História Oral e Criação – Nilson Santos

HISTÓRIA ORAL E CRIAÇÃO

NILSON SANTOS

DEPTO. DE EDUCAÇÃO – UFRO

nilson@unir.com.br

              “O homem é a grande natureza, a raiz do homem está nele mesmo”

Paracelso

A transcriação como recurso importante da História Oral, se impõe pela necessidade de ultrapassarmos a visão de que a História se manifesta basicamente por aquilo que ela constitui como elementos de estudo para si, ela cria seus próprios objetos de estudo: arquitetura, a economia, jornais, livros, documentários, estruturas sociais, gravações, fotos, depoimentos, objetos, enfim por algo que possa sobreviver aos critérios de validação científica que se consolide como texto, como interpretação e aproximação do real, fugindo do subjetivismo, da experiência particular que por alguma razão não se encaixa no “movimento geral da história”. Neste momento o pesquisador confunde os objetos que cria a partir do seu paradigma com o real. Geralmente e preferencialmente esses elementos devem estar desprovidos, do intuito primeiro de diretamente querer fazer História, pois isto implicaria numa intenção a priori, claramente comprometedora da sua origem e validade, quando isto ocorre, não se pode tomá-lo senão com certa dose de desconfiança, o que demanda certo caráter decodificador do historiador, que passa a ser a voz oficial, ordenadora, que traz consigo a possibilidade de eliminar as contradições, dando uma ordem, ou simplesmente a mantendo.

O recurso à oralidade se manifesta como suposto para inverter uma das premissas básicas do fazer da História Oficial: as experiências vividas por cada ser social não ocorrem por conta de um tempo e espaço natural e extensivo a toda a “humanidade”, mas as experiências surgem pela forma singular com que cada um se relaciona com uma natureza que lhe é socialmente apresentada como externa e comum a todos. Esta inversão de ordem compromete significativamente o caráter universal e objetivo da vida, e de certa forma inviabiliza um plano de formatar todo o vivido num único plano de significação, que é capaz de “revelar” as falsas modalidades da vida e “resgatar” a realidade do que aconteceu ou do que é dito, atribuindo um dado conjunto de objetos o caráter de fonte documental para a elaboração deste discurso que passa a se chamar de História ou inconsciente aflorado.

Desta forma, a oralidade para a História deve ser lapidada, para que as impurezas contidas sejam eliminadas, a oralidade deve ser objetificada, domesticada, instrumentalizada, inscrita numa lógica discursiva para que seja anexada ao seu movimento lógico e possa ter algo de revelador ou útil.

Conservar a expectativa de encontrar na transcriação os elementos reveladores do passado, significa manter a crença numa história que já ocorreu, e que pelo seu tempo de ação – passado – não pode ser manipulada, alterada, re-vivida, re-criada, logo não deve ser humanizada. Dentro desta perspectiva fica ainda mantida a relação sujeito-objeto, onde o sujeito – pesquisador – seleciona os melhores espécimes de narradores – objetos – para dizerem o passado que lhe convenha, e disto decorrem todos os desdobramentos lógicos até mesmo éticos.

Numa perspectiva onde as singularidades sejam respeitadas, percebidas e estejam envolvidos, numa hermenêutica com o outro, de diálogo radical, o recurso à transcriação se impõe pela necessidade de ultrapassar a visão de que a História se manifesta mais seguramente por meio do ritual criado pela ciência, e dirigido pelo exegeta do inconsciente (coletivo no caso do historiador e do sociólogo,  ou individual no caso do psicólogo).

Este verdadeiro jogo de contas de vidro promovido pelos métodos, ordena os objetos que validam e assumem como seus, que passam a ter conceito próprio ou fazer parte de um, passam a ter materialidade e estatuto de real que possam ser catalogados, mensurados, comparados, avaliados, que saem e entram dos museus, laboratórios, arquivos, dos acervos com o “selo de segurança” da cientificidade, da objetividade, como se a historicidade passasse inexoravelmente pela História, onde o que não obedece ao seu itinerário, é tratado como versão ou ficção, ou no máximo boa fonte para a literatura.

