FIANDO O DESTINO – RE-EXISTINDO A VIDA: MARIA CECÍLIA BÁRBARA WETTEN – Elisabete Christofoletti

FIANDO O DESTINO – RE-EXISTINDO A VIDA: MARIA CECÍLIA BÁRBARA WETTEN

 

Elisabete Christofoletti

Psicóloga, mestre em educação, analista junguiana

elisabete.christofoletti@gmail.com

 

 

“No Cosmos, como na vida humana, tudo está ligado através de uma textura invisível.”

Mircea Eliade

 

 

As Valquírias, na mitologia germânica, chamavam para si o papel de fiandeiras do destino, e o faziam em um tear espectral, durante a morte dos seus guerreiros no campo de batalha, cantando, teciam o destino usando o sangue dos guerreiros mortos, como matéria-prima.

Para que não tenhamos, nunca mais, sangue derramado pela dificuldade em ser tolerante com as diferenças, sejam elas quais forem, este minha narrativa é para Cecília Wetten.

 cecilia 1(foto  de Nilson Santos)

(Esta é uma cela, do antigo Deops/SP-departamento estadual de ordem política e social de são paulo. Um dos locais onde os presos políticos eram levados e ficou famosa por ser uma das polícias políticas mais truculentas do país, principalemnte durante o regime militar. Hoje abriga o Memorial da Resistência e está vinculado à Pinacoteca do Estado de São Paulo. Caso queira conhecer um pouco mais deste projeto, acesse:  http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8&Itemid=14. )

Quando vi o chamado do Conselho Federal de Psicologia para partilharmos vivências que remetem a ditadura no Brasil, parei por um momento e pensei se poderia contribuir.

São tantos os relatos de pessoas próximas, outras nem tanto, mas sempre de agressão, violência ao corpo e a Alma sofridos durante a ditadura militar no Brasil que decidi partilhar da vivência que tive com uma dessas pessoas, o nome dela: Maria Cecília Bárbara Wetten, que para mim sempre foi somente e tudo Cecília.

Das convivências que tive/tenho com pessoas que tiveram: seu corpo torturado e violado, a livre expressão dos pensamentos e sua Alma dilacerada, noto como as reações entre um e outro são tão diferentes na forma de sobre-viver, alguns tombando, outros resistindo e outros ainda re-existindo.

*

Há pessoas que se tornaram viúvas do AI5, que nunca conseguiram se desvincular da agressão vivida. O coração cheira amargura, tristeza, e quase sempre depressão. Ficaram contaminadas pelo que de pior o período teve. Conviver com estas pessoas não é tarefa fácil. A dor toma forma de uma estrutura rígida, escura, com cheiro indescritível, o humor comprometido e com a capacidade de amar ou de expressar o amor presa numa vivência de Prometeu. A aridez se associa as reclamações, queixas, insatisfações que não conseguem acessar a criatividade. Não há vida fluida.

Torna-se muito difícil libertar-se do sofrimento, nem sempre viver assim é uma opção, mas algumas é pela falta dela. Pela ausência de recursos suficientes para se ter coragem de enfrentar a si mesmo de outra forma.

Tornan-se solitárias, duras na forma de se relacionar e terminam não conseguindo ter muita tolerância consigo e com o outro. Talvez uma maneira de proteger-se de novas frustrações e de novas perdas. Afinal, se não vincula, não corre grandes riscos, mas também não tem a alma nutrida.

*

Outra forma de continuar a viver depois de sofrida a tortura manifesta-se, como tenho observado, por um sentimento de incômodo muito grande que toma a pessoa. É um reviver constante das mesmas histórias, como uma vivência de Sísifo.

Sísifo na mitologia, recebe um castigo, depois de demonstrar publicamente sua astúcia e rebeldia frente aos desígnios divinos, era um inconformado. Como punição foi condenado a empurrar uma pedra ladeira acima, precisando deixá-la no topo para cumprir sua tarefa e ser dela liberado. Mas esta era a questão. Toda vez que Sisifo chegava com a pedra bem perto de finalizar, ela rolava ladeira abaixo, e ele mais uma vez re-iniciava seu trabalho.

Sísifo não desistia, apesar de saber que era uma punição divina e por isso poderosa (como nosso regime militar) não desistia e fazia mais uma vez e outra o mesmo caminho, porém de forma diferente.

Sísifo embora estivesse preso a seu trajeto e à sua tarefa, na interpretação do mito que entendo mais significativa, o fazia de forma diferente. O mesmo trajeto, a mesma tarefa, mas sempre reiniciando a trajetória com a pedra. Assim constituindo aspectos novos desse homem constantemente. O novo se dá dentro do velho, do já conhecido.

