem às palestras sem pagá-las e na íntegra, como também de palestrantes ficarem com o dinheiro sem darem seus conhecimentos.

Diálogo Protágoras, então, conta-nos sobre o confronto entre Sócrates e o sofista Protágoras, na tentativa de esclarecer a Hipócrates (não o descendente de Asclépio e sim de Apolodoro), o tipo de sabedoria de que o sofista é pleno, isto é, em que arte ele é perito.

Hipócrates saíra à noite à procura de seu escravo fugido Sátiro, quando fica sabendo que Protágoras estava na cidade. Esquecendo-se do escravo decide procurar Sócrates, para que este se entendesse com o sofista a seu respeito, já que ele era muito jovem e não o conhecia, mas julgava-se ofendido por Protágoras ser sábio só para si e não comunicar-lhe o que sabia.

Sócrates, por sua vez, para pôr à prova a resolução de Hipócrates, passa a interrogá-lo. Hipócrates daria seu dinheiro pelos serviços que o homem que procurava lhe prestaria e Sócrates questiona-lhe o que pretenderia ser com os ensinamentos de Protágoras, já que não o conhecia e ignorava o que vinha a ser um sofista. Também o alerta do risco de expor sua alma a alguém desconhecido, que bem poderia ser um mercador de alimentos para a alma, podendo lográ-lo com gêneros nocivos; sendo para Sócrates o conhecimento, o alimento da alma. Esse por sua vez, diferente do alimento para o corpo, não poderia ser colocado num recipiente, transportado para outro lugar para ser examinado por outros antes de se decidir se o comeria ou não; pois nessas condições Hipócrates poderia ser envenenado na alma ali mesmo. Então, para deliberarem sobre o assunto de tamanha relevância, optam por ouvirem Protágoras e depois conversarem sobre o discurso com outras pessoas, antes de Hipócrates se inscrever para o curso.

Ao chegarem à casa de Cálias, onde se hospedava Protágoras, conseguem com que o mesmo interrompa sua conversa com demais jovens e, ao juntar Pródico e Hípias, outros sábios que também ministravam seus cursos ali, Sócrates inicia sua fala, intimidando Protágoras a revelar quais seriam as vantagens que adviriam a Hipócrates, seu jovem amigo, ao estar na companhia do sofista para tomar aulas com ele.

Protágoras responde que desde o primeiro dia de conversação com ele, Hipócrates retornaria para casa muito melhor do que era, acentuando a cada dia o seu progresso.

Sócrates entende após demais explicações de Protágoras que seu ensinamento referia-se à arte da política, prometendo formar bons cidadãos, o que Sócrates acreditava não poder ser possível.

Então, Protágoras traz o mito de Epimeteu e Prometeu como resposta.

Chegado o momento determinado pelo Destino, os deuses plasmaram nas entranhas da terra, utilizando-se de uma mistura de ferro e fogo, as criaturas mortais. E no tempo certo de tirá-las para a luz, incumbiram Prometeu e Epimeteu de provê-las do necessário e conferir-lhes as qualidades adequadas a cada uma. Epimeteu pede ao irmão que deixasse a seu cargo tal distribuição e depois disso concluído, Prometeu faria a revisão final.

Aplicando sempre o critério da compensação, Epimeteu atribuiu força sem velocidade, dotando de velocidade os mais fracos; a outros deu armas; para os que deixara com natureza desarmada, imaginou diferentes meios de preservação: deu asas aos pequenos de corpo, ou proveu de algum refúgio subterrâneo; enquanto os corpulentos salvar-se-iam nas próprias dimensões. Estas precauções foram tomadas para evitar que alguma espécie viesse a desaparecer, cuidando primeiro para que assim não se destruíssem reciprocamente. Para protegê-los contra as estações de Zeus, deu a alguns pêlos abundantes e pele grossa, para defendê-los do frio ou adequá-los para tornar suportável o calor. Dotou alguns de cascos nos pés; outros, de garras, e outros ainda, de peles calosas e desprovidas de sangue.