No trabalho de transcriação a responsabilidade da narrativa transcrita não é simplesmente de um único personagem, se dá, em certo espaço privilegiado dedicado ao colaborador, que diz os códigos e vivências, que serão trabalhadas pelo seu interlocutor, que ao interagir no processo da entrevista exercita trabalho provocativo. Maiêutica que parteja com o outro em busca do vivido configurado na forma de presentificação criadora, de narrativa no tempo presente que cria um discurso, tomado como passado.

Como na Maiêutica, o interlocutor contribui para que o outro se apresente e traga à narrativa, estruturas que muitas vezes nem mesmo suponha dominar, mas que passam a reconhecer como suas e assumidas na narrativa ou identificadas nos momentos subseqüentes de encontro, quando da re-entrevista, esta palavra tornada presente, e significada pelo narrador permitirá ao seu interlocutor realizar outra significação – palavra significada gera interpretação. Este ato de partejar implica em garantir com o outro a ação geradora de um sentido que é só seu. Aquele que acompanha o nascimento das imagens contidas na narrativa, o que provoca o diálogo, mostra-se no momento inicial como co-adjuvante perdendo-se no outro, para com ele gerar e criar texto e vida, instaurando então, discurso a partir do outro, recriando-o discursivamente e não simplesmente usando-o como mero instrumento de uma pesquisa ou método.

Outro momento distinto no trabalho com História Oral é o de elaboração das versões subseqüentes da transcriação, cuja responsabilidade é do interlocutor, que a partir do que tenha entendido, ordena na forma escrita recriando o encontro registrado em vídeo, em cassete, ou em anotações.

O interlocutor tem a preferência em realizar as etapas de transcrição, além de também executar os vários momentos de ordenamento e textualização pois, carrega consigo a manifestação do outro como experiência viva de diálogo intenso profundo e modificador.

Neste momento, o interlocutor deixa de ser mero provocador do diálogo-entrevista, para impor-se também como criador, plasmando sua dinâmica criativa, dado que textualizar é contar de novo; criando a história da história que foi criada e contada. É neste processo que aparecem os sujeitos iniciais envolvidos: colaborador e interlocutor, e por vezes outros personagens que interagem na entrevista (pessoas e telefonemas que interrompem, opiniões de terceiros que mesmo sem serem solicitados acabam falando, algum fato externo que interrompe ou modifica o assunto abordado, etc.) que até mesmo por sinceridade ética não escondem seus atores, experiências, vivências e interesses. Não se excluem buscando objetividade e neutralidade que não há.

Neste sentido se a narrativa se configura como trágica, cômica, épica ou impessoal, isto não obriga o interlocutor a desconfiar do colaborador ou descartar tal contribuição, porque parte das teias de significação que seu narrador pretendeu ver registrada correspondem a estas ou outras formas narrativas que desafiam o leitor, alertando-o e exigindo dele cuidado com o que resolve registrar no papel, o que nos leva a encarar que toda narrativa em termos representativos tem sua validade intrínseca, na medida que se reporta a este esforço humanizador de viver e dizer o vivido. Isto é possível pois, não são as palavras que detém o sentido do vivido, nem mesmo nelas se encontra a realidade histórica, não são necessariamente as palavras que nos interessam, muito embora algumas sejam escolhidas, mas o que elas evidenciam, e o que as outras formas de comunicação também trazem à tona, como expressões faciais, gestos, lágrimas, postura, e até o ambiente.

A transcriação é, portanto, trabalho de criação de um texto sobre a criação de outro texto, é construção, não é objetivo e imediato, mas se mostra labiríntico e contraditório como cada narrador, complexo e integral como nenhuma mercadoria é capaz de ser.

