Somos Negros e Temos Preconceito – Nilson Santos

SOMOS NEGROS E TEMOS PRECONCEITO

 

Nilson Santos

Professor de Filosofia e Arte do Departamento de Educação – UFRO

e-mail: nilson@unir.br

 

 

Primeiro: No Brasil não há brancos, somos todos negros.

Segundo: No Brasil somos preconceituosos.

Terceiro: Esteve em cartaz uma peça imperdível: Expressão Negra.

Já faz mais de um século que a cor da pele, o formato do nariz, o tipo do cabelo não dizem nada sobre a negritude. Essas diferenças biológicas são geneticamente tão insignificantes que a própria biologia nem leva mais isto em conta, afinal isto representaria 0,03% do genoma humano, ou seja, nada! Apenas uns poucos desavisados ainda se ocupam desta diferença inútil.

O pigmento da pele (melanina) é mero detalhe de proteção ao sol. A negritude está configurada em algo mais poderosa, significativa, e existencialmente rica: a cultura.

Os elementos da cultura de cada comunidade implicam no seu maior patrimônio e refletem diretamente a maneira como vivem, o que comem, o que sonham, o que dizem, a forma como se organizam, os cultos que realizam, a maneira de lidarem com tempo.

No Brasil, há muitos séculos, somos todos negros.

Temos Identificação com o samba, tanto que já criamos uma centena de ricas variações e combinações do gênero que passam pelo chorinho, pelo pagode, pelo carnaval, pela bossa nova, pelo samba de breque, pelos axés todos. Por mais que não gostemos de música conseguimos reconhecer uma infinidade de estilos de sambas que nasceram nos terreiros.

Gostamos do ritmo do pandeiro, da cuíca, do berimbau, do reco-reco, do cavaquinho, do tamborim.

A Velha Guarda da Portela e da Mangueira são mais importantes que qualquer curso superior de música.

O jazz norte-americano ficou muito melhor depois que eles introduziram o saxofone (que, aliás, virou o símbolo do jazz), coisa que aprenderam com os negros do nosso chorinho.

Somos fascinados pela ginga que move os quadris, dá movimento aos pés e já nos fez penta-campeões de futebol com dribles que lembram os passistas das Escolas de Samba.

O único rei que temos orgulho e reconhecemos se chama Pelé.

Todos os sábados são dias sagrados porque vamos à missa e comemos feijoada, comemos torresmo e bebemos caipirinha ou cachacinha, e depois comemos cocada ou manjar branco de sobremesa.

Nossa culinária é rica com o angu, o vatapá, o bobó, o dendê, a farinha, a moqueca, a canjica, o mocotó, a paçoca, a pipoca, o pé de moleque.

Qualquer gringo se esmera em aprender logo a dizer “samba” e “caipirinha”

Fazemos figa para tudo dar certo, oferecemos um gole ao santo, batemos três vezes na madeira para afastar o azar.

Gostamos dos tecidos coloridos, das pulseiras, dos colares, dos chocalhos.

Ainda não sabemos se a morena mexe o chocalho amarrado na canela ou se é o chocalho que mexe com ela, e com todos nós.

Não tenho dúvidas: sou negro, você é negro, somos 180 milhões de negros.

Desta mesma maneira somos negros, porque nossa cultura é fortemente marcada por esses traços, mas somos igualmente italianos e mediterrâneos porque adoramos massas, pães, azeite e vinho, somos alemães porque salivamos com cervejas e salsichas, somos índios porque gostamos de macaxeira e tabaco, somos incas porque apreciamos milho e batatas, ao mesmo tempo em que tomamos uísque com água de coco, somos todas as culturas e nenhuma, somos tudo e nada.

Não faz sentido que esta rica diversidade de cheiros, gostos, cores, sensações, e expressões despertem ódio e segregação. Nossas diferenças nos tornam singulares e não inferiores ou superiores.

Nossa diversidade deveria nos tornar espiritualmente mais ricos, afinal combinamos salmão com leite de coco, fazemos pizza de chocolate, tocamos samba-reggae, vamos ao culto com o cheiro do incenso do terreiro.

O que nos impede de perceber isto é o nosso preconceito. Que vai para além da questão da negritude. Incomodam os comportamentos diferentes. Não aceitamos tão facilmente gordos, baixos, aidéticos, carecas, fumantes, e homossexuais, pobres.

Ninguém admite isto em público, mas quem não ri das piadas de velhos, loiras, burros, caipiras, prostitutas, judeus, portugueses, crianças, negros, homossexuais, pobres, corintianos?

Também não tenho dúvidas: somos todos preconceituosos.

Não escapa ninguém. Não fumantes com os fumantes, negros com homossexuais, ricos são pré-conceituosos com pobres, latinos com negros, alemães com italianos, evangélicos com católicos.

Reflito isto porque assisti há alguns anos atrás, uma peça, na verdade um musical imperdível: EXPRESSÃO NEGRA.

A percussão é impecável, a cargo de um ex-aluno da Universidade Federal, e a coreografia é extasiante sob a responsabilidade de outra ex-aluna da Universidade. Na verdade cada um deles é profissional no que faz. Bira é percussionista cobiçado e respeitado pelos músicos, e conseguiu produzir uma percussão polifônica que enfeitiça. Andréa Miranda que é professora de dança e se dedica em conhecer ritmos afros, conseguiu uma coreografia madura e de profundo diálogo com a cultura do nosso povo.

Some-se a isto um grupo de diversificado equilíbrio: um texto interpretado que combina as marcas do passado e a representação do presente, um violão capaz de garantir o tempero melódico do espetáculo, duas cantoras de vozes singelas, e um grupo de dança que combina sutileza, sensualidade, vigor, e sincronicidade com o tempero exato, além de muita presença de palco.

O cenário era simples e centra a atenção para o fundamental: o humano e a densidade da vida. Não é à toa que Joezer Alvarez produziu o pano de fundo privilegiando um rosto com olhar denso, porque o conjunto do espetáculo quer valorizar o que o grupo pode dar de melhor: música de boa qualidade, interpretação sem muitos exageros, e muita movimentação de palco.

O resultado disso foi um musical e uma grande celebração.

Tão significativo quanto a apresentação foi o debate que ocorreu logo a seguir sob a coordenação de Ana Maria, pessoa que sempre respeitei pela sua serenidade, simplicidade e autenticidade, contando ainda com a presença de negros (por conta da melanina) de alguns movimentos sociais e religiosos, mostrando opiniões divergentes, contraditórias, marcadas pelos preconceitos que sofrem e pelos preconceitos que igualmente têm.

As opiniões conflituosas dos convidados envolveram a platéia. O resultado foi uma exposição dos conflitos e esperanças que carregamos ao longo da vida, reforçando ainda mais a idéia da grande catarse e celebração, encerrada com a benção entoada em língua africana.

A noite foi simplesmente inesquecível.

Expressão Negra foi imperdível !!!

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