Em seguida determinou para todos, alimentos variados, de acordo com a constituição de cada um; e limitou a capacidade de reprodução para assegurar a conservação das espécies. Porém, como Epimeteu carecia de reflexão, sem o perceber, esgotou todas as qualidades que dispunha, tendo ficado sem ser beneficiada a geração dos homens.

Quando Prometeu foi inspecionar a divisão verificou que os homens encontravam-se nus, desprovidos de calçados ou coberturas e sem armas. Para assegurar ao homem a salvação, Prometeu roubou de Atena e Hefesto a sabedoria das artes juntamente com o fogo e os deu aos homens, sendo posteriormente castigado por esse furto.

Assim, o homem acaba dotado do conhecimento necessário para a vida, mas fica sem possuir a sabedoria política, que pertencia a Zeus. Uma vez de posse desse quinhão divino, em virtude de sua afinidade com os deuses, o homem foi o único animal a crer na existência deles, passando a erguer altares e fabricar imagens dos deuses.

Logo começaram a coordenar os sons e as palavras, construíram casas, vestes e calçados; e procuraram na terra os alimentos. Providos desse modo viviam dispersos; não havia cidades e eram dizimados pelos animais selvagens.

Para poderem sobreviver, experimentaram reunirem-se fundando as cidades, mas como careciam da arte política, causavam-se danos recíprocos, voltando a se dispersar e sendo destruídos como antes.

Preocupado com o futuro da geração humana, Zeus determinou que Hermes levasse aos homens pudor e justiça, e que fossem distribuídos igualmente a todos, para que as cidades pudessem subsistir. E mais: que todo homem incapaz de pudor e justiça sofresse a pena capital (morte ou exílio) por ser considerado um flagelo da sociedade (Nunes, 2002).

Embora todos os homens pudessem acreditar que faziam parte de tal virtude, não a consideravam como um dom natural, podendo ser adquirida com o estudo e aplicação. E esse seria, então, o objetivo de Protágoras: ensinar aos homens a arte da política; a sabedoria, a justiça, a temperança, a santidade e a coragem, que numa só palavra, o sofista designava como Virtude. Pois, em todo seu decurso a vida humana necessitava de cadência e harmonia e todo aquele que se afastasse das leis que garantiriam tal Virtude, deveriam ser castigados, isto é, corrigidos (Nunes, 2002).

Embora Sócrates acabasse se convencendo de que o esforço humano pudesse deixar os homens bons, incomodou-se quanto à fala de Protágoras a respeito da Virtude, como sendo única, igual, ou composta pela sabedoria, justiça, temperança, santidade e coragem.

E para o esclarecimento do que seria a Virtude e como se compunha, Sócrates e Protágoras discutem amplamente a partir da questão a respeito da natureza da condição denominada pelos homens: “Ser vencidos pelos prazereso que os levava a não fazerem o melhor, apesar de o conhecerem” (Nunes, 2002, p. 109).

O homem dotado de conhecimento, não é governado por ele, mas por qualquer outra coisa, ora pela cólera, ora pelos prazeres, ora pela dor, algumas vezes pelo amor, e muito frequentemente pelo medo, e considera o conhecimento mais ou menos como um escravo que se deixa arrastar por tudo. (Nunes, 2002, p. 108)

Interessante notar que o Diálogo se inicia com a fuga do escravo Sátiro, (cujo nome nos remete à figura lendária, integrante do cortejo dionisíaco, incumbido de dar prazer às mulheres bacantes). Com o propósito de recuperar Sátiro, Hipócrates sai e fica sabendo da presença de Protágoras na cidade, indo atrás dele, quem lhe daria o conhecimento, este “escravo que se deixa arrastar por tudo”.

Sócrates e Protágoras acabam por concordar, entre outros aspectos, que:

1- A arte da medida neutralizaria a ilusão causada pela força da aparência (por exemplo, aquilo que está perto parece maior do que o que está mais longe), resolvendo a verdadeira relação das coisas, assegurando à alma a tranquilidade fundada sobre a verdade. Enquanto a força da aparência nos iludiria, levando-nos muitas vezes a inverter as relações das coisas, modificando nossos propósitos.

2- Ser inferior a si mesmo é ignorância.

