Árvore e Alma – por Roberto Gambini

da net em 04.10.2015: http://revistas.pucsp.br/index.php/hypnos/article/viewFile/17959/13334

ARVORE E ALMA
ROBERTO GAMBINI – é analista junguiano e sociólogo.

Cometerei a ousadia de Ihes expor algo sobre que
jamais falei em público antes – idéias, pensamentos, emoções que na verdade
nascem no meu consultório em momentos de intimidade com outra
pessoa, em conversas com minha mulher ou quando ando pelas ruas da
cidade. Há algum tempo isso tudo vem ocorrendo e agora tentarei alinhavar
essas idéias e imagens pedindo sua benevolência como ouvintes.
Escolhi esse tema para ilustrar a questão central deste Simpósio abordando
uma problemática contemporânea. Na verdade, quem chegou a esta
sala vindo pela rua Cardoso de Almeida e atravessando esse corredor que
conduz à entrada da PUC já entrou em contato direto com meu tema, pois
ali se encontram seis árvores mutiladas. São cinco ameixeiras e uma amoreira
que, a pretexto de poda, encontram-se na seguinte situação: uma morreu,
outra está morrendo e as demais foram golpeadas para sempre. Aquilo não
tem mais conserto.
Esse é meu tema. Quero fazer uma reflexão sobre a relação entre
Natureza – as árvores da PUC, de Perdizes, da cidade de São Paulo, do
Brasil – e nossa alma, nossa psique. Quero problematizar e pensar uma
possível relação entre esses dois fenômenos, natureza externa e árvore e
natureza interna e psique.
No decorrer desta semana, tive por duas vezes a ocasiao de notar
aquilo que Jung chama de sincronicidade. Há três dias o jornal Folha de São
Paulo noticiou a poda e derrubada de cinco figueiras de 40 a 50 anos de
idade no Alto de Pinheiros por uma empresa contratada pela Prefeitura. A
razão disso é que uma maratona, a realizar-se em breve, possa ser
televisionada por câmeras instaladas em helicópteros, sobrevoando a área,
sem que a enorme copa dessas árvores impeça a visão do fugaz instante em
que os atletas passarão correndo pela avenida. Um momento no vídeo em
troca de décadas de vida em crescimento. E o outro caso, como vários de
vocês devem ter visto, a Eletropaulo envia grampeado à conta de luz deste
mês um folheto que diz o seguinte: “Ajude a evitar a falta de luz. A Eletropaulo
quer viver de bem com as árvores e com você. Você sabia que até 80% da
falta de luz tem como causa galhos de árvores na rede elétrica? As árvores,
assim como a rede elétrica, são essenciais para garantir a boa qualidade de
vida. No período de maio a dezembro, a Eletropaulo em conjunto com a
Prefeitura de seu município estará podando todas as árvores que ameaçam
a sua segurança e o fornecimento de energia elétrica. E só responder a
pergunta que está na sua conta de luz, pagar a conta normalmente e o
banco nos enviará sua informação.”
A pergunta é a seguinte: “Há alguma árvore em frente à sua casa que
prejudique a rede elétrica?” Nesse caso, você faz um X na conta de luz e a
estatal estará informada sobre o número de árvores que estão atrapalhando
a rede elétrica (segundo os critérios do morador) e a poda será providenciada.
No canto do panfleto há uma pequena ilustração: uma arvore e um
poste desenhado dentro dela, para demonstrar esse conflito – e a desejada
harmonia – entre fiação e árvore, tecnologia e natureza. Só que o poste está
desenhado como uma cruz. Parece que a mensagem latente é: as árvores
serão crucificadas – o que de fato já está acontecendo.
Tenho uma claríssima lembrança do momento em que a idéia de que
eu poderia dizer algo a respeito das árvores pousou em minha mente como
um passarinho, em 1984. Não tive, nem criei, portanto, essa idéia: ela pousou.
Eu subia a Avenida Rebouças uma certa manhã quando vi uma fileira
de palmeiras recém plantadas na calçada, enfeitando a fachada de um imóvel
comercial. Notei que exatamente sobre elas corriam vários fios elétricos
e naquele instante a idéia veio como frase: “estas palmeiras serão decapitadas.”
Nasceu em seguida uma vontade, a de fotografar árvores na cidade de
São Paulo, ameaçadas como estas, ou sofrendo por terem sido plantadas
em locais inadequados, ou que estão sendo agredidas, contra as quais algum
tipo de violência consciente ou inconsciente esteja sendo cometida.
