Sachs, Cultura, Populações Amazônicas e Sustentabilidades – Nilson Santos e Zairo Pinheiro

SACHS, CULTURA, POPULAÇÕES AMAZÕNICAS E SUSTENTABILIDADE

 

Nilson Santos[1]

Zairo Pinheiro[2]

 

 

Existem práxis individuais e existem práxis sociais. (Milton Santos, 1986: 71)

 

Até parece reeditarem o absurdo de mais se preocupar com o sapato do que com o pé ou de usar requinte no asseio das vestes sem atentar para a saúde do corpo. (Erasmo de Rotterdam, sd., aforismo nº 4)

 

RESUMO: Este trabalho tem como objetivo a reflexão a partir da obra de Ignacy Sachs, no que se refere à crítica ao ideal de desenvolvimento tecnicista sob o capital. O artigo enfatiza a necessidade de se voltar para o sentido “humano” da região em questão, a Amazônica, tendo em vista que nestes últimos 40 anos, houve um aumento de projetos governamentais, mas igualmente privado, e com perspectiva apenas de cunho técnico-econômico, e não de cunho humano (no sentido de priorizar o querer das pessoas envolvidas em tais projetos). Este artigo, um diálogo parcial, para mostrar a importância das manifestações dos sentidos, gostos diferenciados e característicos, de qualquer posicionamento que leve em conta, não só o fator tecnicista, mas principalmente o fator “humanístico” social.

PALAVRAS CHAVES: Desenvolvimento Humano, Populações Amazônicas, Subjetividade, Determinação Econômico.

 

ABSTRACT: This article has as objective the reflection from the thought of Ignacy Sachs, referring to the critic about the ideal of tecnicist development under the capital. The article enphasize the necessity to the human sense on the region mentioned, the Amazonian one, concerning that in these last 40 years, had an increase of social projects from the government, and also private, and the perspective of technician-economic matrix, not human matrix (emphasizing mainly the will of the involved people in such projects). This article, a partial dialogue, to show the importance of speeches, senses, different and characteristic tastes of them, of any positioning that give the essential importance, not only the tecnicist factor, but mainly the “social humanistic” one.

 

KEYWORDS: Human Development, Amazon Peoples, Subjectivity, Economic Determination.

 

 

 

Só deveria haver para a Região Amazônica, nossa potencial “última fronteira”, como talvez, para regiões tidas como de terceiro mundo, uma perspectiva de desenvolvimento, o humano. Não é possível negligenciar a tecnologia da qual provém a produção, a energia elétrica, o transporte, enfim, o conforto moderno. Não obstante, suportar a lógica da mercadoria se sobrepondo à vida de pessoas, antes utopia, agora passa a sser pressuposto fundamental a própria sobrevivência da espécie.

A Região Amazônica é vitima de vários projetos de ”mal desenvolvimento”, palavra que tomamos no sentido dado por Sachs de tornar difícil (1986a, 1986b), não só um desenvolvimento verdadeiro, mas de postergar, ou impedir que num prazo breve isso venha a acontecer. É grave o problema porque o “mal desenvolvimento” impede que um projeto voltado para o desenvolvimento humano menos sofrível se torne viável, tornando a tecnicidade e a lógica do trabalho favorecidos ao invés do humano; como salientou Karl Marx (1975: 93) , “Se este [o trabalho] puder ser executado pela maquinaria ou, mesmo, pela água ou pelo ar, tanto melhor.”. Observa-se que Marx não se opõe ao avanço técnico, chegou a manifestar-se incisivamente contra o que chamou de “campesinato atrasado”, que se opunha ao avanço das forças do Capital (mesmo que isto se restringisse a um apoio estratégico). Antes fazia oposição ao que representava o “trabalho abstrato”, isto é, o aparente valor próprio que a mercadoria adquire a partir de sua produção. Mesmo em Marx, a conquista tecnológica não deveria ser um fim em si, mas o meio para que o homem pudesse viver plenamente a reificação e sua potencialidade crítico-criadora.