3- Ninguém vai ao encontro do que considera perigoso.

4- Corajosos ou covardes se atiram contra as coisas que inspiram confiança, embora o que enfrentem sejam coisas opostas.

5- Os covardes carecem de conhecimento do que deve ser temido. Enquanto a coragem é o conhecimento do que é perigoso e do que não o é.

E terminam por concluir que não sabiam o que era a Virtude e, se ela poderia ou não ser ensinada, achando terem recebido de Epimeteu um “passa-moleque”, ao esquecerem-se durante suas investigações de algo, como o titã já os tinha esquecido na distribuição dos atributos. E se propõem a conversarem sobre o assunto em outra data.

Considerações míticas

Primeiramente, gostaria de refletir sobre o “para quê”, dos deuses terem escolhido Prometeu e Epimeteu para distribuírem as qualidades às criaturas mortais? E, sendo Prometeu aquele prudente e pré-vidente, para que concordou com que Epimeteu se ocupasse desta tarefa?

Como titãs, por definição, Prometeu e Epimeteu são criaturas primordiais caracterizadas pelo descomedimento. Não só neste mitema, como em outros, Prometeu, apesar de saber antes, parece não poder evitar os desígnios já traçados pelo Destino, inclusive os acontecimentos com relação a sua própria vida (ser aprisionado no Cáucaso, tendo uma águia comendo seu fígado, por exemplo).

Seria exatamente esse o propósito divino: o descomedimento na distribuição das diversas qualidades tornando essas criaturas mortais diferentes dos deuses? Por que Zeus não escolheu Apolo, o deus do métron, para tal tarefa? Talvez, pudéssemos pensar, então, que a desmedida, a injustiça, a sem-vergonhice, a destemperança, a ignorância e a covardia sejam atributos naturais dos humanos!

Mas, os deuses seriam justos ao propor essa criação? Ou a injustiça, a destemperança e o despudor, etc, também seriam características divinas?

Exemplos não faltam, tanto dos mais divulgados: de respeito, amorosidade, e justiça; quanto de destemperança, despudor, injustiça e narcisismo em muitas situações. Zeus trai Hera com qualquer figura feminina que o atraia, sem nenhum pudor! Hera planeja o despedaçamento de Dioniso Zagreu! Apolo manda escorchar o sátiro Mársias que o vence num desafio musical! Atena transforma em aranha a mortal Aracne que a vence num campeonato de bordado! Zeus determina a ocorrência da guerra de Troia por achar o mundo muito repleto de mortais!Que medidas são essas?!

Epistrophé: os mitos gregos sob a perspectiva do Renascimento – O neoplatonismo

Em meados do séc.XV a Europa, devastada por uma peste e por guerras, havia ficado para trás em relação a outras partes do mundo, tanto política como culturalmente. A educação e a literatura vinham sendo dominadas por séculos pelas necessidades e interesses da Igreja Cristã. E seguindo a influência do Renascimento, isso começou a mudar. Os escritores da Antiguidade Clássica voltaram a ser lidos com grande interesse e iniciou-se o movimento humanista, onde a ênfase passou a ser atribuída ao ser humano (a sua alma) e não mais a Deus, como centro de visão do mundo.

A Renascença na Europa refere-se a um amplo movimento que teve origem na Itália (Florença), nessa mesma época, e se inspirou em um novo interesse pelo mundo clássico, um período de retomada da Antiguidade Clássica, resultando em surpreendentes realizações nas artes, na arquitetura, na literatura e na filosofia.

Nas artes, o mito grego passa a ser pintado em telas magníficas por Botticelli, Rafael, Da Vinci, Michelangelo, Ticiano, entre outros; mas, interessante, que as telas apresentavam os mitos permeados por uma leitura feita através dos pressupostos de cada pintor, isto é, seus complexos psíquicos e suas realidades materiais: os corpos, as roupas e os cenários são típicos da época do artista.

O Humanismo da Renascença apresentava como maior preocupação o estudo e a imitação das literaturas grega e latina clássicas. Passa a haver um cuidado com os conteúdos da imaginação intelectual e o cuidado da alma renascentista olhava para os arquétipos da imaginação oculto nos textos antigos (Hillman, 2010).