Abaixo das fotos, uma frase não ecológica, jornalística, psicanalítica ou
poética, mas o que cada uma destas arvores diria se falasse.
Isso foi no ano de 1984, e como muitas vezes acontece esse projeto foi
para o arquivo morto onde ficou dormindo. Às vezes eu lembrava dele e
me comprometia a realízá-lo “algum dia”. Passaram-se onze anos. No fim
do ano passado eu conversava com um babalorixá que me falava de Oxóssi,
o senhor das matas. Nesse instante o projeto guardado penetrou na minha
mente e resolvi contá-lo a meu interlocutor, que me ouviu atentamente e ao
final apenas disse: “você deve realízá-lo”, Essas poucas palavras detonaram
meu desejo, armei a máquina fotográfica e comecei a fazer as primeiras fotos
em meu próprio bairro. E pouco a pouco como que uma compreensão
foi se desdobrando e fui dando trela, para me dar conta do sentimento que
estava tentando se manifestar. Fui entrando em empatia com as árvores.
Ou, para usar uma expressão do antropólogo Lévy-Brühl, que Jung muito
apreciava, deixei-me cair num estado de participation mystique com elas
ernprestando-lhes um pensamento, uma sensibilidade, um corpo que sofre,
um corpo que quer sentir o prazer do crescimento pleno e do florescimento,
sentir o prazer do brotar – termo que o prof. Henrique Murachco elegeu
nesta noite como o que melhor expressa a essência de Physis.
Uma idéia que parece fazer um bom sentido é a seguinte: uma árvore
é a atualização de um projeto que já se encontra completo na semente, que
a contém inteira em estado de potência. No momento em que se inicia o
processo de germinação, há uma inteligência organizadora do processo de
multiplicação celular, que fará com que o crescimento não se dê de forma
desordenada, mas vá progressivamente construindo uma das mais belas
estruturas naturais até atingir a plenitude, que é o crescimento completo da
árvore segundo suas próprias leis, sua espécie, sua individualidade – não
havendo portanto jamais duas árvores iguais, razão pela qual é tão convidativo
compará-Ias a seres humanos.
Na antiga tradição mitológica existem muitas versões da árvore da
vida, da árvore do indivíduo, da árvore da sabedoria, da árvore do conhecimento
do bem e do mal, da árvore do sacrifício, da verdade, da justiça, da
felicidade, da iluminação, da árvore alquímica, filosófica, cabalística, cósmica,
eixo do mundo. Há tantas. Há uma identidade simbólica entre árvore e
indivíduo e sua alma.
Deixei-me então impressionar por essa idéia de crescimento pleno e
quando vejo o que acontece ao nosso redor – e acabamos de ouvir a ameaça
que vem por aí – o que podemos então pensar? Podemos pensar que
estamos cada vez mais rodeados de manifestações da mutilação do
crescimento pleno. Por que isso? Porque a maneira como é feita a poda das
arvores impede, irremediavelmente, que refloresçam e reconstituam o que
foi amputado. Um galho maduro cortado não se refaz nunca mais. É
possível que surjam brotos secundários, brotos que despontam desordenadamente
em torno da área decepada – numa das ameixeiras desgalhadas
na entrada da PUC pode-se ver um pobre broto solitário tentando refazer a
vida ameaçada, mas ele não conseguirá, a árvore não irá se refazer através
do esforço daquele broto. Vejo então aparecerem cada vez mais na cidade
de São Paulo símbolos vivos do crescimento abortado, da impossibílitação
do desenvolvimento pleno. E sem nos apercebermos, nossos filhos vão
crescendo cercados de mementos, de pequenos toques, de rápidos lembretes,
de símbolos a nos indicarem que o crescimento é indesejável.
Porque acredito que viceja entre nós o que eu chamaria de mito da poda,
mais ou menos assim: “é bom para a árvore. Se for podada, ela crescerá
melhor.” Mas como lembra José Lutzenberger, se essa prática, aliás pouco
conhecida em outras partes do mundo, fosse botanicamente correta, as
árvores não podadas não cresceriam bem e não estariam saudáveis – o que
é falso, porque qualquer árvore em estado natural pode atingir sua forma
plena. Se assim não fosse, os bosques naturais e as florestas desapareceriam
sozinhos. A poda foi “descoberta” pelo homem mesopotâmico ou mediterrâneo
observando cabras a roerem brotos de uma videira ou oliveira e seu posterior
crescimento vicejante. Com o tempo, a poda virou uma técnica, um
conhecimento – mas sempre de árvores frutíferas, que assim crescem mais
harmoniosamente, com melhor insolação e aeração, produzindo mais frutos.