O tipo de desenvolvimento que procuramos acompanhar neste artigo apóia-se em Sachs (1986b: 28), que comenta: “O próprio conceito de desenvolvimento pertence mais à esfera da ética do que da economia”. Eric Hobsbawm, na introdução à obra de Marx, “Formações Econômicas Pré-capitalistas”, escreve que “O desenvolvimento econômico não pode ser visto simplesmente como ‘crescimento econômico’” (Hobsbawm, 1975: 20). Tanto Hobsbawm quanto Sachs procuram outra expressão de desenvolvimento, que seja compatível com a liberdade do homem. Com relação a Sachs, a crítica não é feita às outras disciplinas, mas a sua própria, a Economia, que é identificada como a primeira a ter sua lógica e propósitos invertidos, deixando de ser o centro para ser auxiliar desse pragmatismo-humanista implícito, ao invés de alinhar todos os projetos de desenvolvimento em maior ou menor grau tendo o humano como referência. Entretanto, um projeto de desenvolvimento que explicite a inserção do humano como centralidade ainda está por ser elaborado. Sachs prossegue afirmando que o seu desenvolvimento que tem o humano como centro, “…visa à libertação da personalidade humana, de todos os homens […] e deveria apoiar-se, um dia, mais sobre o auto controle das necessidades materiais pelo indivíduo […], do que sobre um controle social do consumo” (Sachs,1986b: 28). O “controle das necessidades materiais” é pré-requisito para que a “tecnicidade” ou da pragmática produtiva, como razão instrumental e alienação, ficando em segundo plano, dando lugar ao desenvolvimento humano, isto é, voltado para a realização plena da vida das pessoas, não ficando subordinada às “necessidades materiais” da ordem produtiva.

Os meios de comunicação, via de regra, em clima de entusiasmo, tem apresentado um crescimento interno de 3, 4, ou 6% com grande euforia, e de forma ufanista crescimentos de 15% em alguns países, sem se ocupar da miséria com taxas de crescimento na mesma proporção! Apesar do Brasil estar entre os dez países mais ricos, nossos índices apontavam em 1960 os 20% detendo 54% da riqueza, e os 50% mais pobres dividindo apenas 18%; neste início de século XXI, esse fosso aumentou, apesar da riqueza nacional ter crescido, do nível de emprego ter aumentado, da produção, da produtividade e das exportações terem igualmente crescido. Sobre essa postura de imposição de padrões de vida, João Paes Loureiro expõe: “Ao analisar esse problema do desenvolvimento do Estado e suas repercussões sociais e econômicas”, Violeta Loureiro esclarece que o “primeiro aspecto que se quer acentuar diz respeito à questão do padrão de vida das populações amazônicas que, sob a ação do modelo de desenvolvimento atual, vem decaindo gradativamente; de uma condição original de vida frugal, simples e rústica, o Homem amazônico se vê transplantado para uma situação de miséria urbana.” (Violeta Loureiro apud Loureiro, 1995: 105)”.

O conceito de desenvolvimento na obra de Sachs (1986a, 1986b) é sutil. É claro que toda a sua análise é fruto de mais de meio século de fracasso de teorias e modelos econômicos no que diz respeito à questão humana, porque os ricos avançam cada vez mais como ricos. A leitura de Sachs sugere uma inversão a preocupação de equalizar estes problemas, tornando a anomalia regra geral. As propostas desse economista soam como tentativas de reverter essa situação quando aponta: “A ciência foi, de fato, reduzida ao papel de tecnologia industrial e o mito do progresso impede que se pense o futuro em termos que não sejam de acumulação de doses repetidas” (Sachs, 1986b: 21). O humano, as liberdades (no sentido do múltiplo e radical do termo) deveriam ser o fim. Estamos longe de tal concepção. Quando Marx articula riqueza e desenvolvimento está observando o quanto há de precariedade nesse humanismo nascido com a burguesia: “Na verdade, quando despida de sua estreita forma burguesa, o que é a riqueza, senão a totalidade das necessidades, capacidades, prazeres, potencialidades produtoras, etc., dos indivíduos, adquirida no intercâmbio universal? O que é [a riqueza], senão o pleno desenvolvimento do controle humano sobre as forças naturais – tanto as suas próprias quanto às da chamada “natureza”?” (Marx, 1975: 80). Nestas colocações se encontra parte do que entendemos pela questão humana.

