30 anos e uma fotografia – Elisabete Christofoletti

30 ANOS E UMA FOTOGRAFIA

 pela lente de Elisabete Christofoletti

 

tenho um profundo interesse pela humanidade das pessoas e penso, que isso reflete na lente da maquina fotográfica quando enxergo através dela.

caminhava pelas ruas em busca de imagens de afeto, ternura, amor. quando sinto um cheiro muito forte de pastel. era uma pastelaria típica paulistana com caldo de cana e na calçada três banquinhos de plástico, iguais ao de dentro do pequeno estabelecimento.

vejo um Casal sentado nos banquinhos.

a mulher percebo que não me vê, mas o homem me acompanha com o olhar, fato que determina minha atitude, de apesar da vontade imensa em fazer uma foto, seguir adiante.

havia perdido o “time” para “Roubar” o retrato.

vou até a esquina, ainda carregando o cheiro da fritura de pastel. o mesmo cheiro que sentia nas feiras durante minha infância, a única situação que me deixava feliz por não ter aula muito ocasionalmente.

os professores do colégio se reuniam em quintas feiras, o dia da feira próxima a casa de meus pais.

para lá ia acompanhando minha mãe, que depois da compra das verduras, das sardinhas frescas, que eram maravilhosamente preparadas por ela ou pela nona quando chegávamos em casa. também era roteiro da feira passarmos na casa da Dona Berta, a benzedeira do bairro. finalmente comíamos um pastel com um garapa. o de minha mãe era de queijo ou carne e o meu sempre de palmito.

cheiro de afeto, de um momento bom com a mãe.

bem, retornando ao meu retrato já perdido…

chego na esquina e volto, olho para a cena do casal sentado e o homem me encara, ando um pouco mais dou volta, passo por eles e chego a esquina novamente. oportunidade perdida na surpresa da cena tão forte. havia algo nela de proibido, largado. novamente volto, passo pelo casal, caminho mais um pouco e volto. entre idas e vindas, somavam-se três.

tomo a decisão, vou falar com eles, já que havia perdido a entrada na cena.

permissão pedida para uma foto, um retrato deles.

(silêncio)

explico que havia passado por ali, que os havia visto sentados. um casal em torno de 60 anos. ela em uma postura “permanecendo” em seu lugar, enquanto ele está jogado se recostando no corpo da mulher, braço em torno do pescoço dela, caindo pelo peito, meio largado, com a outra mão apoiando no terceiro banquinho na calçada.

ela de cabelo pintado de loiro, bem arrumado, curto com franja na lateral, blusa vermelha, calça marrom, com colar no pescoço. Uma senhorinha da imaginação de qualquer um. ele camisa listrada meio aberta deixando o peito aparecer com uma corrente no pescoço. cabelos brancos, um pouco de calvice. no terceiro banquinho uma bolsa, provavelmente a dela. ambos arrumados, bonitos, perfumados. parecia um encontro.

bem, a resposta à meu pedido de fotografia foi complicado.

ambos se olharam, ela demonstrou vontade, mas ele muito reticente.

fizeram comentários daqueles que só o próprio casal compreende e ela aparentando ter ganho a decisão insiste em me perguntar se teriam que pegar. creio que a desconfiança veio porque a máquina fotográfica era um pouco maior que o habitual, provavelmente, além da importância daquele retrato, isso não poderia mesmo sem “sem pagar nada”.

depois de várias perguntas sobre a desconfiança de terem que pagar algo, concordam.

nestes momentos sempre tenho a impressão que a máquina me trai. A foto não sai tão bonita como a cena que eu vira e sentia.

mas ela pede um tempo e começa a arrumá-lo. peço que não faça isso, pois estavam tão bonitos na posição e na forma como os vira. mesmo assim ela me pergunta se está bem, se seu cabelo está bom. digo que sim e partimos para o retrato.

mostro o resultado no visor da máquina e noto a alegria dela e a atitude meio largada dele.

pergunto então se eles não gostariam que eu enviasse a foto pelo correio, ela toma um susto: surpresa, e mais uma vez se preocupa muito se não vou cobrar isso deles. insito que não. que eles me deram a possibilidade da foto, nada mais justo que enviar uma cópia a eles. pois tenho fotografado casais, pessoas demonstrando carinho, amor, namorando e tive muito prazer em fotografá-los.

o incômodo entre eles para decidirem se queriam a foto ou não era mais evidente, mas do que a decisão pela permissão. achei aquilo muito estranho.

com uma pequeno aval dele, ela tomou a decisão e aceitou.

quando fui anotar o endereço para envio, ele perguntou para onde iria enviar a foto e ela prontamente respondeu para casa e ele disse, qual casa?

assistia a cena que comecei a imaginar o que seria.

ela disse a ele: para minha casa.

endereço anotado, compreendi.

Eles são amantes há mais de trinta anos. nunca haviam feito uma foto juntos, aquela fora a primeira.

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Um pensamento sobre “30 anos e uma fotografia – Elisabete Christofoletti

  1. Eita Bete, se a máquina te trai as vezes, sua intuição e determinação são fies escudeiras…rsrs
    Imagem texto puramente humano. Adorei!!
    Acredita que fiz algo parecido nas férias também, mas foi com fotos das férias e poesia, chamei de “os sorrisos dos encontros”. beijo

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