Quando as coisas começaram a ser vistas psicologicamente do ponto de vista da alma, ocorreu uma revolução da experiência. Essa revolução ocorreu em grande escala na Renascença e ganhou corpo na filosofia neoplatônica: era a psique em todo o lugar.

O neoplatonismo buscava enxergar o significado literal daquilo que estava oculto, procurando profundidade no enterrado (textos, palavras, restos da Antiguidade). Frequentemente se referia a figuras míticas greco-romanas não como alegorias, mas como modos de reflexão. Também evocavam pensadores antigos em suas imagens personificadas; era habitual assumir discursos imaginativos com pessoas da Antiguidade, como, por exemplo: Petrarca escreveu longas cartas para Cícero, Sêneca, Virgílio, e mandou lembranças para Homero e Hesíodo (Hillman, 2010, p. 376).

Há uma semelhança aterradora entre os temas principais do neoplatonismo e a psicologia arquetípica, e o mais importante: o estilo de fantasia dos dois é similar. E as coincidências residem principalmente no ponto de partida comum: a alma (Hillman, 2010, p.374).

À medida que nos aproximamos da Renascença como um período da história lá e em seu tempo e como história sobre a psique aqui e agora, nós a abraçamos da mesma forma que os homens da Renascença abraçaram a história antiga. Este mito da Antiguidade Clássica, na qual o mundo imaginal dos arquétipos foi colocado, permitiu que uma vida “presente” fosse construída sobre modelos arquetípicos situados no “passado” (Hillman, 2010, p.377). A história deu à imaginação renascentista um lugar onde colocar estruturas arquetípicas – deu-lhe uma estrutura dentro da qual fantasiar (Hillman, 2010, p.378).

O maior dos neoplatônicos foi Plotino (205 – 270 d.C.), que recusava-se a revelar o dia e mês de seu nascimento, contentando-se a comemorar apenas o aniversário de Platão! (Huisman, 2004). Uma de suas maiores preocupações era sobre a natureza da alma, da realidade psíquica.

Em linhas gerais, as estruturas básicas do pensamento de Plotino apresentam muitas analogias com pontos fundamentais da psicologia arquetípica. Hillman, em seu texto Estudos de Psicologia Arquetípica (1981), traz colocações de Plotino, tais como: o homem poderia simultaneamente ter consciência em um nível da alma e inconsciência em outro, podendo assim, agir inconscientemente; a psique teria lembranças das quais seria inconsciente; e postulava a existência da psique universal, que poderia ser comparada ao conceito de inconsciente coletivo de Jung. Plotino também considerava a consciência “móvel e múltipla”, pois o homem era “múltiplo”, o que poderia ser equiparado à ideia de dissociabilidade da psique em complexos de Jung. E ainda, a alma não seria o ego, e não existiria um fulcro fixo de autoconsciência como centro de nosso mundo e de nossas atividades (Hillman, 1981).

Plotino também postulava que a imaginação teria um papel central na alma. Havia imagens psíquicas de fantasia (arquétipos ou imagens primordiais de Jung) formando a base da consciência. A atividade essencial da psique que caracterizaria sua verdadeira natureza seria a contínua criação de imagens da fantasia (os arquétipos). Ainda, referia-se a psique como anima mundi, a psique coletiva que transcende seu portador individual. Os mitos revelariam a psicologia da alma do mundo e, por conseguinte, também a alma individual (Hillman, 1981). A alma seria tanto sujeito quanto objeto de seu interesse e estaria sempre se autoestruturando; o psicologizar seria uma operação perpétua (Hillman, 1981).

Já Ficino (1433-1499), outro neoplatônico, mas renascentista, “o médico de alma” da corte dos Médici, considerou esse raciocínio perpétuo como a verdadeira atividade da psique. Essa refletiria incessantemente sobre sua própria natureza, porque sua natureza essencial seria a reflexão. Também colocou a alma no centro e assim procedendo, transformou sua filosofia em psicológica. Ficino achava que a verdadeira educação ocorreria através da “introspecção da experiência interior que nos revelaria a existência independente do funcionamento psíquico, abstraído ou separado do corpo” (Ficino, inHillman, 1981, p. 178). Ele ensinava que a realidade psíquica deveria ser colocada em primeiro lugar e que todos os eventos deveriam ser considerados em termos de seu significado e valor para a alma (Hillman, 1981).