Desenvolver para Marx é atuar sobre o mundo natural tornando-o humano, tanto faz ser a physis (natureza, entendida à maneira grega clássica), ou a mímeses do trabalho sob o capital, que visa sempre a mecanização e “separação” do homem frente ao que procura realizar. A falta de totalidade (necessidades ilimitadas de praticar o humano), e sua conseqüente fragmentação apropriada pelo Capital, acarreta desumanização da ação humana, e conseqüentemente desumanização dos modelos econômicos aplicados as diversas comunidades particulares . A respeito do humano, Marx atualíssimo na questão da inversão, critica esse tipo de desenvolvimento que a sociedade capitalista procura camuflar quando diz: “Na economia política burguesa – e na época de produção que lhe corresponde – este completo desenvolvimento das potencialidades humanas aparece como uma total alienação, como destruição de todos os objetivos unilaterais determinados, como sacrifício do fim em si mesmo em proveito de forças que lhe são externas.” (Idem, p. 81). Essa passagem de Marx soa como profecia de mau agouro, porque os projetos de Desenvolvimento para a Amazônia são concebidos em consonância com os valores gerais, orientados por interesses externos que se assentam na mais valia e no trabalho abstrato.

Esse problema vem sendo apontado inclusive pelo economista-chefe porta-voz das “forças externas” do Banco Mundial, o Sr. Stern, citado e elogiado por Bernardo Kliksberg (2001: 39) afirmando sobre a participação dos dominados na formulação do desenvolvimento: “Ao longo do mundo, a participação funciona: […] As reformas dos países são muito mais efetivas se forem geradas no país e dirigidas pelo país. A participação é prática e poderosa.”. Essa é a mesma idéia proposta pelo que Sachs chama de “desenvolvimento endógeno”. Essa postura do Banco Mundial, que sempre foi adverso a população latino-americana, é a instrumentalização do belo, mas não passa disso. Muito menos os planos do Estado brasileiro, como o PIN (Plano de Integração Nacional, criado em 1970), o RADAM (Projeto Radar da Amazônia, também de 1970), e o CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, de 1969), todos voltados para um tipo de desenvolvimento que interessa a racionalidade lógica do capital, deixando as comunidades na Amazônia à mercê da própria sorte e da ocupação/exploração sem freio de grupos que só visam o lucro, além de não o reinvestirem produtivamente na região. A situação de êxodo rural, cada vez mais crescente, é conseqüência dessa postura governamental que maximiza o desenvolvimento empresarial, técnico, e minimiza outras modalidades de vida, como observou Violeta Loureiro (Loureiro, 1995).

Somos levados a pensar assim, pelo desafio das múltiplas sutilezas do “homem amazônico”, Loureiro indica as características da cultura Amazônica, “Analisando-se a cultura amazônica […] depara-se com um verdadeiro universo povoado de seres, signos, fatos, atitudes que podem indicar múltiplas possibilidades de análises e interpretações” (Loureiro, 1995: 68).

Os grandes e médios projetos para a Região Amazônica são a aplicação de modelos de desenvolvimento concebidos para outras regiões. A transposição de modelos não é um mal em sim, entretanto, Sachs (1986: 31) nos apresenta as características do perigo mimético: primeiro, a tendência a tomar a Europa como ponto de referência. Segundo, uma noção estreita de desenvolvimento, visto que crescimento econômico se sobreporia à qualidade de vida e civilização; e terceiro, o feudo disciplinar acadêmico, que fala muito em interdisciplinaridade, mas continua operando de forma estanque e circunscrita ao conhecimento disciplinado. Nesse ponto Roland Barthes, já prenunciara a dificuldade de transpor as áreas do conhecimento, para quem, só há interdisciplinaridade quando se cria um objeto que não pertença a nenhuma disciplina em particular, inclusivamente onde seus papeis teriam que ser questionados.

A crítica já realizada ao modelo de desenvolvimento orientado apenas para o exógeno, nos permite descrer de projetos que não visem a “autonomia regional”, debates sobre a liberdade e a auto-determinação tornam problemáticos os debate sobre a cultura amazônica e sua subordinação aos modelos exógenos, o global engole o local, mas mesmo assim se deve resistir a partir do que mostram as “comunidades da floresta”.

A perspectiva em desenvolvimento regional que não leve em conta a vida íntima (como Gaston Bachelard expressou) das pessoas, suas sutilezas, sonhos, devaneios, e principalmente o direito de colocá-los em prática, precisa ser superada. Os projetos que não levem em conta as historicidades relativas, os múltiplos tempos do lugar, aos ritmos da comunidade precisam ser questionados. Sachs fala de uma simbiose entre homem e terra, mas implicitamente deixa crer que é preciso uma interpenetração, um quiasmo (Loureiro, 1995) urgente entre homem e liberdade. Como isto poderá ser realizada é a questão que precisa ser pensada com sutileza.

