Notas Sobre a Função Fraternal – por Gustavo Barcellos

da net em 08.03.2015: http://www.rubedo.psc.br/08outrub/funfrate.html

NOTAS SOBRE A FUNÇÃO FRATERNAL1

Gustavo Barcellos2

A alma tem um Logos que se aumenta a si mesmo.
Heráclito, fragmento 115

À minha irmã, Adriana, que ajudou a escrever essas notas dentro de mim.

Este texto, aqui reproduzido com a expressa autorização do autor, faz parte do livro Vôos & Raízes: ensaios sobre psicologia arquetípica, imaginação e arte. Cliqueaqui para obter mais informações sobre o livro. A Rubedo agradece ao autor pela autorização dada.

Fraternidade: fraternidades, confrarias, confraternizações, associações, sociedades, irmandades, clubes, clãs, parcerias, camaradagens, ligas, agrupamentos, agremiações, grêmios, comunidades, thiasos. Laços de sangue, pactos de sangue. Seitas, sectarismo. Rivalidade entre irmãos, briga de irmãos. No dicionário, fraternidade, substantivo feminino, tem os sentidos de 1. parentesco de irmãos, irmandade; 2. amor ao próximo, fraternização; 3. união ou convivência como de irmãos (grifo meu). Fraterno, ou fraternal, o adjetivo, traz o sentido de afetuoso, ou seja, cheio de afetos. Fraterno: irmão, amigo, sócio, associado, ‘mano,’ camarada, colega, semelhante.

Como “função fraternal” não só evoco meu tema, invoco nossa imaginação, convoco nossa alma mas, já de início, provoco sugerindo que o semelhante, o “irmão”, tem um impacto estruturante/desestruturante, ou ainda, necessário na constituição da individualidade — ou, naquilo que nós junguianos chamamos mais amplamente de individuação. Se assim for, então a imagem psíquica, ou o símbolo do “irmão” funciona, e funciona de uma determinada maneira, com um fim determinado pela alma. Aqui, sigo o sentido que deu Jung ao termofunção como um processo no tempo que age, opera, realiza. Como função, entretanto, designamos, nós arquetipalistas, algo que opera lastreado por uma instância supra-pessoal, ou seja, por uma arché, um princípio primeiro — melhor dizendo, por uma realidade arquetípica ou um arquétipo, a saber, a fratria.

Fratria, no dicionário: na Grécia antiga, cada um dos grupos em que se subdividiam as tribos atenienses, ou seja, grupo de clãs que apresentam características similares. A similaridade constrói a diferença. Num nível arquetípico somos lançados no logos das noções de semelhança e diferença. A noção de fratria devolve-nos para o nível arquetípico das relações de mutualidade horizontal: a fraternidade, o irmão de alma.

O declínio ou o enfraquecimento da imagem arquetípica do Pai no imaginário das sociedades contemporâneas, o pai ausente da cultura enfrenta, na psicologia, a enorme e pervasiva presença do arquétipo da Mãe em suas teorias e práticas. Nossa psicologia arquetípica tem mostrado isto em sua reflexão sobre a própria Psicologia. “Quando o pai é ausente, caímos mais prontamente nos braços da mãe,” já observou James Hillman, noLivro do Puer. A Mãe está por toda parte. As primeiras formulações da teoria junguiana têm a ver com imaginar o desenvolvimento da personalidade através das lentes da grande metáfora da batalha do herói contra a sedução do dragão da matéria — onde matéria, mãe e inconsciente se equivalem. Naturalmente, mais tarde a alquimia perturbou e redesenhou este quadro para Jung. Mas a ela, à Mãe, ainda hoje pertencem as noções de cura, desenvolvimento, evolução e crescimento, adaptação, inconsciente. Sucumbir a ela, comopuer, ou vencê-la, como herói, são alternativas da alma em desamparo — e facetas individuais, em nossa cultura, da relação matéria/espírito.