Hillman e a pós-modernidade

 

Os deuses estão aqui presentes por concordar com Hillman (2010) de que “o movimento do psicologizar arquetípico dá-se sempre em direção aos mitos e deuses” (p.320). Esta perspectiva politeísta se origina de atitudes gregas e renascentistas. Na policentricidade nativa da alma – os múltiplos poderes arquetípicos – a psicologia precisa sempre manter em mente a governança dos deuses.O pensamento politeísta mexe com todas as nossas categorias e divisões habituais; as distinções politeístas se dão entre os deuses como modos de existência psicológica operando em tudo. Não há lugar sem deuses e nenhuma atividade que não os reflita. Cada fantasia, cada existência tem sua razão arquetípica. Não há nada que não pertença a um ou outro deus (Hillman, 2010, p.322). Não há nada que não seja arquetípico.

Tanto os atenienses quanto os florentinos renascentistas tinham as palavras anima, psyché, mitos e imagens, e tinham os deuses, mas os gregos não tinham uma palavra para religião, ou a Renascença para psicologia (Hillman, 2010).

Na psicologia arquetípica os deuses são imaginados e encarados como metáforas de experiência. A alma não pode existir exceto dentro de um de seus padrões (os deuses), essas perspectivas cósmicas das quais participa. “Toda a realidade psíquica é governada por uma ou outra fantasia arquetípica, sancionada por um deus. Não posso ser, senão neles” (Hilman, 2010, p.323).

Para Hillman, a alma é distinta do humano, a alma é imortal (como nas tradições platônicas e neoplatônicas), tendo uma existência para além da vida e do ser humano. Tal distinção têm várias importantes consequências, sendo dentre elas a situação de que nossa individualidade como humanos essencialmente diferentes “não é, na verdade, humana de modo algum, e sim poderia ser considerada como um presente de um daimon inumano que exige serviço humano” (Hillman, 2010, p. 333). Nossos destinos não importam aos deuses, mas sim como cuidamos das pessoas psíquicas confiadas às nossas intendências durante nossas vidas.

Se nossas almas não são nossas, assim também aconteceria com nossas aflições psicológicas ou com nossas emoções, pois elas vão e vêm independentemente de nossa vontade ou desejo inconsciente; pois fatores arquetípicos nos afetam pelo núcleo emocional do complexo; no centro do complexo reside um deus, ou dito de outro modo, um arquétipo.

A emoção anuncia um movimento da alma, uma afirmação do processo que ocorre num mito que podemos perceber nas imagens de fantasia que acompanham a emoção. Nossas experiências são organizadas por imagens míticas, porque é por meio da imaginação que o reino imaginal dos arquétipos brinca com a psique (Hillman, 2010, p.336).

E ainda, como nos conta James Hillman em seu texto Ficções que curam (2010 a): “Filemon ensinou a Jung: você não é o autor da peça psíquica” (p.95).

Se a natureza humana compõe-se de múltiplas pessoas psíquicas que refletem pessoas dos mitos, ela não é uma e sim muitas, um fluxo de vicissitudes. “Um centro gravador fixo em seu meio é a ilusão arquetípica de identidade. Se as experiências podem ser enxergadas através como fantasias arquetípicas, o sujeito delas não tem sua identidade mais fixada do que elas” (Hillman, 2010, p. 338).

Ainda segundo Hillman (2010), nossa dificuldade em compreender a visão grega do homem consiste em começarmos sempre a partir de um ego, enquanto os gregos partem dos deuses; para estes, o humano não depende das relações pessoais e sim das relações com poderes arquetípicos em seus aspectos não humanos. Sendo, talvez, a individuação, apenas, o humanizar dos padrões arquetípicos, e as diferenças neste processo, o que nos daria identidade.

