Salve! O teatro, o rito, a Alma. Elisabete Christofoletti

Salve! O teatro, o rito, a Alma

Eu não sei o que é uma pessoa,

só quanto custa…!

Acordes, 2012 – Teatro Oficina

1

Acredito nas coisas que me transformam de alguma maneira.

Quando ouço uma música, um filme, ou vou a um espetáculo e ao final sigo tocando a vida, encerrando com o passar da porta de saída minha experiência, a sensação de vazio e solidão é intolerável. Entretenimento só ocupa o tempo da mercadoria, gera status (ainda mais se for importado, como algumas produções que o pais tem recebido) e só isso.

Recentemente, acompanhamos um movimento que emerge e ocupa as ruas,  provocado pelo reajuste na tarifa de ônibus, mas sabemos que a questão de fundo é a impossibilidade de movimentação, de acesso a lazer, educação (para e com a Alma), cultura, à vida. São muitas as catracas no cotidiano, e é justamente sob a catraca da burocracia, da sombra de um sistema pobre e medíocre, que me mobilizo neste momento.

São tantas as situações duras, quase de guerrilha urbana que tantas pessoas, grupos, vivem para que não percamos um princípio básico que é saber o que é uma pessoa. O que sente, uma pessoa. O que necessita para Viver, uma pessoa.

Somente lembrando de alguns movimentos, temos em Porto Velho-RO o Amazônia em Cena, teatro de rua que reúne durante o festival diariamente, de duas e mil três pessoas; o trabalho com os apenados tambem Porto Velho, que este ano apresenta o espetáculo O Topo do Mundo, criando a possibilidade de elaboração das prisões internas, num espetáculo bem cuidado, bonito que Só.

Em São Paulo, a Balada Literária, que sem grana, tem gana, como diz Marcelino Freire, acolhendo todos que desejarem, sem institucionalizar nada, sem cobrar nada em troca. Os Saraus da Coperifa, com a criatividade de Sérgio Vaz, evocando amor para enfrentar as balas perdidas, mobilizando semanalmente muita gente em torno da poesia e da possibilidade de escrever, narrar novas histórias.

Neste momento acompanhamos uma destas batalhas, a do Teatro Oficina Uzina Uzuna. Uma associação com 53 anos de trabalho, muita, mas muita história para contar, referência de trabalho teatral, que com transparência mostra o que faz, integra, inclui a todos que se aproximarem e desejarem.

Este não é um dito de defesa do Oficina, que tem neste momento um risco concreto de ser agredido, violentado pelo não cumprimento da lei do próprio tombamento, aliás, diga-se de passagem não necessita ser defendido de nada, mas é um GRITO, pela possibilidade de termos espaços onde quem produz, quem gera cultura de qualidade, evocando atitudes amorosas, de alteridade possam ter condições de seguir no caminho.

Estamos acompanhando o desenrolar de uma tragédia.

No grego antigo, tragédia é τραγῳδία, τράγος = bode e ᾠδή = canto, portanto, o canto do bode. Na Grécia, as tragédias eram apresentadas nos rituais em homenagem ao deus Dionísio, durante a primavera, referendando o florescimento.

Para Aristóteles, a tragédia é um drama que evoca, através da compaixão e do temor, a exposição dos sentimentos.

Nietzsche, em o Nascimento da Tragédia, nos convida à imersão nas profundezas da existência da tragédia, no reconhecimento dos opostos em nossa interioridade e na possibilidade de transformação, renascimento, no contato com a dor individual e coletiva.

Caso não seja, a tragédia incorporada ou como solicita uma relação antropófaga, caso contrário, como entende Aristóteles, que a tragédia sempre leva à destruição ou à loucura de um de seus envolvidos (seja o outro fora ou dentro da própria pessoa, individual ou projetado no coletivo), estaremos entregues a des-compensação.

2

Eurípedes em Bacantes, nos deixa uma cena lindíssima: Dionísio chega a Tebas e vive o confronto com Penteu. Como um deus necessário, Dionísio se dá aos humanos para que eles possam estabelecer um caminho de autoconhecimento. Como deus da arte, é o deus-espelho que reflete de volta para as pessoas o que elas são e o que não são, para que com autonomia, possam se transformar, ou não suportando o divino em si, enfrentem a loucura, espaço de desintegração da vivência dos contrários.