Ao abrigar a palavra do outro, não se pretende realizar o que comumente se espera num trabalho de oralidade: garantir o valor ético do objeto (como se isto fosse realmente possível!), preservando-o não se sabe bem do que, pois a maior monstruosidade já se deu pelo seu interlocutor que o entende como objeto da sua vontade e do seu trabalho. Pretende-se dar abrigo a fala do outro, justamente pela necessidade imperiosa de romper a idéia de objeto. Esta palavra deve ser exercida o mais livremente possível, desobrigando-o de certas obrigações (falar como seringueiro, como combatente, como migrante, como presidiário, como homem público) para que possa ordenar apresentar sua narrativa.

O resultado de encarar o outro como alteridade garante a possibilidade do encontro de singularidades, que a partir da sua práxis social, criam o mundo, suas conexões e significações reconhecidas dentro desta particularidade; que não evidenciam nem revelam nada, como se alguma narrativa privilegiada pudesse estar carregada do real, ser fiel a ele a ponto de substituí-lo como pretendem os positivistas e os cientistas, apresentando o real histórico pela revelação da memória “lúcida”, pela capacidade de dizer detalhes, onde o interlocutor possa selecionar apenas as contribuições mais ricas, ou aquelas reforçam sua busca.

Encarar o outro como objeto confiável da pesquisa possibilita ao pesquisador sempre pretender resgatar algo, onde suas fontes primárias se resumem a citações, incorporando à sua voz uma fala fragmentada do outro, agora despojada de vigor, de vontade e de historicidade, o relato oficial que quer ocupar o lugar do emaranhado de subjetividades, este sim se torna capaz de revelar ou mostrar a história, e dizer precisamente quem é o outro.

A palavra do outro, tomado como sujeito, pode explicar, interpretar, entender, e instaurar realidades a partir da sua vida, experiências e circunstâncias, se auto valida. Não se trata de exercício de memória, onde são realizadas referências e incursões ao real distante. Antes pretende o realce ao elemento criado e ao seu criador, opondo-se a tradição historiográfica e a própria expectativa de certa história oral, sempre em busca de revelar a realidade dos fatos.

Os pressupostos da transcriação sinalizam para a necessária percepção do passado como algo projetivo do próprio presente. É ele – presente – como vivência e consciência da práxis social, com origem no vivencial, no espaço reconhecido significativamente, que cria e humaniza, é a atitude vivencial presentificada da nossa práxis social, que inaugura o passado como o concebemos. São as redes de significações do presente que fazem o passado. As luzes encontradas não são outra coisa que não reflexos da substancialidade da vida presente.

Isto nos obriga a rever formalmente as afirmações e crenças do passado que se manifesta no presente, como um inconsciente que nos domina, sem que tenhamos sobre ele alguma forma razoável de domínio ou intimidade. Não somos fruto de um tipo de passado, mas prisioneiros da rede de significados que a práxis social nos imprimi no agora. É o presente que cria a possibilidade do passado. Isto nos permite afirmar que criamos discursivamente também o futuro, que é a representação projetiva dos códigos e conceitos do presente da práxis: suposição, ou ficção, não deixam de ser carregadas das mesmas premissas valorativas que constituem o passado. Este passado também é fruto das mesmas representações, que se projetam para o lugar que criamos e reconhecemos como passado, em busca daquilo que possa validar o presente, onde o presente aparece como continuidade. O passado revelado nunca é desgarrado da rede de significados do presente, e na medida em que este presente se transforme e seja recriado, o passado também o é, não pela capacidade do método iluminá-lo cada vez melhor, mas como conseqüência da estrutura discursiva validada no agora. Ou seja, um cientista que olha pelo telescópio para observar e estudar um astro há milhões de anos-luz da Terra olha na verdade para si mesmo e para sua práxis social.

O horizonte comum é o presente é ele quem promove outros tempos e outras dobras, é nele que se dá a politicidade, a intervenção criadora, permitindo ao passado e ao futuro a acomodação das vivências resgatadas, criadas no presente. O que supomos como garimpagem nas reminiscências da nossa memória, como encontro e busca do passado, nada mais é que projeção viva do presente. Há somente o presente como hermenêutica do ser social, como história viva, interpretação tão dinâmica e contraditória como cada instante que se vive.

