Reconhece a Queda e não Desanima … Jamais! – Elisabete Christofoletti

Reconhece a Queda e não Desanima … Jamais!

Elisabete Christofoletti

elisabete.christofoletti@gmail.com

 

Cena 1:

Minha Alma foi agraciada com um concerto num final de semana próximo.

O maestro João Carlos Martins, que tive a alegria de conhecer há anos atrás num desses encontros com os quais a vida nos presenteia, faz sua primeira apresentação, retornando a condição de pianista profissional, que em desejo e Alma nunca deixou de ser.

Pude ouvir, ficar com os olhos marejados e permitir que meus sentimentos aflorassem, quando vi aquele homem, no alto de seus tantos anos, entrar no palco da sala São Paulo e sentar-se ao piano. Lembrei-me de nosso breve encontro quando tinha dificuldades para segurar um copo e a caneta com a qual me fez uma bela dedicatória ao presentear-me com um livro.

O programa, para mim, foi uma profunda provocação.

Se não for traída pela memória, as peças foram: Mozart opus21 e 24 para piano, Piazzolla com Adiós Nonino e finalizando com o som solitário, profundo, firme, doce do oboé e do piano ao tocar Enio Morricone na imensidão do filme A Missão.

Os inter-textos na escolha das peças foram ganhando forma naquele instante perante meus olhos. Os batimentos cardíacos oscilavam entre uma orquestra de percussão e o silenciamento.

Meus inter-textos pessoais também gritavam durante o concerto até que me entreguei e fui tomada, enebriada, minh’alma transcendeu. Explodi como um vulcão em erupção.

Tomei parte, de um dos momentos mais bonitos da história de uma vida, do que podemos viver. E só é tão bonita assim, porque de alguma forma nos toca, nos provoca em nossa própria humanindade, nossa condição de Ser-humano.

Embora não possamos jamais falar pelo outro, e longe, muito longe dessa ser minha intenção, estas são mais do que minhas impressões, são meus sentimentos, minha pulsação.

Como cantou e nos faz refletir Paulo Vanzolini: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, Sacode a Poeira e dà a Volta por cima.”

Tomo a liberdade de acrescentar que reconhecer a queda (ou as quedas, tantas atitudes sombrias que facilmente podemos ter), não des-animar (ficar desprovido de anima, de Alma), então sim levantar (sacodir, sacolejar, rebolar, liberar o que está entrevado) a poeira (tudo que começa a cheirar a mofo, que nos torna pesados, opacos, com cores indiscriminadas), é o que possibilita a cada um de nós dar a volta por cima.

E como não sou “respeitadora” do já dito, agrego: dar a volta por cima só é possível ao integrar, antropofagiar a queda. Assim e só assim seremos fortes o suficiente para nos transformarmos.

Minha Alma mais uma vez foi tocada nesta noite.

Me senti viva.

Me senti pequena.

Me senti corajosa.

Me senti valente.

Me senti poderosa.

Me senti simples.

Me senti gente.

Me senti bonita.

Me senti tomada de Eros.

Me senti parte dionisíaca.

Me senti no caminho daquilo que sou, um passo a mais.

Quando terminou o concerto, só não aplaudi literalmente (porque em situações como essa me lembro de uma cena do filme: Planeta dos Macacos, onde um casal de cientistas macacos assistiam a um telejornal e respondiam ao boa noite dado pela jornalista), mas tive muita vontade de aplaudir, de dar uma forma conhecida ao vulcão em erupção. Estava Feliz.

 

Cena 2:

Dois dias depois, assisti a um filme “A Música Nunca Para”.

Mais uma vez os olhos marejaram e dessa vez foi pela capacidade de um homem, aqui no papel de pai, que ao reconhecer sua rigidez, ignorância na relação com o filho, pôde abrir-se então para suas possibilidades de transformação, movido pelo sentimento de culpa (inicialmente) e de re-tomada da capacidade de amar.

Justamente ao sentir-se provido de Eros, o vinculo com o filho e o que ambos têm em comum pode ser reconhecido.

Depara-se com um filho e sua memória comprometida em função de um tumor cerebral.

Na busca de acessar a memória, pai e filho se encontram na identidade entre ambos, que por sua vez somente pode ser enxergada, ativada, pela atitude segura e dura da mãe do jovem e esposa do senhor que se transforma, para poder acessar o filho que havia perdido, o próprio casamento que é reeditado e o encontro com sua humanidade.