Presas em suas histórias, em suas dores e feridas, no contar e re-contar foram agregando novas possibilidades para si mesmos, na mesma história. Mas continuam na dor, identificada com ela. Existem história de vida, do Sísifo-torturado, em que sua sobrevivência depende desse estar na dor.

Talvez tenhamos aqui uma das várias resultantes da tortura, a incapacidade de sentir-se com potencilal para fazer uma outra história, de ter outra vida, elaborar de forma antropófaga a experiência da tortura. Fica-se com um modelo já conhecido, que embora remeta a dor constantemente, se sabe qual é e como é. Uma aparente segurança.

*

Vejo ainda mais uma maneira de elaborar as feridas da tortura, da violência na vivência do centauro Quíron, que também está presente na constituição da vivência do ser psicólogo, quando re-conhecemos a dor daquele a quem acolhemos, falo aqui do arquétipo do curador ferido.

Neste grupo estão as pessoas que conheci e não se identificaram com suas próprias feridas, eles a reconheceram, entraram em contato de maneira profunda, se identificaram, mas não se prenderam, conseguem dialogar com a dor, enfrentá-la e re-existir com ela, nela e apesar dela. Não precisando permanecer vinculadas, nem negá-las, o que poderia facilitar uma experiência com seu oposto, o que poderia significar também permanecer na dor.

 

cecilia 2(foto de Elisabete Christofoletti)

 

Sim, mas e Cecília? Onde está nisso tudo? Vamos descobrir.

Tentei resgatar qual a imagem mais presente que tenho dela e tive muita dificuldade para selecionar, só então me dei conta que nunca consegui enxergar Cecília de uma forma predominante, apesar de quase monocromática ela era colorida e continua presente em minha vida até hoje.

Cecília deve ter sido uma moça muito bonita.

Quando a conheci já tinha a forma física, psíquica que os porões da tortura insistiram em dar a ela.

Seus cabelos eram longos, descuidados e ralos, divididos ao meio, sempre soltos, caídos, como se quisesse ou precisasse camuflar o rosto (para mim fruto da necessidade de se esconder, medo de ser vista, enxergada e reconhecida), seus olhos eram claros, que mesmo depois de tanta dor, de registrarem o pior do que o ser humano pode fazer que é agredir outro humano e com a consciência (e que consciência!) que tinha do que havia acontecido com ela, eram olhos que tinham na cor uma transparência e bonitos. Às vezes eles sorriam e mostravam a mocinha que nunca deixou de acreditar que poderíamos transformar o mundo, associada a maturidade dos anos de vida adulta que lhe davam tolerância para os mais jovens que buscavam formas de intervir, mudar a si mesmos, as relações próximas e o mundo. Mas não tinha tolerância com a mentira, com a violência, com a agressão, com o medo.

Este contato com os mais jovens, compreendo que dava a ela a esperança de viver novas e diferentes histórias, ela sabia ouvir, tinha interesse genuíno pelo que se dizia e pela pessoa que relatava. O contato com o novo dentro dela mesma era provocado, potencializado por esta proximidade literal com os mais jovens. Entendo que esta também era a função dos filhos de Olga (uma amiga), com os quais Cecília gostava muito de sair, levar para passear.

Os olhos também se escondiam atrás de óculos, agora fiquei em dúvida quanto aos óculos e não tenho nenhuma foto para checar, pois lembro-me de uma que foi tirada em sua chácara, mas não a encontrei, penso que Cecília nunca quis ser lembrada por fotos, mas pelo que dividiu conosco durante os anos de convivência.

Fotos! Não gostava de aparecer. Quem sabe medo de ser reconhecida, delatada, entregue, apartada das pessoas e dos sonhos que lhe foram tão caros.

Se nossos índios acreditavam que sua Alma ficaria retida, seria roubada, e eles seriam dissociados quando do feitio da foto, Cecília emocionalmente sentia-se desnudada ao ser fotografada, ficando vulnerável aos agressores, memória viva, sentida e lembrada em muitos momentos ao longo do dia.