O encontro e confronto de Dionísio com Penteu acena para a convivência com as diferenças, a união dos contrários em nós mesmos e na relação com o outro, evidenciando nossa humanidade.

Penteu, rei de Tebas, é um personagem heroico, dedicado à função de manter a lei e a ordem em Tebas, é o símbolo do homem ímpio, provido de orgulho, punitivo. Sua rigidez o impede de reconhecer seus próprios desejos e necessidades. Usa da autoridade para se proteger, mantendo-se sem saber o que é, e não sendo reconhecido pela própria mãe. Ao se confrontar com Dionísio, não suporta o poder de seu êxtase, de seu entusiasmo pela vida, pela qual se dá, e termina vítima da loucura sagrada desse deus.

O que teria sido de Penteu se tivesse feito a entrega?

Penteu personifica aqui nossos “bodes”? Os “bodes” de nosso tempo?

Bem, penso que aqui, nos deparamos com os “bodes”, mas afinal o que são se não os complexos? Complexos individuais e coletivos?

Em outras palavras, são feridas, que carregamos que purgam.

Quando não temos consciência dessas feridas, atuamos, agimos tomados por elas, não enxergamos o outro, não consideramos mais nada. Podemos projetar o que nos incomoda e como não curamos estes complexos, eliminamos quem ou o que os ameaça, tendo assim, a sensação de que tudo está resolvido e voltamos à vidinha de sempre. Sem ameaças, sem criatividade, sem liberdade.

4

Há alguns meses em Porto Velho-RO,  uma companhia de teatro em um espetáculo de rua, ocupando o teatro de arena-teatro-de-estádio, reunia mais de duas mil pessoas. Foi inquirido por um burocrata, representando do direito do estado,  em meio ao espetáculo solicitando documentação para uso de um espaço que promove as pessoas. O que pensar? Qual o incômodo provocado no representando do poder do estado para tentar calar quem produz vida?

5

Acompanhamos há anos (só 53!) as estratégias utilizadas pelo Teatro Oficina para continuar em seu processo de individuação como companhia, associação, como um grande e fértil laboratório, chamando para si, o que bem conhecido lhe cabe, os “bodes”.

Não importa aqui, se gostamos, concordamos com todas as ideias, posições,  com a escolha dos espetáculos, mas Terra precisa ser entregue e quem nela trabalha, mas não um trabalho deste tempo, mas como Kurtz disse tantas vezes,  um trabalho no ócio, que faz Alma, um ingrediente fundamental, que não alimenta a depressão, a solidão,  o vazio de uma existência sem razão.

Quando temos um estado que não Suporta a liberdade criativa, a geração de sonhos, possibilidades dessas e de novas gerações terem suas Almas repletas e assim menos agressão, menos violência…

6

Será que as feridas, os complexos desse estado, precisa de agressão, violência, precisa violentar a Alma para existir?

Lembro-me com muita força do poema de Vladimir Maiakowski, ganhando assim energia para partilhar o que penso.

 

Na primeira noite

eles se aproximam

e colhem uma flor do nosso jardim

e nós não dizemos nada

 

Na segunda noite

eles já não se escondem

pisam as flores, matam nosso cão

e não dizemos nada

 

Até que um dia

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a lua e,

conhecendo nosso medo,

Arranca-nos a voz da garganta

E, porque não dissemos nada,

Já não podemos dizer nada.

7

No ano de 2013.

Elisabete Christofoletti

elisabete.christofoletti@gmail.com

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Um pensamento sobre “Salve! O teatro, o rito, a Alma. Elisabete Christofoletti

  1. Nesse meu pequeno ensaio de vida
    Já não sei dizer o que me roubaram
    E o que consigo dar não está no texto
    Mas a alma insiste em permanecer no palco
    E ela já cansada grita
    L I B E R D A D E!! V I D A!! A M O R!!

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