Não é somente o conceito de História ou mesmo de uma Psicologia que está em jogo, mas suas existências se põem em cheque, pois não é a história do tempo que está em questão, que pela sua aparente distância em termos de vivência, nos é apresentada como apartada do homem e despolitizada, já acontecida, não podendo ser mais recriada, somente explicitada.

Levando-se em conseqüência que o encontro com o outro é singular momento de criação, que não pretende revelar o real, mas pelo diálogo, estabelecer a narrativa criativa, o uso dos meios oferecidos pela tecnologia como vídeo, computadores, gravadores, são meras ferramentas e não aparecem simplesmente como forma de conservar e congelar as palavras e as expressões como se elas pudessem aprisionar o real, antes se validam para que se tenha uma percepção interpretativa sempre diferente àquilo que tendemos a dizer que nos escapou, muitas vezes, nuances fundamentais de entendimento de outros modos como o outro cria a partir de suas experiências e vivências, a própria vida e seus significados. Se a transcriação pretende-se como ato criador do interlocutor, é necessário que este faça uso dos instrumentos tecnológicos a disposição, que pode ser até mesmo o velho caderno de notas, onde a riqueza do encontro possa ser re-vista, re-observada, levando-se em conta elementos que são compreendidos com mais cuidado (na verdade com outros olhos), garantindo uma teia de significados e de entendimento mais rica ou ao menos diferente.

Nesta visão presentificadora o narrador não revela, os fragmentos do inconsciente ou da História que o entrevistador necessita. Não utilizamos, propositadamente, a expressão entrevistado pois, isto representa que ele iria sofrer a ação do entrevistador em busca da realidade, estaria ele a mercê dos caprichos e necessidades, ritmos e rumos do entrevistador. O narrador não informa, pois não é o fiel depositário do real, da memória, mas do mecanismo criativo que cria e recria a sua vida e os sentidos que incorpora a ela.

A base deste recurso, nos possibilita ter o outro como fonte de expressão viva, sua narrativa é substrato criativo e plástico, onde vamos submetê-lo ao nosso processo criativo de interpretação do que é dito: o criador, a consciência (no caso da nossa práxis social) e o vivido, se deparam não como elementos distintos, mas como necessários às mesmas vozes que tem algo a dizer sobre a vida na práxis social. Neste sentido, o narrador, o diálogo, as transcriações, e o autor, são distintos apenas como procedimento metodológico; como revelação crítico-criativa se fundem, onde o resultado é o entendimento do ato fundante da criação e do humano.

A não objetificação do narrador, lhe garante confrontar-se criativamente com seu mundo como exercício libertário e literário, não é tomado como ato simplesmente ficcional, mas como vontade instauradora, como o esforço do ser social por humanizar seu entorno, possibilitando-lhe reinar e criar infinitamente a si mesmo e ao mundo. Por outro lado o entrevistador-interlocutor, que é o provocador inicial do diálogo, não pode eximir-se deste contexto fértil e criativo. Seu papel é o de criar também, criando sobre o diálogo, a partir do que ouça, do que capte, do que o momento esteja inspirando; não atua numa representação hermética, onde o percebido representa a intocável revelação do real obtida através da voz de uma ciência qualquer, sua atividade é exercício e impulso onde narrador e interlocutor, alçam vôo estabelecendo novas ligações para o que referendamos como real, carregando o presente de malhas densas de simbolismo e significação.

O interlocutor não se exime, não se torna rufião da história, antes a instaura, experimenta o processo criativo, aposta suas interpretações, percebe que as narrativas que se multiplicam a sua frente existem por sua causa; de sua atitude genuína materializa o reino, erguem-se templos, surge a arte, a paixão, a guerra, singram-se mares, destroem-se povos, instauram-se novas práxis sociais.