Essa idéia generalizou se, atingindo as árvores não frutíferas. O que
me parece estar na raiz desse processo é um fenômeno de projeção. Nós
todos estamos projetando nas arvores algo que nos incomoda muito. Aliás,
dizer “nos projetamos” é incorreto, nós não projetamos nada. Algo que está
em nosso inconsciente se projeta sobre as árvores, e aí surge essa história
de poda. Quero crer que é um complexo que está sendo projetado nas
árvores, o complexo de crescimento: nosso, enquanto indivíduos, e o de
nossa sociedade. Com isso chego à constatação de um drama. Somos um
país do Terceiro Mundo. A questão do crescimento é central para nós,
porque não sabemos, não conseguimos crescer de modo a superar essa
circunstância histórica. Miramo-nos em espelhos inadequados. Nosso crescimento
fica encruado, não há sonho, não há projeto. Mas nele reside nossa
esperança de transcender um estado de atraso perante a ordem internacional.
E bom pensar que nas próximas décadas talvez ocorra um despertar
desse desejo, ou desse sonho de desenvolvimento.
Ora, como entendo essa possibilidade de despertar o arquétipo de
crescimento quando, simbolicamente, o que fazemos é mutilá-lo? Defendo
portanto a idéia de que as árvores mutiladas são o espelho de nossa alma.
Não estamos vendo apenas árvores. Vemos, como num espelho, uma
realidade não perceptível diretamente, um estado nosso de mutilação interior.
Porque não estamos conectados com a fonte de nossa vitalidade. E
quando digo nós, digo nós brasileiros. Se fosse representar o Brasil como
uma árvore, eu veria sérios problemas nas raízes. As raízes da árvore Brasil
não estão podendo penetrar naqueles níveis profundos, obscuros, inatingíveis
por outros meios onde se encontra a seiva, captável através de filamentos,
de pelos, de extremidades finíssimas que se estendem em ampla circunferência.
Vista de cima, esta árvore configura uma enorme mandala, com
raios em todas as direções. Mas no solo brasileiro, no solo psíquico brasileiro,
essas raízes estão impedidas de atingir o leito onde jaz nossa alma ancestral.
Que não começou em 1500.
Começou então quando? Há dois mil, vinte mil, cinqüenta mil anos?
Mais? É uma alma que foi lentamente se formando através da sucessão de
gerações e gerações de seres humanos que viveram em nosso solo e que no
transcorrer de silenciosos e ignorados séculos criaram cultura, criaram religião,
criaram mitos, linguagens, formas de organização social, criaram uma
sabedoria – que foi, desde o inicio de nossa história branca, negada, golpeada
e destruída pelo elemento colonizador da terra brasileira.
Considero essa alma ancestral do Brasil como um repositório de enorme
importância para alimentar, a partir de uma raiz profunda, o fortalecimento
de nossa identidade. Creio que isso é fundamental para que possamos avançar
na questão do subdesenvolvimento – mais, talvez, do que movimentos
na esfera política, econômica, constitucional, social ou o que quer que seja.
Vejo portanto problemas na raiz. Vejo problemas na terra, metaforicamente
falando. Compactada demais, nela não entra ar. Ar é espirito, “logos”,
idéia. Não entram idéias, parece que o “solo” brasileiro está tão pisado, tão
comprimido que não entra ar novo, um pneuma renovador, para que da
terra e do ar resulte um ecossistema favorável à circulação e captação dessa
seiva e sua transmissão ao tronco.
O tronco é a nossa união. União de um povo, quando dizemos “nós”.
O tronco faz derivar dessas raízes fincadas no inconsciente coletivo uma
expansão horizontal, através da multiplicação dos galhos, que são nossas
criações, a cultura, o conhecimento, as realizações de todos os tempos, a
materialização do ser e do fazer brasileiros. Isso são os galhos, até chegar
ao detalhamento e diferenciação representados pelas folhas, que garantem
a sobrevivência e a reprodução do todo através das sementes. As folhas da
nossa árvore estão em parte secas: nossa miséria, nossa mortalidade infantil,
nossa fome. E suas flores, frutos e sementes, muitas vezes encruam no
nascedouro.
De volta às ruas, o que nelas vejo é um conflito acirrado entre árvore
e poste, este sem dúvida o vencedor. Duas figuras interessantes de se pensar.
