Psicologia Analítica Textual: possibilidades (narrativas) analíticas – Elisabete Christofoletti

 

Psicologia Analítica Textual: possibilidades (narrativas) analíticas

 

Elisabete Christofoletti

Analista Junguiana

elisabete.christofoletti@gmail.com

 

Em 1998, foram realizados os primeiros trabalhos onde Psicologia Analítica e História Oral trabalharam juntas.

O método proposto consiste basicamente na construção conjunta entre analista e analisando de uma narrativa escrita que será trabalhada continuamente dentro do setting analítico.

O espaço da análise possibilita, de forma protegida e segura, a narrativa da própria história, no contar e re-contar a si mesmo, na construção de uma narrativa que tornarse-a textualizada, buscando uma totalidade.

Inicialmente são gravadas uma série de sessões que componham uma unidade que serão transcritas e transcriadas de forma a incorporar a voz do analista, mantendo-se o ritmo da fala.

A transcriação, é o momento em que passamos da linguagem oral à escrita. É um processo de depuração. Destilamos a narrativa, que, textualizada, retorna ao analisando em sessões, sendo retomada e lida, no ritmo em que foi narrada inicialmente. Tanto analisando como analista podem intervir na leitura a qualquer momento, seja o analisando para esclarecer, não-dizer, alterrar sua narrativa, e o analista para trabalhar com os símbolos ali presentes.

É um processo em que como num fazer alquímico, trabalhamos o que foi relatado, repetindo, lendo e relendo. Como a criança que ao ver um filme, ou ouvir uma história, repete, repete, fixa-se em algumas cenas, repete a fala de personagens até o momento em que não mais é necessário. Algo foi antropofagicamente resolvido e pode-se passar para o próximo filme, história que dará início a uma nova mobilização.

Esta etapa de leitura do eu-narrativa-texto novamente é gravada, e todo o processo se repete tantas vezes quantas forem necessárias, para que o analisando sinta que aquela narrativa-texto, aquele texto é seu eu-texto.

Ao final, temos uma textualização em que a Alma permanece, evaporando, depois do fogo alquímico no qual foi aquecida durante as sessões de análise, sendo reconhecida pelo analisando que a toma com propriedade e consciência.

Esse é, em parte, o desafio aqui proposto: na narrativa dos mitos pessoais, o analisando tem a possibilidade de tomá-la textualizada, dando-lhe uma forma reconhecida por nossa cultura – a letra, a escrita – uma imagem de si próprio dentre tantas possíveis. Ao ficar com essa imagem, o analisando conecta-se, mergulhando verticalmente, tendo a chance de perceber que esse é um mito, uma possibilidade para sua existência, de que ali há a representação de um personagem com múltiplas possibilidades de desfechos e alternativas para sua vida.

Ao intervir na leitura de sua narrativa agora textualizada, o analisando pode narrá-lo novamente, pois ao ouvir-se (agora texto), pode sentir que precisa experimentar outras possibilidades narrativas, criar outros caminhos, outros desfechos para seu próprio texto, para seus próprios complexos, que num movimento antropófago, vai sendo acolhido (como narrativa-textualizada que é re-narrada), digerido e retorna sob a forma de outra narrativa, de outro texto. De outro eu-texto.

De forma protegida e segura, o espaço da análise permite ao analisando a experiência narrativa de sua própria história, facilitando a identificação de mitos pessoais à medida que se realiza este processo de contar e recontar para si mesmo sua narrativa. Ao ficar com as imagens, num processo de releitura de si mesmo, potencializa as chances de reconhecer um de seus mitos e que este pode ser lido como um arranjo significativo de sua existência, considerando que ali há a representação criativa de um personagem com múltiplas possibilidades de desenvolvimento e realização. Além de reconhecer-se neste personagem, aumentando sua autonomia, liberdade e intimidade consigo mesmo.

Ao ler as correspondências trocadas entre Jung e Freud, somos testemunhas do estabelecimento de um diálogo profícuo, observamos como a relação entre eles estava sendo construída, a metamorfose na maneira como se referiam um ao outro, da formalidade à manifestação do afeto intenso.