O historiador e o psicólogo ao escreverem, nada mais fazem que literatura, que se diferencia pelo ritual que lhe impõe o que e a partir do que pode dizer. É biográfico pois, fala e carrega consigo sua práxis social, e também autobiográfico, já que não revela somente um de fora, mas um de dentro.

A construção operada pelo interlocutor na criação do discurso do outro, garante na expressão narrativa a singularidade do narrador e o impacto do encontro pois, vivenciou o diálogo, participou dele, foi realizando uma leitura prévia a ponto de suas intervenções serem operadas por este sentimento da qual foi testemunha e cúmplice. Disto resulta uma narrativa e uma leitura viva e intensamente partilhada. Não é expressão do real que pode ser aferido, isolado, e repetido sob o rito da ciência, mas processo criativo, presentificação aglutinada e recuperada, em parte por meios tecnológicos, preservando o momento único do encontro e da narrativa. Narrador, narrativa, texto transcriado e interlocutor, representam ao final do trabalho uma só coisa: o ato criativo e instaurador de sentido.

A transcriação luta contra a objetificação do narrador que aparece por inteiro numa expressão narrativa que é sua; e se posiciona também contra a objetificação do interlocutor pois ele não é mero espectador da história, ou parteiro de lembranças, mas atua também por inteiro, não se esquiva numa pseudo distância sanitária por imposição do método. Este não observa apenas a experiência alheia, mas interage, revela também suas experiências, criando o momento único. Não lhe é furtado o direito a se fazer presente com o outro, ele não aparece como se fora mandado pela ciência, mas apresenta-se como aquele que vai apensar de significação a relação estabelecida com o outro, não se esquiva, ou tenta-se travestir de mero expectador, apartado do seu universo de pesquisa, como se as vozes reveladoras estivessem fora de si mesmo.

O narrador não é tomado como aquele que é capaz de materializar realidades ou os fragmentos dela, não revela a História, mas apresenta sua práxis social e a sua opção discursiva, seu modo explicativo e organizativo, a atitude singular que cada ser social tem para estabelecer o sentido da vida, sua maneira de constituir o lugar e a si mesmo, o modo de dizer suas vivências e ordená-las, moldando seu mito pessoal e toda a teogonia que o envolve.

A nossa práxis social duvida daquilo que o homem venha a criar se não estiver resguardado pela palavra da autoridade, do discurso ordenador e modelar do senhor, a práxis social cria então a ciência, para compartimentar e por ordem no cão.

Afirmar o documento escrito como merecedor de maior confiabilidade, aguça a cisão entre o mundo letrado – a voz do senhor, a representação do verdadeiro do poder – de um lado e de outro o iletrado, ficcional, de segunda categoria, onde a base de organização é obviamente o primeiro: lugar do oficial, do real; restando ao segundo o caráter de duvidoso, e quando muito o espaço de elemento acessório ou ilustrativo, reservado para especulações ou para referendar o que já está garantido. O ideário em torno da palavra grafada e paralisada como garantia do concreto, é a expressão do poder do mundo da escrita, de uma classe sobre as demais, de uma práxis social sobre as demais, ou seja um positivismo claro com desdobramentos nazistas.

Foi e é assim com a Filosofia (afinal só os filósofos podem filosofar, ou falar dela), também com o mundo medieval, não foi diferente na a República com a idolatria aos contratos sociais, nem a Psicologia escaspa quando estabelece caminhos de cura (logo com modelos de normalidade).

Ao recuperar a fala, a linguagem indicativa da constituição dos significados, é possível fugir das estruturas dedutivistas, que tendem a suprimir o ser social das reflexões/relações sociais, substituindo-o por tendências gerais, forças desprovidas de sujeitos, puro conceito metafísico.