Atitude esta, provocada pelo alto grau de policiamento no regime militar, onde não se podia correr o risco de deixar rastros, coisas que quem precisou fugir por conta da militância, ou ainda, quem sabe, Cecília, com a consciência que tinha, não suportava ver-se destruída também fisicamente, para não precisar reconhecer seu próprio corpo, que estava disforme. Era grande, sem forma definida, era uma gordura que parecia-me estar propositadamente  ali para continuar negando a ela outras possibilidades de identidade, como a de mulher vaidosa. A sensação era de que aquele corpo, aquela gordura que não modelava nenhuma forma, seja masculina, feminina, a defendia de algo, quem sabe de si mesma, da possibilidade de amar, do desejo.

Cecília teve um namorado durante a ditadura, nunca falou dele comigo, mas sabia. Esta foi mais uma história interrompida e utilizada para obrigá-la a delatar amigos de sonhos pela ideia de transformação.

Viu a pessoa que gostava ser torturado, no livro Brasil: nunca mais, Cecília é tida como uma pessoa que deu muito trabalho a seus torturadores, pois não delatou e foi a primeira pressa política a  relatar com detalhes o que se passava nas sessões de tortura.

Gritar ao mundo o que se passava nos porões da humanidade (parafraseando Carlos Mesters) poderia ser uma maneira de sentir-se menos impotente, menos frágil, menos solitária. O que não se tinha consciência, penso, era a atitude de preconceito, medo, das pessoas em deixar transparecer que partilhavam da dor de tantas Cecílias, não em sua história que é pessoal porque é coletiva, mas nas agressões, nas tantas ditaduras que nos impomos, dia após dia, a partir de nossas mediocridades.

Ela num movimento, instinto de sobrevivência, quando percebia que estava ultrapassando seu limite no  consumo de álcool interna-se para reorganizar-se e mesmo lá, como em todos os lugares, vivia suas crenças, fazia sua política, consciência para os enfermeiros e pacientes.

Esta para mim foi uma das várias posturas de Cecília que mostrava o quanto precisava, queria e era capaz de viver, foi uma pessoa provida de amor.

Vistia-se habitualmente um camisão e alça comprida. Seu rosto tinha uma forma arredondada e uma pele bem clara.

Cecília sempre sentava nos cantos, sempre à margem, tentando quem sabe não ficar em evidencia e com isso não sofrer as consequências diretas daqueles que ficam na linha de frente, isso ela já havia vivido, mas sempre estava presente em todas as ações que pudessem ser transformadoras.

Em certa ocasião, eu e Nilson estávamos em casa de Olga, uma amiga em comum e a melhor amiga de Cecília, que ajudava a dar continência a ela e ambas entendiam-se em suas dores. Precisávamos fazer um alfabeto em pequenos quadrados de madeira, com uma letra em cada um, para utilizar nos Círculos de Cultura, foi quando Cecília nos ensinou a usar seu pirógrafo e nos emprestou. Guardo essas letras até hoje, depois de terem sido manuseadas por tantas mãos bem vividas e cheias de histórias. Cecília sabia e precisava acreditar que nos ensinando a usar seu instrumento de escrita em madeira, nos deixaria habilitados para dar continuidade a um projeto que poderia ser agregado ao que ela era.

Anos mais tarde, Cecília nos presenteou brindando nosso casamento com dois trabalhos dela feito em madeira e marcados com o pirógrafo. As duas imagens evocam duas figuras completamente opostas: numa aparecia um cangaceiro com chapéu de couro e uma faca diante dos olhos apontando para frente, e outra, bem distinta mostrava um homem velho, bêbado, sentado com a cabeça pendida, sem mostrar o rosto e um dos braços apoiado na mesa, tendo como companhia um cachorro dormindo próximo a ele. Neste dia, Cecília, segurando a gravura do nordestino, nos disse que era isso que nos desejava, que tivéssemos coragem para viver nossa história e não nos tornarmos medíocres. Como sempre fazia, não assinou a gravura que fez, não deixou sua marca, não se identificou, apenas deixou sua memória.

Foi um presente lindo de casamento, ela soube celebrar, tornar sagrado o que estávamos vivendo. Para nós isso era um casamento, a fé, a alegria, o amor celebrado com os que nos eram tão caros, como Cecília.

Olhando para os dois desenhos, duas imagens de uma mesma Cecília. De uma lado a representação do cangaceiro, homem vinculado a terra, visceral, que utiliza de todos os seus recursos, para viabilizar seu projeto e acredita nas leis de seu grupo, de seu povo. Este é um aspecto forte que deixou Cecília vulnerável para ações como a dos torturadores.

A segunda imagem, pode representar, evocar esta Cecília que não suportando o contato com a realidade, busca através do álcool alterar a percepção dela, mas principalmente alterar a percepção de si própria.