Ao eleger o arquétipo fraterno como tema, indico a necessidade de escapar do maternalismo e do paternalismo, já por demais presentes e explorados em nosso imaginário psicológico. Quero chamar a atenção para a diversidade das relações de horizontalidade — cujo primeiro paradigma subjetivo se constitui no irmão — e sua função na individuação. Isso sugere uma reflexão onde a perspectiva familiar hierárquica ou vertical da relação pais-filhos aos poucos dá lugar, no campo transferencial, a uma perspectiva mais equalizada entre irmãos-irmãs: significa imaginar a clínica como um trabalho que consiga constelar as transferências horizontais da fraternidade. Isso também significará sofisticar as noções da ‘semelhança na diferença’ nos laços sociais e políticos. Penso que aqui a psicologia também tem que acompanhar o movimento que se detecta em outras artes e ciências: a atual busca do paradigma da fraternidade. A psicanálise — e seu trio paterno Freud, Adler e Jung — abriu o século psicológico passado com o foco nas relações parentais. Esse modelo começa a ser criticado e revisto. A transição para o novo milênio pode abrir o século XXI trazendo como tarefa o foco nas relações fraternas.

A radicalização da idéia de fratria mexe de forma contundente na nossa prática clínica, especialmente no que toca as questões transferenciais, mas também em nosso amor pelo mundo. É cada vez mais nítida a presença do arquétipo fraterno, sua necessidade e sua atuação, igualmente no campo social, onde as ações institucionalizadas do Estado (especialmente na América Latina) dão crescentemente lugar às ações mais significativas e cada vez mais importantes das diversas solidariedades, por exemplo na proliferação e no trabalho das ONGs nos mais variados planos da vida pública e da experiência humana comum. Também a psicologia, e sua prática, caminha, ainda que pouco se perceba, para um novo paradigma. A resistência a esse caminho marca uma prática fadada a esgotar-se, como vai-se esgotando o primeiro século patriarcal da psicanálise. Esse novo paradigma, acredito, tem a ver com o arquétipo fraterno.

No entanto, os anos de estudo dedicados a compreender os temas que mais me instigam na psicologia junguiana, permitindo acrescentar a ela o aprofundamento que traz a perspectiva da Psicologia Arquetípica, fizeram-me sensível para a grande lacuna, a ausência quase total de imagens, na literatura e na prática, do aparato teórico — aparato imaginário — que poderia fazer com que se reconhecesse e se entendesse, em toda sua realidade, a importância, o impacto das relações horizontais fraternas não hierarquizadas no trabalho diário da psique, quer seja no plano individual, quer seja no coletivo. Uma afirmação, no entanto, de James Hillman no Mito da Análise, de 1972, em nota de roda-pé, apontava nessa direção, e hoje motiva este trabalho:

onde o interesse pela alma for soberano, um relacionamento assume mais a natureza do par irmão-irmã. Compare a soror na alquimia, e as denominações de ‘Irmão’ e ‘Irmã’ nas sociedades religiosas. (…) As implicações do problema familiar para a psicoterapia são óbvias: se o objetivo é fazer alma, então a igualdade da relação irmão-irmã deve ser soberana, caso contrário eros e psique não podem constelar. Paternalismo e maternalismo tornam-se clinicamente doentios, se o alvo é fazer alma.”3

Porém, a riqueza de imagens está lá, nos mitos, nos contos-de-fada, nas histórias, na literatura, na clínica.

Castor e Pólux, Remo e Rômulo, Cain e Abel, Esaú e Jacó, Gilgamesh e Enkidu, Exú e Ogun, Apolo e Ártemis, Zeus e Hera, Osiris e Set, Antígona, Ifigênia e Eletra, as irmãs de Psiquê, a constelação e o signo de Gêmeos, a terceira Casa zodiacal: o território dos irmãos. Muito amplo nosso tema. Tenho, contudo, neste momento, apenas algumas perguntas, especulações incompletas, um livre pensar, livre perguntar, que passo então a formular.

1. Em primeiro lugar, a primeira pergunta, talvez a mais crucial: qual então o verdadeiro impacto da função fraternal, constelada pela aparição simbólica do irmão, na individuação — esteja este irmão determinado literalmente por um laço de sangue ou não? Como esse irmão de alma — que é mais que simplesmente o Outro, um estranho, a Sombra, o outro-sombreado — pode determinar, influenciar ou desenhar a maturação de minha individualidade e de minha ação no mundo? Quero pensar que o irmão, como o Outro significativo, define, em níveis mais avançados do que aqueles do influxo de pai e mãe, meu estar no mundo, meu amor pelo mundo. Como, então, fazer-se sensível para estes níveis no trabalho da alma e no trabalho com a alma? Como diferenciar um arquétipo como este, o da Fratria, em seus aspectos formadores e deformadores? E isto a ponto de poder compreender o indivíduo a partir dele — de sua chave no corpo psíquico e no corpo político — sem novamente cair nos braços da Mãe e nas preocupações da origem?