O epíteto de “preguiçoso”, que implica indiretamente sobre o tempo não mercantil desse “homem amazônico”, foi-lhes imposto por questão de incompreensão frente a esse ritmo social que. Nesse sentido, não poderia haver projeto para uma cidade, sem antes observar seus ritmos individualizados.

 

O tempo, ou o espaço da vida humana em diferença

 

Pensando nessa sutileza do ritmo das comunidades Sachs propôs o conceito de tempos-espaços, “Ao proceder assim se estará reconhecendo o primado dos homens que modelam a sua própria história aberta, dando-se ao elemento geográfico e ecológico uma interpretação possibilista” (Sachs, 1986b: 46). A categoria de tempo sempre deve ser sempre levada em conta, porque a individualidade é temporal, por isso cada tempo é peculiar, não coincide e nem se confunde com o tempo cronologicamente ordenado, o tempo do trabalho industrial e da mercadoria. A temporalidade das pessoas é inapreensível, “o tempo não se deixa ver, tocar, ouvir, saborear nem respirar como um odor” (Norbert Elias, 1998: 7). E quem se propõe a compreender o humano das populações amazônicas, deve levar em conta suas temporalidades, que facilita o entendimento desse espaço que se procura estudar. A Região Amazônica é atribuída temporalidade homogênea,com ares de primitivismo sob todos os aspectos.

Para o grande capital não existe fronteira, por isto não se pensa em outro tempo que não o de ganhar mais dinheiro, René Guénon (1993: 3) no livro O Símbolo da Ciência Sagrada, faz comentário símile, “A civilização moderna aparece na história como uma verdadeira anomalia: de todas que conhecemos, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, e também a única que não se apóia em qualquer princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material, que vem já de vários séculos, e que vai acelerando cada vez mais, tem sido acompanhado de uma regressão intelectual totalmente incapaz de ser compensada”.

A corrida por um desenvolvimento material, de bens de consumo, principalmente bélico, não indica condições contraditórias, Guénon indica dois movimentos, que para ele são sinônimos, o racionalismo e o sentimentalismo, derivados ambos da razão de Descartes. Para Guénon (1993), a verdade, qualquer que seja ela, não tem mais sentido num mundo dominado ou por aspirações materiais ou por sentimentais. Para Merleau-Ponty (2000: 25) “O verdadeiro não é nem a coisa que vejo, nem também o outro homem que vejo com meus olhos, […] O verdadeiro é o objetivo, o que logrei determinar pela medida ou, mais geralmente, pelas operações autorizadas pelas variáveis ou entidades por mim definidas […] ‘em si mesmas’”. Guy Hermet tem como proposta uma espécie de “conciliação dos objetivos econômicos legítimos das instituições de ajuda ao desenvolvimento com um princípio “humanista” de respeito àqueles a quem é destinada tal ajuda” (Hermet, 2002:16). Mas para isso é preciso uma mudança radical, onde o humano fique em primeiro plano.

Em Sachs tudo é arrastado para o diverso, do campo à cidade, considera os estilos de vida, enfim, tudo o que diz respeito a uma perspectiva de desenvolvimento e planejamento. “De fato,” diz ele, “uma cidade que não comporte a diversidade só pode ser uma cidade repressiva.” (Sachs, 1986: 65). Mas, logo em seguida, percebe que a diversidade não significa liberdade, e é para isto que deveria voltar-se os olhos da crítica. Ele usa o conceito marionete social, citando Zijderveld, para quem o indivíduo moderno, filho do clima industrial pensa em ser livre, quando é apenas um títere.

Só há liberdade (não comercial) em diálogo. Em conseqüência só há humano em autonomia, naquilo que Sachs chama de endógeno (não no sentido ingênuo de nicho ecológico), mas na possibilidade de se efetivar a vida da pessoa ou da comunidade com domínio de seu destino. O problema não é de negar o capital, a ciência, a tecnologia propriamente dita, mas torná-las a serviço desse humano que se perde nessa inversão de valores. Exemplo disso, é que sabemos que existem 1/3 da população brasileira vivendo abaixo da linha de pobreza, e, no entanto, a cada dia cresce o número de lavouras de soja, e criação de bovinos, todas ligadas diretamente à exportação. O crescimento desses dois setores primário poupadores de mão de obra, deprime a qualidade de vida das pessoas? Não se sabe com exatidão porque a “sociabilidade do homem simples” (termo na dimensão que deu José de Souza Martins) é grande demais! A Amazônia corre risco, pois se incentiva cada vez mais a monocultura de exportação, que provoca desmatamento e devastação. Limitar tais atividades, é ter “autocontrole sobre nossas necessidades e desejos … ” (Sachs, 1986b: 58).