Por que é que um poste, seus fios e a eletricidade que transmitem
devam necessariamente ter sempre a primazia sobre a árvore? Amplificando
um pouco e rebatendo sobre um plano mais fundo essa questão, chegaremos
a uma compreensão de nossa civilização em seu ato de privilegiar a
racionalidade e a tecnologia sobre a natureza e a alma. Esse mal tem sido
diagnosticado por algumas boas cabeças pensantes, de c.G. Jung a James
Hillman, como a doença atual da anima mundi. A alma do mundo, negada,
adoece. O poste merece mais atenção e tem mais valor do que a árvore
ou a alma. O raciocínio tecnocrático quantifica em termos monetários o
custo de manutenção de um poste; mas é chocante pensar que não se sabe
quanto custa uma árvore. Quanto vale uma árvore de 50 anos em termos
monetários? Quanto vale sua sombra? Apenas uma indicação: estudos recentes
apontam um significativo aumento do número de passarinhos em
São Paulo. Surpresa para quem já se habitua à terrível idéia da degradação
da qualidade de vida e do tecido urbano. Pois eles migram como os sem
terra, fugindo da desarborização rural e da cana-de-açúcar e suas queimadas,
migram para esta zona encoberta por uma calota de poluição onde,
apesar de tudo, há árvores. Aqui temos, pelo menos, um augúrio.
A revista Veja publicou uma reportagem por ocasião das grandes chuvas
do último verão (996), segundo a qual chegam a cair 80 árvores num
só dia de vendaval – o que a propósito é reacionariamente usado como
argumento a favor da poda: a árvore como perigo permanente. Ora, elas
caem porque suas raízes não podem se aprofundar num solo compactado
revestido de cimento e asfalto, sobre uma teia de esgotos e dutos de vários
tipos. A árvore é naturalmente capaz de se enraizar, o problema é que seu
plantio é caótico, espécimens de grande porte são plantados sob a rede
elétrica ou em outros locais inadequados. Reina a mais absoluta falta de
interesse por descobrir-se o que de fato está acontecendo. A revista diz que
em São Paulo há 10 milhões de árvores, mas o cálculo é amostral e sem
critério. Nem a Prefeitura nem ninguém sabe quantas árvores há, mas há
sim um patrimõnio inestimável. Se todas as árvores forem cortadas, não
teremos outras no mês que vem. Trata-se de um patrimônio indiscriminado
quanto a seu valor, que é dilapidado sem responsabilidade assumida,
característica, aliás, bem nossa. Numa era tecnológica há valores ignorados
como se não o fossem.
Para estimular um pouco a reflexão, li alguns artigos contidos nos
anais de um simpósio de arborização urbana – existe isso! – e havia um, muito
bom, sobre essa história em São Paulo. Há cento e poucos anos, esta que
já é talvez a segunda maior cidade do mundo não passava de uma vila que
se animava com a passagem de tropas de burros que subiam a serra do Mar
rumo ao interior. Nas cidades coloniais brasileiras não se plantava árvores,
entre outras coisas porque não havia meio-fio, a fachada das casas delimitando
a largura de apertadas ruas de terra. Não havia espaço para árvores e
além disso se julgava que sua sombra era maléfica, causando maleita ou sarna
nos escravos, ou impedindo que o chão de terra secasse após a chuva.
É bom ter em mente o seguinte fato: as primeiras cidades brasileiras foram
conquistadas do mato e nesse espaço recém aberto ruas limpas de terra
indicam progresso e civilização. A presença da árvore seria assim um lembrete
da indesejável vizinhança do mato, a vergonha das origens, o horror
da regressão a um passado rejeitado. Talvez até hoje as árvores ainda carreguem
essa marca no inconsciente arcaico dos cidadãos contemporâneos.
A idéia de que a árvore é benéfica vem do Romantismo alemão e
francês. O Jardim Botânico e o Passeio Público do Rio de Janeiro – este
réplica do lisboeta – são as primeiras tentativas de reimplantação da natureza
no espaço desmatado e edificado. O casamento do nosso imperador foi
motivo de arborização decorativa de alamedas cariocas. Em São Paulo, esta
decorre inicialmente da ação de particulares, as chácaras sombreadas dos
barões do café, mais tarde incorporadas à malha urbana em rápida expansão.
Posteriomente, com o movimento imigratório, são plantadas árvores
que lembram terras deixadas para trás. Nosso patrimônio arborístico foi se
fazendo assim dessa maneira não muito bem pensada, como é o próprio
crescimento da cidade, e até hoje não está medido, nem valorizado, nem
entendido, e já ameaçado de brutal mutilação.