Talvez, especulo, o impacto do irmão, a partir de uma perspectiva arquetípica, vá além do que já se formulou como a projeção da Sombra, projeção da vida não-vivida: temas de conflito, oposição ou complementaridade, que muitas vezes explicam a discórdia fraternal que está na origem mitológica de tantas civilizações — rivalidade fraternal aqui, também, como um tema arquetípico. Vá além, também, da intercambialidade psicodinâmica contrassexual de anima e animus projetados, especialmente no par irmão-irmã, onde a irmã é uma imagem potente para o homem adulto, reconectando-o com seu mundo interno de sentimentos de uma forma menos ameaçadora do que a imagem da Mãe.

Vá além, continuo, e se traduza, esse “impacto do irmão,” mais profundamente, mais precisamente, na experiência de assimilação e apreciação da diversidade. A primeira e fundadora experiência da diversidade, da semelhança na diferença, instaurada pela entrada em cena do irmão (novamente, seja através de um laço de sangue, seja através de um laço de amizade), será importante exatamente na medida que permite relativizar a identificação monoteísta com o modelo da autoridade paterna, lançando-nos no campo politeísta das relações que permite a livre circulação entre singularidades éticas válidas, singularidades estas que fundam a própria idéia junguiana de individuação — ou seja, diferenciação.

Esse Outro-irmão de que estou falando — o semelhante que não é igual, mas é um par (e serão, mais tarde, os pares, os muitos Outros) — é um outro que, precisamente, divide comigo a mesma origem. Aqueles, ou aquilo (enquanto princípios), que paternalizam e maternalizam esse outro são os mesmos que paternalizam e maternalizam a mim. E, no entanto, ele é diferente. Não seria essa, para a alma, uma iniciação à diversidade em sua forma mais próxima? Essa iniciação desdobra-se, acredito, nos compromissos entre os pares, o acordo entre os irmãos, o pacto civilizatório; ou seja, talvez naquilo a que chamamos ética.

Como arquétipo, naturalmente a fratria está além da experiência literal com irmãos e irmãs; e, tanto na presença, quanto na ausência destes (o filho único), a fratria, o irmão de alma, assim como os arquétipos de Pai e Mãe, tende a desdobrar-se tonalizando outros relacionamentos em nossa vida adulta. A fratria, arquetipicamente falando, é também a matriz da philia como sentimento — exatamente o que nos permite entender os laços de amizade eletiva como laços fraternos, laços que, em última instância, se inscrevem dentro da lógica desse arquétipo. Assim, o arquétipo da fratria parece ser um campo mais amplo de atualizações de experiências afetivas, onde entram os amigos mais íntimos, os quais, tantas vezes, chamamos de “irmãos.”

No entanto, o relacionamento com o irmão de sangue tem a particularidade de algo que está dado com o destino, que está destinado. Ele é permanente e não é um vínculo de dependência, como com pai e mãe; e não é escolhido, não é de eleição, como são as melhores amizades. O relacionamento com o irmão constrói a fundação emocional para outros relacionamentos horizontais de intimidade que estabelecemos na vida adulta, o que traz para a individuação muitas vezes a dura tarefa de re-constituir ou re-elaborar as relações com nossos irmãos e irmãs. Neste nível, é com eles que aprendemos a nos relacionar. Quando interrogado, contudo, o laço com os irmãos é quase sempre problemático, ou negligenciado. Em nenhum outro relacionamento os paradoxos emocionais de intimidade e distância, longe e perto, igual e diferente estão, como categorias, tão ardentes, tão aparentes. Os irmãos guardam nossa memória, são testemunhas de nossas vidas, tantas vezes presentes em nosso nascimento e em nossa morte — uma relação, talvez a única, potencialmente da vida toda. Com eles dividimos nossos anos de formação. Em outras palavras, os irmãos são familiares, e isto talvez seja o mais importante: eles são o que torna possível para nós tornarmo-nos familiares de algo, de alguém, de alguma coisa; familiarizados, íntimos, conhecidos e conhecedores, relacionados.