Para ajudar o marido, esta mulher precisa primeiro se reconhecer como alguém que necessita encontrar seu caminho, reconhecer seus sonhos que ficaram para trás, os tantos silêncios que manteve para não correr o risco de errar e ferir, suas omissões consigo mesma, com o outro, na relação que mantinha com o marido e em nome do que comumente designamos de amor.

A crença de que podemos fazer uma história sempre diferente, que nunca sabemos ao certo onde chegaremos, mas com a certeza que precisamos sair da condição já conhecida, visitar lugares novos, ariscar, experimentar universos que nos provocam e deixar nossas verdades e certezas, é um carro-chefe.

Jung já dizia, que todo processo de análise precisa transformar a ambos. Eu acredito que toda relação honesta com a Alma, precisa transformar aos envolvidos.

Continuo cada dia mais, acreditando que ninguém morre de amor, mas morremos pela incapacidade de amar, por des-amor.

Ao sair de sua posição passiva, silenciosa, a esposa correu o risco do marido não suportar, de ela própria ter dado um passo sem retorno, já que palavras são como penas que soltas ao vento, jamais poderão ser de todo resgatada.

O marido e pai, olhou para si, reconheceu sua queda e somente assim pode enxergar a si, a esposa e o filho, naquilo que são, podendo encontrar uma fissura na memória desse filho e no amor da esposa “nova” (que acabara de encontrar novas razões para reeditar sua vida), para que ele também pudesse Viver.

 

Cena 3:

Lembrei-me de um texto de Ítala Nandi onde narra o dia em que o Teatro Oficina em São Paulo pegou fogo, em pleno anos sessenta.

Seu relato não é passional, é vivo, legítimo, coisa de quem está inteira na vivência, comprometida com a plenitude de Ser.

Ítala descreve o momento em que o teatro na rua jaceguai 520, está em chamas. Os atores, da companhia, de outros grupo, vão chegando e em desespero sentam-se com as mãos na cabeça no meio fio à frente do horror.

Choram pela cena protagonizada pelo fogo.

É um desespero e desalento, quando chega Zé Celso, que olha para o teatro, já quase inexistente, ainda em chamas e para aumentar a desolação das pessoas na sarjeta, Zé dá as costas e vai embora.

Volta para casa.

Na época, Zé morava perto, e em curto prazo retorna vestido em seu melhor terno, banhado, perfumado.

Os presentes não entendem nada.

Zé, chama então toda a imprensa presente e ele sabia que toda ela estava ali naquele momento. Entra no espaço tomado pela fumaça, restos de chamas e inicia naquele exato instante em rede nacional uma campanha pela reconstrução do teatro.

Mais uma vez tive meus olhos marejados.

 

Cena 4:

Em Porto Velho-RO, fevereiro de 2014 o rio madeira toma as ruas da cidade e as casas dos ribeirinhos.

Vejo um senhor muito feliz chegando de motor rabeta com a cabeceira de sua cama como se tivesse chego com um grande troféu.

Pergunto a ele como está.

Ele então diz: “Perdemos nossa casa, o que tínhamos dentro. Mas consegui salvar a guarda da cama e estamos todos vivos e juntos. Recomeçaremos.”

Meus olhos não ficaram marejados, mas minha alma mobilizada, em sintonia com este lugar sempre tão agredido, tão violentado, árido, não conseguiu tirar os olhos daquele senhor carregando sabe-se lá para qual abrigo uma parte de sua cama, um pedaço de sua casa, mas ele sabiamente compreendia: era só uma cama, eram só objetos. Todos estavam Vivos.

 

 

Cena 5:

Abro o computador que uso, olho para a tela em branco e busco palavras para expressar o que nunca conseguirei. Meus sentidos, todos, tentam encontrar imagens, palavras, sons, cheiros, uma forma de tatear o vivido.

Lembro-me de uma fala de Nietzsche que diz que só encontramos palavras para expressar o que já morreu em nosso coração e que de fato só vale à pena expressar o que não pode ser expresso.

Começo a desenhar esta imagem aqui, um dos tantos retratos que minh’ Alma tem. Escrevo, paro, penso, desenho, canto, toco, danço, apago tudo e o processo se reinicia, sempre por um novo caminho. Sempre re-começando, tentando expressar o que não pode ser expresso.

#psicologia#

#psicologia analítica#

#analytical psychology#

#arte#

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s