Talvez Cecília soubesse que embora tenha tentando muito, porque ela gostava de viver, teve sua Alma ferida, porque Valia a Pena Viver, não tinha mais recursos para suportar o mundo.

Dois lados de uma mesma Cecília. Lutando e entregue.

Cecília, nunca perdeu sua crença na capacidade de amar e ela amava.

Tinha vários cachorros, todos mestiços. Quando ia à casa de Olga levava sempre um deles consigo e o deixava dentro do carro.

Ia com frequência. Apesar de seu medo de falar em público, geralmente percebido pela gagueira e confusão de idéias, Olga a ouvia muito, pois tinha sempre boas contribuições. Olga a pressionava para deixar o alto consumo de vodca, por vezes dizia que precisava que ela a ajudasse a levar os filhos para algum lugar, mas que não poderia confiar a segurança dos filhos a ela por conta do álcool. Cecília então ficava vários dias sem beber, pois gostava muito das crianças.

Esta questão da fala é importante ser lembrada. Seu discernimento, inteligência, maneira de organizar o pensamento era muito elaborado, mas expor-se sempre foi um problema razoável.

Era discrepante vê-la na cozinha da casa da Olga, enquanto esta trabalhava nas encomendas de pratos, Cecília falava, sorria, brigava com Olga quando se fazia necessário (independente da razão ser de uma ou de outra), e tantas e tantas vezes saia como se não fosse voltar nunca mais. Olga sabia que ela voltaria, mas sofria.

Foi uma vivência importantíssima do arquétipo do fraterno. Uma relação de irmandade, permeada pelo amor e cuidado.

Este acolhimento ajudava a Cecília encontrar seus recursos para continuar com dignidade.

A reação, de introversão, nas situações grupais, também poderia ser uma maneira de proteger-se, para passar desapercebida. Esta cicatriz de um certo “medo” de partilhar suas ideias, de tê-las que esconder é fruto da agressor da tortura. Creio que isso nos lembra que as cicatrizes que a agressão, o que a violência gera, não pode ser simplesmente apagada, mesmo com um pedido de desculpas. Já Marcou!

Foi em sua chácara que outro presente de nosso casamento foi tecido, ponto por ponto. Olga, nossa madrinha de casamento quis nos dar um presente que fosse feito por ela. Além de exímia cozinheira, teceu um tapete em crochê para nossa casa, e grande parte dele foi feito na chácara de Cecília, onde nos reuníamos para conversar, o que alegrava muito Cecília.

Alí era seu reduto, uma casa de portas e janelas sempre abertas, com pouca divisão interna. Tenho a lembrança de um tom azul claro nas paredes, com um pequeno portaozinho de madeira, típica casa de sítio. O chão de terra batida, na entrada, delimitava o termino da varanda.

A primeira vez que entrei, tive a sensação de uma volta ao tempo. Fiquei bem impressionada e demorei um pouco para entender. Tudo, tudo nos remetia ao estilo dos anos 60, o período antes da ditadura militar. As paredes carregavam quadros e fotos de Guevara, Fidel, Marx, a luta dos trabalhadores para se organizarem, a resistência dos estudantes frente a nova posição política.

Haviam arquivos de jornais, e recortes. Cecília tinha um grau de organização muito grande, e violão era visto hora em um lugar, ora em outro, porém sempre tocava quando estava só.

A medida que sigo falando sobre Cecília, sinto-me tão próxima dela e com saudades. Saudade dos encontros na casa de Olga, de olhar para ela e sentir que vale a pena.

Muito ficará aqui sem ser dito, permanecerá em minha memória, foi ativada evocada provocada nas conversas com Nilson para o feitio deste e trouxe o cheiro dos tempos de fraternidade.

Assim, divido com vocês a imagem abaixo, amor perfeito, para Cecília.

cecilia 3(foto de Elisabete Christofoletti)

 

Para conhecer um pouco melhor da história de Cecília:

http://www.memoriaviva.sp.gov.br/2011/07/13/cecilia-wetten-a-mulher-e-os-movimentos-sociais/

 

http://www.aphrioclaro.sp.gov.br/wp-content/uploads/2011/05/Descri%C3%A7%C3%A3o-do-Fundo-Cec%C3%ADlia-Wetten.pdf

 

http://www.aphrioclaro.sp.gov.br/wp-content/uploads/2011/05/Invent%C3%A1rio-do-Fundo-Cec%C3%ADlia-Wetten.pdf

 

para ver o livro completo onde o artigo está publicado, acessar: http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2013/12/VerdadeRevolucionariaFim.pdf

 

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