Aristóteles na Política já compreendia que a ciência econômica era bela porque se diferenciava do comércio. O destino para o qual fora criada, a primeira, era para que o ser político pudesse viver bem. O homem grego não desconhecia o comercio ou negava a riqueza e a troca, mas para o cidadão grego o importante era o humano na frente de tais atitudes egoístas e degenerativas, a arethé estava adiante. A lógica da economia moderna, nesse sentido já estava prevista pelo grego que lutava para resistir a tal atitude tão em voga nos dias de hoje.

Essa necessidade humana fundamental tem como lógica o controle os desdobramentos em questão. No atual estado de coisas, podem haver brechas para “um esforço para determinar os conteúdos concretos do crescimento em função dos objetivos sociais desejados e, conseqüentemente, criação de condições favoráveis a um movimento de auto-organização da base, com vistas ao desenvolvimento.”? (Idem, p. 59).

A proposta deste desenvolvimento diferenciado nos leva às pessoas concretas vivendo concretamente suas vidas, num sentido dado pelo conceito de desenvolvimento endógeno (Sachs, 1986b). Para realizar projetos de desenvolvimento é preciso antes se voltar para o lado histórico/antropológico do conhecimento como indica Sachs, do que para a tecnicidade, no sentido de “balanço contábil”, como alerta Hermet (2002) sobre o objetivo das empresas. E se no início de seu livro, Sachs atenua o poder do econômico em relação ao humano, consolidando e o direcionando “para o historiador que pratica a história integral ciência e arte, que o especialista em desenvolvimento deve voltar-se, se quiser aprender a levantar as questões certas e tentar encontrar o início de respostas concretas” (Sachs, 1986b: 80), acrescentaríamos o geógrafo, que neste estágio está tão apto quanto o historiador para novos horizontes de pesquisa. História e Geografia são categorias humanas por isto a dimensão humana deve prevalecer em todo o processo de conhecimento da Amazônia. Paul Thompson (1998: 20) já denunciava: “Há acadêmicos que continuam fazendo pesquisa factual […] evitando qualquer envolvimento […] insistindo na busca do conhecimento pelo conhecimento”. No sentido acadêmico, a Geografia é muito mais plural, o tempo e o espaço são as dimensões da sociedade, não como homogeidade, mas como diferenciação, não havendo tempo único não há espaço vazio, restando a significação.

 

Desenvolvimento e populações amazônicas: pontos de atritos

 

A questão não se circunscreve ao debate  acadêmico, mas implica numa perspectiva de vida, muito embora o  problema da maneira como vivem tais populações, sejam elas “indígenas” ou de pequenas vilas embrenhados na floresta, e como o pesquisador o percebe isoladamente do que chama de sujeitos, nos chame a atenção para o caráter metodológico do problema.

Falar de Cultura e Populações não deve ser meramente questão conceitual ou de método, mas de encarar o outro em sua dimensão real-ficcional, implica o esquecimento inicial do projeto e ir a campo para entrega pessoal e de riscos. É só no atrito que o resultado aparece em sua dimensão plena. Não se deve pesquisar como trabalham os órgãos governamentais elaborando projetos e impondo ao campo de pesquisa, à vila, ou tribo. O grande desafio é contradizer o fácil, o óbvio, qual seja, que na floresta vivem os “povos da floresta”, como se “floresta” fosse um conceito sentido homogeneamente por todos os que vivem nela. Há um receio ingênuo pelo subjetivo, como se este colocasse em risco a ciência, na verdade ele é o enfrentamento do diferente em sua singularidade.

E Jean Kessler no prefácio a Miséria da Filosofia de Karl Marx (2007: 32) comenta: “O grande defeito de todo o materialismo passado é que a coisa concreta, o real, o sensível não é nele apreendido senão sob a forma de objeto ou de intuição, não como atividade humana sensível, não como prática; nem subjetivamente”. Esta citação de Marx se encontra na Ideologia Alemã que Kessler resgata para desmistificar a concepção vulgar de que Marx não visava o indivíduo e nem o subjetivo. Pelo contrário, o individual é o grande lema é pedra no sapato do capital, que é a luta contra qualquer diferença que ponha em risco sua vontade de uniformização humana, uma deformação humanitária.