Considerações finais

Bem, e agora? O que tem o humano pós-moderno a ver com tudo isso?

Se considerarmos a façanha de desmedida de Epimeteu, embora continuemos sem saber o que é a virtude e se ela pode ou não ser ensinada, temos que concordar que a arte da política para a formação de bons e virtuosos cidadãos, juntamente com a justiça e o pudor são possíveis dons divinos e, portanto não constituintes da natureza do humano primordial.Ou por outro lado, como já citado acima, seus contrários: injustiça, despudor também fazem parte da natureza divina (arquetípica) e, consequentemente, também humana. Pois como já dito acima: “tudo é arquetípico!”

Talvez essa seja uma perspectiva para olharmos os fatos que atualmente nos rodeiam: as desigualdades, as deslealdades competitivas, a destruição da natureza, as explorações destrutivas, o narcisismo patológico, o individualismo, as relações líquidas de Zygmunt Bauman, o descompromisso com qualquer valor ético, o materialismo exagerado, a corrupção generalizada, a violência, enfim a miséria material e espiritual. Também poderíamos ver a carência da arte da medida, sendo vencida pela força da aparência e em especial, a condição de “sermos vencidos pelos prazeres”, e prazeres efêmeros, imediatos, como bases norteadoras de nossos rumos na pós-modernidade. Talvez Epimeteu continue por aí dando seus “passa-moleques” em todos nós!!

E por fim, gostaria de terminar propondo um movimento de protesto, talvez não tão de vanguarda (o que seria mais “chique”!): Abaixo a psicologia do ego, e ego como centro da consciência!!

Se pudéssemos fazer um pequeno exercício de reflexão e com um pouco de sinceridade, em todos os momentos, “nós nos transformamos precisamente na atividade que desempenhamos, na memória que retemos” (Hillman, 1981, p.174). Como que “possuídos” por um campo de comportamento que carrega em si todos os seus pressupostos arquetípicos, só podemos perceber, analisar, entender e agir de acordo com esse padrão; não temos o controle ou a escolha do padrão, no momento em que a vivência nos é imposta pela vida ou Destino.

Penso sermos um portal, como um arco-íris, ou uma escala musical, a cada momento vibrando num tom, que sincronisticamente realizamos de corpo e alma; o evento externo é elaborado por um padrão arquetípico interno na sincronicidade vivencial (como entendo o arquétipo psicóide definido por Jung); pois, o evento percebido externamente é o chamado para uma atualização do padrão arquetípico de comportamento (podendo ser denominado de regência psíquica, ou do deus e seus correlatos – heróis, heroínas pertinentes aos seus mitemas) e, então ocorre a humanização do padrão divino, arquetípico.

A formação desse mosaico de padrões arquetípicos vai nos dando identidade, e talvez, sendo registrada no complexo do ego (como um arquivo memorial, ou como diz Hillman (2010 a): “o ego histórico– p. 97). Poderíamos pensar o ego como “um cavalo de santo”, isto é, o corpo que recebe uma entidade, como no espiritismo e umbanda; o nosso corpo como veículo desse potencial arquetípico que nos “possui” e a nós, resta a possibilidade de humanizar, atualizar o padrão de comportamento divino. Mas, pensar o ego como centro coordenador da consciência, soa-me como o momento histórico em que os humanos pensavam ser a Terra o centro do Universo, com o Sol girando em seu entorno!

Há pessoas que atualizam, humanizam padrões de modo mais conservador, isto é, sempre dentro do campo arquetípico de um deus, ou poucos deles, parecendo serem mais constantes em suas atitudes; já outros, num ritmo mais frenético, trocam de padrões de modo mais caótico, parecendo aos demais, ser uma pessoa dita “desorganizada”, ou psicótica, como quer a psiquiatria acadêmica positivista, racionalista, centrada na ideia do ego como centro da consciência.

Cada padrão corresponde a um complexo, assim como o ego também o é; mas, nessa perspectiva arquetípica (politeísta), todos os padrões estão a postos para responder às solicitações externas, e não acredito na possibilidade de um único complexo (no caso, o dito ego), coordenando nossas vivências, pensamentos, sentimentos e ações, para que não sejamos considerados “loucos” – também uma desmedida este “governo monárquico”, não?!.