2. Penso, em segundo lugar, que devemos também um esforço no sentido de libertar nossas noções de fraternidade primeiramente de sua raiz mais recente no ideário da Revolução Francesa, onde a tríade liberdade-igualdade-fraternidade foi elaborada como a primeira expressão do anseio pelo ultrapassamento do Pai como paradigma das relações e da autoridade no mundo moderno da cultura: o regicídio, a recusa da imago paterna, a orfandade revolucionária que ruma aos irmãos como tarefa, arquetipicamente.

E, também, libertar a fraternidade da tradição cristã, mais antiga no tempo, mais funda na alma. Esta notoriamente absorveu a idéia de fraternidade para um ambiente monoteísta, ligando-a, como sabemos, principalmente à noção de caridade. Não é disso que estamos querendo falar. A fratria, como qualquer arquétipo, está sujeita a absorções ideológicas históricas; mas aqui precisamos, mais que nunca, enxergar através: a fratria como arquétipo é uma possibilidade e um estado da alma; novamente, uma função na alma que, se encarada psicologicamente, será complexa pela própria natureza, lançando-nos aos desafios plurais da comunidade democrática e da convivência horizontal, seja num plano externo (diríamos, político), seja num interno. Podemos encarar a noção cristã de fraternidade como um exercício na arché da Fratria.

Acredito que precisamos constituir um sentido psicológico para esta palavra, pensando-a através de seu viés arquetípico, onde fraternidade aponta, nos limites, tanto para a aceitação radical da diferença, quanto para o rechaço paranóico do outro.

3. Outra especulação livre: estariam os ocidentais mais arquetipicamente vocacionados para a fraternidade, para a aparição e o desenvolvimento das relações de fraternidade no cultivo da alma, também pelo que se percebe de sua lógica psíquica, assim como ela está refletida na lógica da escrita, uma vez que nas línguas ocidentais as frases são escritas horizontalmente? Escreve-se da esquerda para a direita, como faço agora — ao passo que nas línguas orientais (a chinesa e a japonesa, por exemplo) a escrita faz-se de cima para baixo. Há alguma relação entre essa horizontalidade, essa paixão pelos horizontes, essa vocação para o infinito da horizontalidade na busca da alma por profundidade e nosso aquariano tema, o arquétipo fraterno?

4. Como pensar, ou re-pensar, a questão da autoridade num panorama entre irmãos? Que autoridade é esta que poderia ser exercida sem um investimento na figura do Pai? É possível exercer autoridade sem o investimento arquetípico da figura do Pai? Que autoridade então é esta? Teria ela mais a ver com autoria e, então, com um autorizar-se? Aqui teríamos um autorizar-se que não significa mais a introjeção do Pai, não seria mais imaginado dessa forma, como na formulação junguiana clássica: a ativação interna do Pai arquetípico, banhado, naturalmente, no pai histórico, no complexo do Pai, complexo paterno, nas complexidades do paterno, da autoridade complexa — amplexo paternal. Aqui, estaríamos autorizados a nos autorizar. Para a individualidade moderna isto significaria o resgate do Pai agora como dis-função, algo que não funciona mais de acordo com as necessidades da alma ou, aquilo a que os freudianos se referem como o assassinato do Pai da horda primeva, para a constituição de uma ordem entre irmãos.

5. Devemos ter em mente que nas origens da psicologia profunda e da psicanálise está Freud — Pai da Psicanálise — escolhendo Édipo (ou seria Édipo escolhendo Freud?), Édipo como o paradigma supremo da subjetividade, a chave da alma, o código do ser; e que, ao escolhê-lo, Freud enfatizou miticamente o patricídio, o patricídio mítico, e com ele a família hierárquica, ou a hierarquia da família, família como hierarquia, a paternidade. Com Freud embarcamos incestuosamente no romance familiar para a compreensão da alma humana, prendendo-a assim a uma psico-dramática das origens — o que não deixa, em si, de ser um movimento mitológico, mitologizante.