Os pontos de atritos, postos aos pesquisadores apontando para o caráter da diferença, a pesquisa realizada por Nilson Santos (2002: 23) intitulada Seringueiros da Amazônia: Sobreviventes da Fartura, questiona o lado pseudocientífico de pesquisas quando comenta que “há outra categoria de textos produzidos sobre os povos da floresta (denominação geral que, mais uma vez rotula todos os que vivem na mata sob mesma denominação, sugerindo identidade comum a seringueiros, índios, ribeirinhos, pequenos produtores agrícolas, madeireiros, garimpeiros, e outros grupos que habitam na mata)”. A grande contribuição de Santos é de desdizer o dito objetificado a gerações que encaram tais populações como instrumentalização mecânica e fria.

Populações amazônicas e sustentabilidade: possibilidades de resistências

O pensamento industrial, resultante do capitalismo, fracassou enquanto projeto redentor da sociedade:

O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos. […] A elevação do padrão de vida das classes inferiores, materialmente considerável e socialmente lastimável, reflete-se na difusão hipócrita do espírito (Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, 1985: 14).

 

Esta constatação acima reflete apesar de certo pessimismo, que o aumento da produtividade econômica se circunscreve ao “bem estar” da mercadoria, tornando as pessoas como apêndices.Tal acertiva deixa de ver as possibilidades da resistência e diferenças do “homem simples”, que pensa e sente e se diferencia. Mas vivenciando os horrores das Guerras, a Escola de Frankfurt, apesar de contribuir para a análise da cultura individual e subjetiva, não era capaz de ver saídas: nem o próprio Walter Benjamin, que vê sucumbir as marcas do humano, sugerindo inclusive a morte do narrador.

Não há uma realidade rígida nem para uma coletividade, muito menos para o indivíduo, situação não levada em conta pelo mercado capitalista, para quem tudo deve ser reduzido às exigências do mercado. Não obstante, existe em cada indivíduo um processo o qual, Karl G. Jung chamou de processo de individuação. Von Franz (Jung, sd.), diz que “é inútil olharmos furtivamente para ver como qualquer outra pessoa vai realizando o seu processo de desenvolvimento porque cada um de nós tem uma maneira particular de auto-realização”. Tal dificuldade na lida com o humano fica mais nítida quando afirma: “Apesar de muitos problemas humanos serem semelhantes eles nunca são perfeitamente idênticos.” (idem: 164). Para esse dilema Sachs propõe o conceito “antropologia do cotidiano”. Então, Antropologia, História viva, Geografia e desenvolvimento se completam nessa postura que o interesse se volta plenamente “[para] saber como as pessoas enfrentam suas crises cotidianas” (Sachs, 1986b: 111). Essa mudança que caminha do teor técnico-econômico para a abordagem antropológica, que não passa de um tipo de desenvolvimento humano, foi enfatizada por Edgard Assis de Carvalho, na Introdução a obra sobre Maurice Godelier:

 

Afastado das concepções formalistas, que pretendiam a universalidade do comportamento econômico e do substantivismo empirista de K. Polanyi, G. Dalton e outros, o econômico ganha nova significação não só porque se define como produção, repartição e consumo de bens materiais, […] mas como domínio de atividades particulares e aspecto particular de todas as atividades humanas que constituem a totalidade da vida social” (Carvalho, 1981: 8).

 

O particular é de fundamental importância porque visa o que o macro não dá conta. Isto é, no individual se encontra a diferença e a resistência, Milton Santos (1986: 128) ao afirmar que “a realidade de uma cidade, de um campo cultivado, de uma rua, é a mesma para todos os indivíduos. [e que] É a realidade de cada indivíduo que o autoriza e o leva a ver as coisas sob um ângulo particular”, demonstra que se deve levar em conta as diferenças pessoas, não causando com isto uma interpretação puramente subjetivista, mas sim, dando ao outro sua parte necessária de entendimento.

O que indicamos até aqui como valorização humana é o campo individual enquanto diferenças, e não simplesmente um antagonismo contra o coletivo ou comunitário. Esse enfoque poderá ser útil pra compreendermos as atrocidades de projetos recentes como se na região amazônica tudo se resumisse ao dilema da sustentabilidade. A nossa perspectiva é de “escutar” antes de “perguntar”.

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[1] Professor do Mestrado em Geografia – UNIR.

nilsonsantos@yahoo.com.br

 

[2] Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR.

 

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