Não se pretende também, o apoio na memória, como se a alternativa estivesse na estrutura puramente indutivista, onde a narrativa se torna depoimento, substituindo o factual, fazendo surgir a testemunha da história que aconteceu. Isto acabaria por nos induzir a aceitar somente o depoimento daqueles que foram mais íntimos, dos mais sadios, dos mentalmente confiáveis, mais adiante somente os ungidos pelo poder instituído (ou arianos) poderiam ser dignos de confiabilidade, estabelecendo a história oficial não apenas como uma história, mas como a História. O grande sonho da micro-história é desautorizar a história oficial, substituindo-a.

Seja numa estrutura dedutivista ou numa indutivista o outro inexiste como singularidade, nossa práxis social objetificadora prevalece. A possibilidade de padronizar o outro, faz com que desapareça quem criou (sujeito encarnado, práxis social viva), e seu contexto espaço-temporal, para em seu lugar aparecer o que foi criado (sujeito indefinido, atemporal, despojado de interesse, desejos e verdades, pura determinação social, práxis social desumanizada, universalizada e naturalizada, mero fetiche). Esta práxis social sem rosto, ao desautorizar seus objetos-mercadoria, retira-lhes a potencia de significação, restando signo vazio, despersonificado, cujo existir depende da validade que venha de fora, que pela coerência com a idéia de nivelar igualmente a todos, acaba por anulá-los e ignorá-los.

Meihy em seu trabalho realizado com os índios Kaiowás, percebeu que o caráter generalizador-comparativo do mundo organizado sob o capital leva invariavelmente a negação do outro como alteridade:

Ficava-nos evidente que um dos pontos de atrito entre os grupos dava-se exatamente na identificação, apriorística, das tribos como se fossem uma só massa. Intuímos também hipoteticamente que esta percepção era um crudelíssimo mecanismo de enfraquecimento das resistências. Esse recurso, é conveniente lembrar, tem atuado em favor dos brancos, através da existência de uma legislação que assume a todos como ‘índios’. MEIHY (1991: 24)

O produto do capital e da cientificidade realiza isto, a priori destrói o outro, paralisa-o para o golpe final: a objetificação, onde o poder da fala, o direito ao sonho, à vontade, à expressão, à singularidade e ao próprio existir, fica condicionado à voz da autoridade externa, do senhor, da práxis social que se torna o poder onisciente, onipotente e onipresente, do pesquisador que foi ungido por alguma ciência.

O narrador ao realizar a narrativa decide os caminhos – metodológicos ou não – a seguir, sua fala é representação de dada práxis social que faz viver, de voz que é comunitária enquanto escolha de símbolos que façam parte de sua identidade e sentido, mas também é arranjo e vivência singular, é autoridade e criadora dos existires, não como realidade externa, mas como verdade interna, ato criador do presente.

BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter. O Narrador, in MAGIA E TÉCNICA, ARTE E POLÍTICA. Obras Escolhidas, v 1, São Paulo, Brasiliense, 1987. p 187-221.

CALDAS, Alberto Lins. ORALIDADE, TEXTO E HISTÓRIA. São Paulo, Loyola, 1999.

FOUCAULT, Michel. What is an autor? in HARARI, J. V. (org) TEXTUAL STRATEGIES. New York, Ithaca, 1979.

________. A ORDEM DO DISCURSO. São Paulo, Loyola, 1999.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. A COLÔNIA BRASILIANISTA: HISTÓRIA ORAL DE VIDA ACADÊMICA. Nova Stella, São Paulo, 1990.

________ . CANTO DE MORTE KAIOWÁ: HISTÓRIA ORAL DE VIDA. São Paulo, Loyola, 1991.

________ . MANUAL DE HISTÓRIA ORAL. Loyola, São Paulo, 1996a.

________. (RE)INTRODUZINDO HISTÓRIA ORAL NO BRASIL. São Paulo, Xamã, 1996b.

ORLANDI, Eni Puccinelli. AS FORMAS DO SILÊNCIO. Campinas, Unicamp, 1997.

________. INTERPRETAÇÃO. Rio de Janeiro, Vozes, 1996.

 

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