As angustias pelas quais eram cometidos no trabalho com a psique, consigo próprios, as diferenças na forma de conceber a psique, relações familiares, estado de humor, cuidado, zelo de um pelo outro, raiva, impaciência pela demora da resposta à carta anterior. Acompanhamos inclusive o anuncio da tragédia que se sucederia, entre ambos.

Jung estudou o teste de associação de palavras e o tempo de resposta, chegando ao conceito de complexo. O que ele diria se pudesse ter em mãos as cartas trocadas entre ele e Freud e observasse as datas em que foram escritas? A intensidade com que foram trocadas em determinado momento, e a distância em outros. Algumas eram respondidas sem a resposta anterior ter chegado; portanto, falando de si mesmo ao falar do outro e para o outro. Que leitura Jung faria dessas cartas se as considerasse como narrativas, como eu-texto?

A qualidade, profundidade, no texto e na apresentação do texto-conteúdo das cartas trocadas entre esses dois homens, a dinâmica estabelecida entre as correspondências, me remete à proposta que ponho em discussão sobre a Psicologia Analítica Textual, na qual vemos uma das possibilidades de Jung e Freud como texto, personagens de seus próprios textos, de suas interioridades.

Assim como as cartas trocadas ente Freud e Jung nos dão uma totalidade, este trabalho de Psicologia Analítica Textual, não tem uma preocupação biográfica, egóica; mas são narrativas que emanam da necessidade de uma interioridade a ser ouvida pela determinação do inconsciente.

Trata-se de um procedimento que permite o trabalho dentro de uma perspectiva simbólica junguiana, na qual o discurso é uma totalidade e o Self está lá, na textualização.

No espaço analítico, o analisando chega com uma imagem estabelecida a seu respeito, como algo natural, num jogo de palavras padronizadas muitas vezes estabelece teias, armadilhas difíceis de serem reconhecidas e rompidas, podendo ser transformadas em aprisionamentos nas próprias fixações, fazendo com que o si mesmo permaneça camuflado e obscuro, restando fragmentos de memórias, fragmentos de almas.

O texto, a palavra falada, como imagem são os símbolos vivos, que, textualizados, escritos, reescritos, na possibilidade de recompor as próprias narrativas, elabora, reelabora, incorpora, integra a imagem, o símbolo que ela carrega para uma transformação possível.

A Psicologia Analítica, com a Psicologia Analítica Textual como metodologia, abre a possibilidade de compreensão do sujeito como autor, criador de si e de seu mundo, com desejos, vontades, determinação e condições de tocar de forma consciente a vida, livrando-o de aprisionamentos, das fixações dos complexos.

Com essa metodologia, propomos que o analisando possa se reconhecer, sair do aprisionamento do discurso tantas vezes acomodado e surdo para a própria escuta, e nos distanciamos, permanecendo dentro para fazer a leitura do texto.

Desde que iniciei o primeiro trabalho na perspectiva de Psicologia Analítica Textual com Ana, outras pessoas passaram pelo mesmo processo.

Foram trabalhos utilizando somente sonhos como narrativas: uma portadora de transtorno bipolar relatando seus surtos psicóticos, uma pessoa com mutismo seletivo, além de outras pessoas em análise, como o caso de Ana. Nessas vivências, identifico uma aproximação e uma apropriação das próprias memórias, de fixações e complexos, reconhecendo o processo de transferência e contratransferência, tornando possível, através de uma experiência também lúdica, viabilizar, no recontar, readequar, a busca de alternativas, de desencadeamentos diferenciados, possíveis para os mesmos enredos.

Por fim, o que ora se apresenta é uma Psicologia que, se apropriando da narrativa, utiliza procedimentos da História Oral por meio da transcriação, alcançando um texto em que o analisando-personagem vivencia seus diferentes papéis e se reconhece neles, sem se aprisionar nas amarras e engodos de própria narrativa, repetidas dia após dia inconscientemente, e sorrateiramente determinando sua existência..

Ao narrar histórias, ritualizar nossas vivências, viver nossos mitos, reafirmamos nossa humanidade, lutando para que continue a fazer sentido.

O texto é a narrativa do mito pessoal, da possibilidade que o analisando tem de ser naquele período de vida o “eu” inconsciente que se realizou, fazendo a interface com si próprio. Apresenta-se como narrativa básica, arquetípica, que ajuda a pessoa a se organizar. Assim, o eu-texto é arquetípico e analítico.

