Como Vive um Palhaço – Hugo Possolo

da net: http://www.brasilpost.com.br/hugo-possolo/como-vive-um-palhaco_b_4765742.html?utm_hp_ref=brazil em 11.02.2014

Como vive um palhaço

Publicado: 11/02/2014 11:06
 Clown Sad

De dentro do despertador salta uma mãozinha segurando um martelo que atinge minha cabeça pontualmente às tantas pras tantas. Ainda com o assovio dos passarinhos rodeando minha cabeça, vejo que a manhã ainda não me aceita. Não é novidade. Todo dia é assim, com chuva, calor ou omeletes no céu, percebo que não faço parte disso tudo.

Aproveito e me concentro. Seguro um pouco a pressão e depois, com sonoridade de curva ascendente, liberto um pum estrondoso. Assim anuncio ao mundo que mais uma vez vou enfrentá-lo com a devida graça.

Pulo da cama em cambalhotas. Escovo os dentes com a escova-de-escovar-as-costas, nado no chuveiro, espalho espuma e bolhas de sabão pelo banheiro inteiro. Nesses segundos tenho a impressão que vida vale a pena.

Depois, retoco a maquiagem… Sim, tinha dormido com ela. Raramente nós, palhaços, retiramos da cara essa expressão alegre e castigada. Às vezes, muito raramente, para agradar o imaginário dos angustiados, que acreditam que atrás da máscara estamos sempre chorando, tiramos a maquiagem toda e mostramos nossa face mentirosa para que acreditem que é a verdadeira.

Na beira da cama os sapatos largos esperam por mim. E entram fácil, sabendo que me ajudarão a tropeçar muitas vezes. Quando visto a gola gigante com aquela gravatinha borboleta minúscula tenho a certeza de que não serei sufocado.

Visto o enorme paletó, em seu xadrez anglicano de elegância peculiar, me abraço à minha bengala torta, que de nada serve a não ser para estar ao meu corpo abraçada. E, então, saio para rua, pronto a convocar os tolos para mais uma jornada de gargalhadas.

Um riso frouxo aqui, um muxoxo acolá e me conformo que não fiz o meu melhor. É que de manhã é muito mais difícil aceitarem o bom humor. O dia está apenas começando e ninguém quer perder a perspectiva de que o dia pode ser sério, muito sério, com milhões de coisas a fazer. Sou apenas um chato querendo tirar tudo da ordem, esse bem maior da humanidade.

Na hora do almoço os pratos em pilhas voam e se espatifam no chão. Em cacos vou imaginando que nada do acontece realmente acontece ali na televisão. Sou eu a violência e eles são o motivo de escárnio, com suas tragédias e seus tiros certeiros. Gosto muito mais dos meus tiros pela culatra, meus tapas na cara e meus tombos no chão.

Em lugares com muita gente me sinto como uma pessoa comum que saiu à rua toda cagada e fingindo que ninguém percebe, mas com a plena certeza de que todos perceberam. Finjo que não sei que não me adequo a nada.

Dou o truque de ser especialista em tudo. Sentado à mesa dos líricos negócios — ou nos fuxicos de corredor — deste circo edificado, envidraçado e organizado em gavetas, vou desfilando como se soubesse onde está cada objeto, cada pessoa, cada sonho. Sinto-me feio, medonho. Faz parte de mim deixar que me vejam assim. Ser torto, desfigurado, não me impede de ter amor próprio. Um amor esquisitinho esse meu, mas próprio. Isso é inegável, tal qual qualquer outro gênero de amor, sempre tão próprios.

Meu desajeito é tão grandiloquente, mas tão grandiloquente, que sempre esbarro no que não deveria, como se tudo no mundo fosse intocável e eu, somente eu, tirasse as coisas do lugar.

Ponha uma cadeira ali e jamais a usarei para sentar. Sobre ela sugiro um salto mortal. Corro, pulo e vou chorando pro hospital. Lá, gritando mais estridente e melhor que a ambulância, minha dor não é melhor que a dor de ninguém.

Volto curado — ou disfarçando que nunca senti nada — para uma importante reunião. Sim, se você quer ser ridículo para valer, tem que participar de muitas reuniões. Nelas se deve falar duas horas coisas desinteressantes e nada úteis para decidir em dez minutos tudo que realmente importa. Fazemos isso, atabalhoadamente, supondo — ou fingindo supor — que a vida é eterna.

E cada vez que me pedem opinião sobre um assunto, estou pronto: “Eu já sabia!” Sei do que se tratava e mostro imensa coerência, sabendo aqui dentro que estou armando uma farsa. Meu fingimento não dura. Não sei encobrir esses erros meus e que só aumentam.

E me delicio quando riem de mim. Isso, sim, me realiza! Ser ridicularizado e motivo da chacota alheia me coloca em êxtase. Até rio junto, quando estou inspirado, para aumentar o saldo de minha satisfação.

Atento distraído, derrubo papéis, digito letras e números errados no computador. É um sufoco escrever usando essas luvas grossas e ainda abraçado à minha bengala, que só voltará ao seu lugar de descanso quando eu chegar tarde da noite lá em casa, aquele trailer meio barraco, favela com rodas que ainda ouso chamar de lar.

Nada cabe para mim. Nada se encaixa. Não vejo utilidade nas máquinas, nos carros, nas portas e suas trancas seguras. Meu nariz vermelho insiste em chegar na frente e vou abrindo passagem dentro do ônibus lotado. E a gente se incomoda com meu jeito de ocupar o espaço, sempre empurrando um e pedindo desculpas a quem sequer nem encostei.

No fim de tarde tomo umas e muitas. E bêbado sei que esse é o único momento em que não tropeço. Volto para casa melhor do que saí. Cumprimento a dona patroa, os filhos e o imenso nada que se avizinha. Em casa ninguém ri de mim. É frustrante ser tratado de maneira tão responsável. Às vezes meus filhos ainda me criticam com reclamaçõezinhas enjoadas, tomando-me por sério. Engulo a seco o feijão que me custou o fato de ter sido o mais idiota que pude.

Deitado na cama, olho sem olhar e em minhas retinas pulsa um mundo azulado e sem sabor. Tenho um certo orgulho que zombem de mim enquanto guardo a certeza de que eu é que estou zombando de tudo e de todos.

E assim encerro mais um dia na noite clarividente, na qual evidentemente me sinto bem. Tenho em mente, especial e especialmente, diferente dos homens que mentem para si, que o mundo é fantasia e eu sou realidade.

#arte#

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