E mesmo que James Hillman, num ensaio da maior importância (“Édipo Revisitado”, de 1987), alerte-nos para o que de fato está em jogo, em cena no Édipo — ou seja,infanticídio, não patricídio, pois aquele desejo de matar o filho vem antes e determina toda a ação trágica — ele está apenas revertendo os vetores: continuamos tragicamente envolvidos na maldição do circo/teatro vertical familiar para o deciframento da profundidade psíquica. Não há lugar para os irmãos.

6. Agora, a questão da transferência. Compreendo que o anseio, por parte da maioria dos pacientes em análise, por uma transferência de caráter paternal/maternal, e sua confirmação, é instalado e, mais ainda, reforçado pelos próprios métodos da análise que, em si, como nos ensinou Hillman, perpetuam o Édipo e a família vertical, perpetuam a Mãe, as preocupações com a origem e a ênfase no auto-conhecimento. Não serão essas transferências — ou seja, esses anseios de amor, essas carências de alma, esses retratos de desamparo e abandono — até instigadas ou mesmo produzidas, então, pelo próprio método, pelo modo como entramos nas relações analíticas? Mesmo que num settingjunguiano — onde, a princípio, e por princípio, os parceiros analíticos estão posicionados simetricamente no espaço (ainda que não no tempo), dispostos na posição mútua do diálogo, e dispostos para a posição mútua do diálogo? Por que então não se dão olhos e importância suficientes, entre nós analistas junguianos, para a percepção do aparecimento, do desenrolar e, principalmente, da função das transferências fraternas, de mutualidade, na análise? Será que ainda não entendemos Jung? Se permanecemos no método, permanecemos paternalistas, e nos defendemos do Irmão.

A questão, em outras palavras, seria: como nos fazermos sensíveis, nós terapeutas, para uma conexão baseada neste nível arquetípico, na lógica da fraternidade? Se entro numa relação analítica neste nível, o que constelo? O que provoco, o que descubro, o que posso ver, o que mudo em mim e no outro? Quantas transferências necessárias, de caráter essencialmente fraterno, são abandonadas ou não percebidas, ou vistas como resistências e, portanto, desperdiçadas, em razão de nosso próprio método?

Quando na teoria da psicologia se fala em Família, se fala familiarmente, quase sempre está se referindo à dramática das relações pai/mãe/filhos; nunca são explorados, como poderiam ser, os vínculos dos irmãos, e “família” nunca é imaginada ou pensada através da importância, estruturante ou desestruturante, desses vínculos. Todos os enredos que fazem parte das relações dos irmãos ficam em segundo plano quando se busca entender profundamente comportamento, relacionamentos, emoções, reações, patologias, diagnósticos, linguagem, sonhos. O próprio Jung dedica apenas 15 linhas em suas memórias para falar de sua única irmã mais nova, sem sequer citar seu nome, Gertrud, acabando por afirmar que ela “foi sempre uma estranha para mim”;4 e não menciona duas irmãs natimortas antes dele, e um irmão, Paul, que viveu apenas cinco dias, e que o precedia imediatamente. Que impacto essas irmãs poderiam ter tido sobre ele com relação ao mistério do feminino, ou o feminino misterioso e desconhecido, e em sua teoria, desde os experimentos com sua enigmática prima Helene Preiswerk, até as formulações mais avançadas sobre a anima e a soror mystica, é um dos argumentos do brilhante livro de Brian Clark, The Sibling Constellation.

Qual, então, o significado mais profundo, e as reverberações emocionais em outros laços, da briga e da rivalidade entre irmãos, do amor e da lealdade entre irmãos, do silêncio entre irmãos, irmãos que deixam de se falar? E da traição, ciúmes, competição, paranóia, colaboração, amizade entre irmãos, sociedade entre irmãos? Da dificuldade, muitas vezes impossibilidade, de se manter vínculos próximos, de sustentar intimidade e diferença, especialmente no par irmão-irmã? Por que, quando se pergunta, na maioria dos casos, este é um vínculo difícil? Como ultrapassar a dificuldade e avançar nesses vínculos? Como isso tudo define e molda minha alma? O que isso tem a ver com meu destino? O que quer a alma com tudo isso? Perguntas da Transferência.