No reconhecimento do mito, assim como na narrativa, a sina, o destino preestabelecido pode ser mudado. O analisando sente-se mais ativo, menos dependente do analista, trazendo para si, potencialmente, uma capacidade de transformação.

A textualização possibilita identificar os mitos pessoais, afinal, a análise tem como função investir na liberdade do analisando, na relação com seus próprios mitos, identificando os heróis, as sagas, para que não sejam simplesmente reproduzidas, repetidas como sina, seja em vidas severinas, seja de sísifos. A consciência do mito pode proporcionar mudanças no desenvolvimento da pessoa ou, ao menos, no estabelecimento de outra forma de relação, com o sofrimento que advém da vivência desse mito.

Essa é uma oportunidade de, justamente, estabelecer um novo presente a partir do passado, construindo um futuro.

Ganha-se a possibilidade de olhar a interioridade como expectador e como autor concomitantemente – na criação de um personagem –, escolher um destino como possibilidade e lhe dar forma, reconhecendo (o ego) o desejo e a possibilidade contidos na imagem do texto, fazendo a escuta do inconsciente que vem se mostrar.

Ao se apropriar da história de si mesmo acompanhado de um analista, integrando seu próprio processo, o analisando fica livre para exercitar, tornar e tomar o símbolo vivo no texto. É a psique viva, em sua forma plástica.

A presença do analista no processo busca oferecer a segurança, a contenção, sendo continente para o analisando. Cabe ainda ao analista ser catalisador, estimulador da narrativa do mito pessoal, da imagem, respeitando a autonomia do analisando. Seu papel é trazer à consciência a possibilidade do herói, os motivos pelos quais luta, suas sinas para que possa transcender e iniciar nova jornada.

O mito ali narrado e textualizado, um trecho da história de vida, vai sendo lido, relido pelo outro e no outro, em mim e no analista.

Do ponto de vista transferencial e contratransferencial, a textualização também é um espaço dessa expressão, na ansiedade, no incômodo, na dificuldade em transcrever e transcriar o texto. Houve uma situação em que a analisanda, Ana, falou que as interrupções do analista a incomodavam, pois vivia transferencialmente sua impotência em poder fazer mudanças em sua vida. A cada interferência que o analista fazia para mergulhar no texto, para ela, que acreditava no texto como possibilidade de desprendimento de sua vida anterior e abertura para novas possibilidades, “parar” era um problema e se irritar com o analista foi também uma forma de não reconhecer sua passividade perante sua história até aquele momento. Quando finalmente falou a respeito e interrompeu a leitura da textualização, sua vida já havia mudado.

A textualização estabelece o diálogo ego-inconsciente, no qual as rédeas (não controle) estão com o analisando. É metodologia de campo de apropriação, construindo pontes com a consciência. Como todo método, é preciso que haja ego suficiente para sua realização, administrando as angústias, receios, fantasias e medos.

Na imagem produzida pela Psicologia Analítica Textual na textualização, está a possibilidade de re-significar, no texto, na vida.

Ler um texto é voltar-se para sua interioridade. Interajo, e eu e o texto somos um só: desnudamos as fragilidades, dúvidas, alegrias, projetamos nas escolhas feitas para a suaconstrução, simbolizamos, unimos fragmentos do que nos constitui. O texto sou eu e faz a interface comigo mesma. Entro no texto, amplio, diminuo, me insiro em suas linhas, faço parte de todos os textos possíveis para a psique.

Na narrativa-texto e no processo, é possível reconhecer nossas projeções. O processo transferencial está ali exposto claramente. Empatizamos ou não, empatia com nosso interlocutor, identificamos o estado de humor pela escolha das palavras, a forma de escrita, a cor escolhida para o texto, o tempo de resposta entre os e-mails (lembremos do tempo das correspondências entre Freud e Jung), os aspectos sombrios, quando surge a imensa dificuldade de falar sobre algo, a vergonha da narrativa-texto, as resistências (quando, por exemplo, um e-mail pronto para ser enviado fica por dias, na caixa de saída e a pessoa tem certeza que o enviou), a raiva, o acolhimento… Cada pessoa tem uma forma de estabelecer sua própria narrativa-texto, como temos nossa impressão digital que é única, não conseguimos imitar ou simular.

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