Educação e Ousadia – Nilson Santos

EDUCAÇÃO E OUSADIA

 

Nilson Santos

Professor de Filosofia e História da Educação/UNIR

E-mail: nilson@unir.br

 

A década de 60 representa para a Escola Nova uma interrupção abrupta no que tange ao seu apogeu e esgotamento, pois o Golpe Militar de 64 pretendia representar o fim do debate pedagógico, ao instalar o tecnicismo como pedagogia oficial. Portanto a agonia do Regime propiciou o rompimento da padronização imposta na educação e o retorno do debate pedagógico fundamental à inteligência, e, por conseguinte, supérfluo ao imaginário burocrático-militar.

A década de 80 parecia representar para o Estado, o início do fim dos modelos autoritário e burocrático, revividos nos anos atuais sem a truculência da ditadura, mas impregnada de prepotência e tecnicismos.

As políticas públicas da época desgastadas pelo clientelismo, pelo favorecimento ilícito, pela incompetência, pelos megaprojetos, que trouxeram mais problemas que soluções, somadas à crise do petróleo e ao fim do milagre econômico mantido com empréstimos do exterior, obriga o governo a fazer concessões, a permitir uma maior participação da sociedade civil nos destinos do país.

Neste período, muitos setores da sociedade organizada pressionavam. Se por um lado temos o governo exaurido de projetos de qualidade, de poder político e econômico, mergulhado numa “escola” de corrupção acobertada pelos militares (cujos “alunos” mais aplicados aparecem diariamente nos jornais), por outro temos a sociedade civil disputando o loteamento dos espaços existentes, fracionando o poder político através da eleição de lideranças mais democráticas, ao menos ampliando o poder da fala e da contestação, diminuindo a distância entre Estado e Sociedade, poder e povo.

A educação militarizada tem um comportamento semelhante. A proposta tecnicista imposta por militares de competência duvidosa, pedagogos iludidos com o poder, e advogados (que dispensam adjetivos) dedicados a legislação do ensino, trouxe muito mais desvios que resultados satisfatórios: a febre legiferante criou uma teia de leis que buscava modelar a atuação do professor (chegando ao absurdo de “sugerir” a roupa que deveria usar) retirando-lhe a autoridade e a dignidade (o professor da famigerada disciplina de Educação Moral e Cívica só estaria habilitado se conseguisse atestado de “bons antecedentes” na delegacia mais próxima, ou seja somente os mais alienados ou os cães de guarda do regime estariam aptos).

Tudo o que não estivesse de acordo com a tecnocracia era ilegal. Este modelo de ensino revelou a incapacidade de lidar com o ensino ou a efetiva despreocupação com ele, uma vez que foram criados diversos cursos profissionalizantes com a ausência de laboratórios (ou quando existentes, os equipamentos eram obsoletos), com falta de professores capacitados, ou ainda cursos incompatíveis com a região. A capacidade criativa é banida, pois, oficialmente o que não nascia do poder era subversão a ele.

É a partir desse sistema desmantelado, que surgem discussões, buscando recuperar o tempo perdido. O debate pedagógico reaparece com vigor, deixando de ficar restrito ao ambiente universitário.

Neste instante retoma-se a discussão acerca da volta do ensino da Filosofia no 2º grau. Surge, em 1984, a Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas – SEAF; em 1985 acontece o I Encontro Estadual de Professores de Filosofia em Santos – SP. O Departamento de Filosofia da USP começa a se preocupar em organizar cursos de reciclagem para os profissionais atuarem no 2º grau, já que durante o militarismo sua atuação se restringiu ao ensino de Filosofia nas Universidades e nos Seminários Religiosos.

Dentro deste contexto de desconfiança no passado, confiança hipotética no futuro e incertezas no presente, a Filosofia renasce para as escolas públicas de 2º grau. Nos debates que se sucederam algumas instituições de renome como USP, PUC-SP e PUCCAMP, se agregam defendendo a volta da Filosofia no 2º.

As preocupações e os cuidados neste momento são redobrados, afinal deixava-se o “fim do túnel” e eram sentidas ações que buscavam mergulhar novamente o país na linha dura; como a explosão de duas bombas no dia 30 de abril de 1981, num show comemorativo ao Dia do Trabalho, onde morreram dois membros do exército, além da forte recessão e o alto índice de desemprego destes anos girando em torno de 28,4%, alimentando as incertezas e as avaliações mais pessimistas.

Dentro deste contexto chega ao Brasil o Programa de Filosofia Para Crianças, surgindo o Centro Brasileiro de Filosofia Para Crianças – CBFC, fazendo nascer a mais bem estruturada proposta não governamental de educação reflexiva, voltada para crianças da História da Educação Brasileira.

O grande desafio dos promotores do Programa, no Brasil, parecia ser primeiramente a resistência que os educadores e filósofos brasileiros mantinham com o que “vinha de fora”, especialmente dos EUA.

E não era por menos. Os acordos MEC-USAID destruíram grande parte do potencial crítico e criativo da universidade; chegando nos dias de hoje onde os cursos são cada vez mais técnicos e menos reflexivos.

O Programa de Filosofia Para Crianças surgia na contra-mão do momento de auto-afirmação da sociedade civil brasileira. Porém, a persistência e a ousadia tornaram evidentes os propósitos dele preocupados em discutir temas de conteúdo existenciais fundamentais ao homem do nosso tempo, garantindo às crianças, desde tenra idade, a possibilidade de buscar bases significativas para a vida, buscando respostas para perguntas que os adultos há muito deixaram de fazer: VIVER PARA QUE?

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