É fácil notar que muitos primogênitos, em algum momento no decorrer do que chamamos Infância, pedem e fantasiam em torno de um ‘irmãozinho.’ O que está por trás desse anseio? Como compreendê-lo psicologicamente com noções e valores mais elaborados do que apenas aqueles que apontam a questão da Sombra, ou mesmo a grande questão do Outro, do Espelho? Será a alma já pedindo horizontalidade, a profundidade diversa contida na horizontalidade? Horizontalidade: um modo de aprofundar.

7. Também no corpo podemos identificar e apreciar as zonas arquetípicas da fraternidade, bem como reconhecer sua repressão, seu patologizar. Podemos facilmente imaginar que se o colo é o locus arquetípico da mãe, território para um afeto que se dá primordialmente (na imagem primordial) no nível do ventre — como acolhimento, proteção, quentura, vaso e matriz na alma de um chão, uma terra, matéria — então o locus arquetípico, primordial em sua imagem, do irmão/amigo, será talvez o abraço, como um afeto que se encerra (que está cerrado) no nível do peito, no coração do chakra do coração, anahata. Amigo do peito, irmão, camarada: falas do peito, peito que fala. Claro que há um coração no ventre, no colo, coração de mãe, um coração livre do ventre livre para amar; mas e o coração do peito que abraça, dos peitos que se tocam, se trocam, diafragmas inflamados apontando para cima,anahata? Este, o coração da fraternidade, o corpo da fraternidade, a psique no peito.

8. E, finalmente, a pergunta que percorre silenciosa as entrelinhas do que foi dito: como, de que forma constelar o eu fraterno? Se falei até agora da função fraterna, do arquétipo da fratria operando na individuação, quero terminar perguntando sobre o eu fraterno, talvez como resultado e função da obra do cultivo da alma. Termino então com minha melhor pergunta, com o que de melhor está ao meu alcance perguntar: como libertar os horizontes da alma para que finalmente ela se fraternize?

Pedra Grande, São Francisco Xavier
Junho/2001-Março/2003

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CLARK, Brian (1999). The Sibling Constellation – the astrology and psychology of sisters and brothers, Arkana: Penguin Books.

DERRIDA, Jacques (2001). Estados-da-alma da psicanálise, São Paulo:Editora Escuta.

DOWNING, Christine (1990). Psyche’s Sisters:Reimagining the Meaning of Sisterhood, New York: Continuum.

JUNG, C. G. (1965). Memories, Dreams, Reflections (1961), ed. by Aniela Jaffé, New York:Vintage Books.

HILLMAN, James (1978). The Myth of Analysis (1972), Nova York: Harper & Row.

––––—— (1999). O Livro do Puer – ensaios sobre o arquétipo do puer aeternus, São Paulo:Paulus Editora.

KEHL, Maria Rita (org.) (2000). Função Fraterna, Rio de Janeiro: Relume Dumará.

PARABOLA, The Magazine of Myth and Tradition, TWINS, Volume XIX, Number 2, May 1994.

OTTO, Walter Friedrich (2005). Os Deuses da Grécia, São Paulo: Odysseus Editora.

1 Apresentado, numa primeira versão, no 1º Encontro dos Amigos da Psicologia Arquetípica: “O Arquétipo Fraterno”, São Francisco Xavier, São Paulo, Junho de 2001; e, na presente versão, no III Congresso Latino-Americano de Psicologia Junguiana: “Desafios da Prática: o paciente e o continente”, Salvador, Bahia, Maio de 2003.

2 Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Mestre em Psicologia Clínica pela New School for Social Research de Nova York, membro analista da Associação Junguiana do Brasil (AJB) e da Associação Internacional de Psicologia Analítica (IAAP). Autor de Jung, Editora Ática e de Vôos e raízes: ensaios sobre imaginação, arte e psicologia arquetípica, Editora Ágora. Editor da Revista Cadernos Junguianos da AJB.

3 James Hillman, The Myth of Analysis (1972), Nova York: Harper & Row, 1978, p. 58, nota 56.

4 C. G. Jung, Memories, Dreams, Reflections (1961), ed. by Aniela Jaffé, New York: Vintage Books, 1965, p. 112.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s