Tentarei agora transmitir um pouco do que penso através de algumas
fotografias. Esta primeira, por exemplo, uma árvore localizada ao lado do
estádio do Pacaembu (1). Esse modelo de poda, que visa abrir espaço para
a passagem da fiação, já aparece em vários bairros. A copa é estuprada.
Penetra-se em seu interior, cava-se um oco em seu ventre. Aqui se percebe
bem a mutilação de uma arquitetura, de um plano de crescimento. Se os
galhos cortados já forem de uma certa idade, a estrutura do todo se perde e
nunca mais será refeita. Segundo os técnicos no assunto, há três tipos de
poda: de formação, de manutenção e de segurança. A primeira, deve ser
feita quando a árvore é nova, eliminando-se brotos ou galhos indesejáveis
do ponto de vista de um bom equilíbrio do todo. O que vemos aqui não é
isso, porque esta, como outras, já está formada. Trata-se de uma poda de
segurança, porque essas árvores – usando uma expressão junguiana – estão
na segunda metade da vida; a mutilação ocorrida nessa fase não tem mais
remédio. Já passou o tempo da reparação.
Neste outro caso (2) dá para ver bem que galhos maduros foram cortados,
e há brotos. Alguém que acredite no mito da poda dirá: “olha aí, ela
não morreu, ela está brotando de novo”. Os brotos crescem em todas as
direções, como numa ânsia de recomposição, mas seu esforço vegetativo
não poderá recolocar a árvore no caminho perdido de evolução rumo a sua
forma plena.
Este chorão (3) está ao lado da Fundação Armando Álvares Penteado,
(FAAP), também no Pacaembú. Conseguirá alguém imaginar que ele possa
crescer de novo e refazer o que perdeu?
Esta imponente figueira (4) é de Higienópolis. A foto é anterior a uma
poda recente que a mutilou. Minha intenção foi mostrar que sua base, com
essas belíssimas raízes, há anos é usada como depósito de lixo e entulho
não removíveis pelo serviço municipal de coleta. Por que essa associação
entre raiz e dejeto quando, desde a mais remota Antigüidade, o lugar das
raízes de uma grande árvore é considerado um altar? É comum na Índia verse
homenagens a Shiva ao pé das árvores: o tridente de ferro, uma pedra
pintada de cor de açafrão, guirlandas de flores, lamparinas votivas, porque
esse é um lugar sagrado, próprio para devoção e oferendas, é um local de
vivências religiosas. Buda finalmente encontrou a iluminação meditando
aos pés de uma Ficus Religiosa. Mas entre nós ocorre uma absoluta perda
do sentido de sacralidade dos espaços. Cheguei a ver algumas vezes
oferendas religiosas ao pé dessa árvore, segundo a tradição das religiões
afro-brasíleíras, Mas não se faz oferendas a entidades ou orixás ao lado de
sacos de lixo e entulho de construções!
O que interessa notar nesta poda (5), de resto igual a todas as demais,
é que não há rede elétrica alguma em sua vizinhança. Quem a podou do
lado da rua onde havia, aproveitou e podou do outro, onde não havia fio
nem pretexto.
Esta árvore (6), no Jardim Europa, ficou assim com dois braços abertos,
como a querer dizer algo que ninguém ouve.
Esta outra (7), ao lado da Praça Buenos Aires, foi podada de maneira tão
maluca que não se percebe nenhuma intenção, digamos, corretiva. Feitos a
êsmo, os cortes a deixaram não apenas deformada, mas sem forma, um aleijão.

(OBS; TIVEMOS PROBLEMAS PARA CARREGAR AS IMAGENS, PEDIMOS QUE PARA ACESSÁ-LAS, ACESSEM A PÁGINA CITADA NO INÍCIO DA PUBLICAÇÃO, ONDE O ARTIGO ESTÁ POSTADO)

Este jacarandá paulista (8) fica na avenida Dr. Arnaldo, em frente à
Faculdade de Higiene e Saúde Pública, e deve ser da época da abertura
dessa via e da construção do prédio. Vê-se que havia um projeto urbanístico
nessa área, que previa o plantio. Esta, foi-se.
Esta árvore de pequeno porte (9) fica em frente ao meu local de trabalho.
Não me deixa esquecer.
Este arbusto (0), numa alameda dos elegantes Jardins, mal consegue
manter-se em pé, mas mesmo assim alguém achou que seria um bom
cabide para um saco de lixo.
A poda final. O que resta já não pode mais viver.
Árvore e alma, irmãs, espelhos uma da outra,
diante de olhos que não querem ver.

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