Talvez a coordenação poderia se dar apenas pelo complexo energizado do momento, isto é, o do padrão arquetípico que nos “possui” para a interação vivencial, sem que isso seja denominado como a atuação de um complexo autônomo, ou então, estaríamos sempre a funcionar desse modo! E cada vivência teria seu padrão coordenador.

Se uma pessoa está atualizando, humanizando um padrão arquetípico dionisíaco (de um Dioniso primordial, em seu mitema relativo ao despedaçamento ou aos bacanais) parecendo um “louco” – para a psiquiatria dita científica – com o ego “desfeito, desestruturado, ausente”, o que significa isso?

Se a pessoa atualiza um padrão apolíneo, com sua retidão de caráter e a justa medida, é considerada como “normal” e tendo um ego centrado. Qual a diferença em termos de ego, desse processo, que considero apenas como a atualização, humanização de padrões arquetípicos diferentes? Se um é melhor ou pior, mais adaptado a nossa cultura ocidental patriarcal, capitalista, ou menos adaptado, já é outra questão, que não me parece suficientemente explicada pelo centramento egóico!

Quando falamos de um a pessoa “portadora de uma neurose obsessiva”, de ego rígido, poderíamos entender como o funcionamento de um padrão regido por Apolo de modo não criativo, ou defensivo. Em cada funcionamento psíquico, podemos encontrar um “modus operandi” de um deus, por características que os relatos míticos nos informam (Alvarenga in Alvarenga e cols, 2010, p. 23). E, então, parece-me que esta questão de definir a “normalidade” do funcionamento psíquico, de acordo com o ego centrado, não faz muito sentido, da perspectiva arquetípica politeísta; pois nela, todos os padrões são legítimos e estão aí para serem humanizados; com a maior facilidade ou adaptabilidade ao coletivo, dependendo dos valores de cada cultura e momento histórico.

Assim sendo, as Moiras (deusas do Destino), estando acima do poder de Zeus, teceriam nossas vidas, dando-nos identidade, pela ordenação dos padrões que vamos humanizar, atualizar, em função do Destino escolhido antes de encarnarmos – como nos conta Platão em sua República, no mito de Er; mas essa já é uma outra história!

Referências Bibliográficas

Alvarenga, MZ e cols. (2010) Mitologia Simbólica: estruturas da psique e regências míticas. SP: Casa do Psicólogo.

Brandão, J. S. (1991) Mitologia Grega, vol.1. Petrópolis: Vozes.

Hillman, J. (1981). Estudos de Psicologia Arquetípica.RJ: Achiamé.

(2010). Re-vendo a Psicologia. RJ: Editora Vozes.

(2010 a). Ficções que curam. Campinas, SP: Verus.

Huisman, D. (2004). Dicionário dos Filósofos. SP: Martins Fontes.

Platão (2002). Diálogos: Protágoras, Górgias, Fedão. Tradução: Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA.

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2 pensamentos sobre “A Desmedida de Epimeteu e o Humano Pós-moderno – Ana Célia Rodrigues de Souza

  1. Gostei muito do texto Célia, mesmo! Vamos às ruas gritar abaixo ao Ego-Centrismo, viva o Politeísmo! Apesar de termos saído da idade média e entrado em um período científico e de luzes caímos novamente no Monoteísmo Psicológico, que para mim é o grande entrave para a criatividade psicológica.
    Mas bem cada período histórico tem as suas dificuldades, o que me causa um certo receio é será que esse ego inflado precisa estourar para nos darmos conta que não somos os mestres do universo? Eu espero que tomemos atitudes como humanidade anterior a qualquer cataclismo que essa inflação pode causar, caso isso não ocorra talvez isso seja necessário para que possamos crescer como seres humanos.

  2. Nossa, adorei o texto Célia…. mesmo. Foi de encontro ao meu sentimento de enfado a psicologia do ego, ao reducionismo de seres tão singulares à carapuças interacionais. Obrigada por partilhar.

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