Leitura Simbólica do momento denominado “Cultura da Intolerância” – por Elza Maria Lopes

Leitura Simbólica do momento denominado “Cultura da Intolerância”

Elza Maria Lopes

elzamarialopes@gmail.com

Tolerar vem do latim, significa suportar, sua raiz é derivada do escandinavo “tholler”, sendo esta: uma pequena haste que se prende na borda de embarcações miúdas para servir de apoio ao remo. Portanto, derivando temos; Intolerar ,intolerare, insuportável.

A atitude de intolerância e estranhamento diante do diferente é algo que faz parte da natureza animal, dela depende a sobrevivência da espécie, sendo, portanto a intolerância arquetípica.

A tolerância é uma tarefa civilizatória, não é ao acaso que esteja nos primeiros capítulos da bíblia, Gênesis IV, mais precisamente no mito de Caim e Abel.

O mito:

Caim não suportou Abel ter sido escolhido por Deus. Caim era agricultor e Abel pastor. Caim um dia pegou uns produtos da terra e os ofereceu a Deus.Abel pegou o melhor carneiro de seu rebanho matou-o, e ofereceu as melhores partes a Deus. Deus ficou contente com Abel e rejeitou Caim. Caim fechou a cara ficou carrancudo. Deus perguntou: Por que está assim? Se tivesse feito o que era para ser feito você estaria sorrindo. Um dia Caim disse a Abel: vamos até o campo e lá matou Abel. Caim não suportou o fato de Deus ter escolhido as carnes de Abel. “Deus preferiu carnes e não ervas e verduras!” A intolerância de Caim o levou a assassinar Abel. O que será que a Bíblia quer nos dizer?

Que a grande tarefa civilizatória é pacificar os irmãos?

A tolerância é algo a ser desenvolvido pela civilização?

Hoje em dia temos assistido à manifestação da atitude de intolerância aumentar, e se apresentar nas mais variadas formas, por exemplo; a xenofobia que se tornou um fenômeno generalizado nos últimos tempos. As minorias raciais, religiosas e culturais se tornaram alvos fáceis de desprezos, desconfianças e ódios. E, mais dependendo de variáveis econômicas, sociais e políticas, as maiorias tendem a expulsar aqueles que além de não serem parecidos, são mais fracos. Os estrangeiros diferentes de nós, com seus costumes, comidas, músicas, festas, e gozos que quanto mais explícitos mais esquisitos nos parece.

Hoje estar com o próximo não familiar é um desafio constante. Uma vez que os exilados, expatriados, e retirantes são vistos como invasores pela população local que não os convidou. No imaginário do povo esse “outro” semelhante, porém diferente, pode ser um adversário, um usurpador, e ameaça ocupar seu lugar na sua realidade. Por isso sua presença é vista e sentida como ameaçadora.Esse “outro”nunca é visto como alguém que vem para contribuir, acrescentar ou ensinar.Hoje vem principalmente para ser ajudado.

No plano do coletivo quem não se mistura, isto é, não faz parte da massa, não é igual, é um inimigo. O coletivo pede coesão, as peculiaridades precisam ser extirpadas, e é assim que as barbáries são justificadas.

Temos também nos dias atuais atitudes de intolerância bastante comuns como: na homofobia, e nas ideologias religiosas e ou políticas, na quebra de contratos de quaisquer espécies, ou até num narcisista que não encontra seu espelho. Enfim, os exemplos são inúmeros, assim como são inúmeros os setores da sociedade que vêm estudando a intolerância que aumenta dia a dia.

Existem hoje, grupos nacionais e internacionais formado por antropólogos, filósofos e analistas que se dedicam ao estudo do que se denominou “cultura da Intolerância” os quais tentam entender as razões para essa atitude cada vez mais comum que se espalha pelo mundo.

Baraitser e Frosh, dois analistas da escola de Londres, membros de um grupo internacional que estudam as raízes da intolerância, falam da importância do primeiro momento em que nos deparamos com o outro em nossas vidas, e da necessidade da privacidade para criação de um espaço interno. O que nos permitirá no futuro termos uma capacidade de reflexão mais profunda, a qual será uma das bases para a criação de uma sociedade potencialmente tolerante. Para que isso possa ocorrer precisamos ser amados sem ser dominados, ou seja, não sermos “colonizados em nosso espaço mental”.

Baraitser e Frosh exemplificam essa situação com o trecho de um romance, de uma autora inglesa, Antonia Byatt, chamado Still Life, onde a autora descreve quando a personagem, Stephanie Potter dá à luz a seu primeiro filho:

Havia seu corpo, silencioso, usado, em repouso: havia sua mente, livre, clara, brilhante: havia o menino e seus olhos, vendo o quê? E êxtase. Coisas doeriam quando essa luz esmaecesse. O menino mudaria.Mas agora,no sol ela o reconhecia, e reconhecia que ela não conhecia,e nunca o tinha visto, e o amado, no novo ar brilhante com uma simplicidade que ela nunca tinha esperado conhecer. ”Você”, ela disse a ele,pela primeira vez sobre pele no ar exterior,que era quente e brilhante, ”você”

(Byatt, Still Life)

Mais tarde numa conversa com o marido:

Ele: engraçado, nunca pensei que ele fosse alguém.

Ela: nem eu, mas ele é não é?

Baraitser e Frosh foram entrevistar Byatt, a autora, e descobriram que o relato não se tratava apenas da imaginação dela, mas sim de uma narrativa pessoal de um episódio da vida da escritora. E, então esse relato poderia lhes servir como modelo ideal para o que procuravam:

Tinham ali uma mãe que amava seu filho sem dominá-lo,

“sem colonizar o espaço mental da criança”

Stepfanie;a personagem reconhecia a diferença entre ambos,em meio ao turbilhão de sentimentos que vivia naquele momento, manteve sua autonomia e pôde estar ciente do outro, e ver nele um conjunto de desdobramentos futuros.Ela o reconheceu e reconheceu que não o conhecia, que nunca o tinha visto.Stepfanie ama seu filho por meio da grande diferença. Aqui, a grande importância da alteridade do bebê é confirmada, e ela sente por ele um amor simples e direto.

Stephanie propiciou privacidade a seu bebê, o que lhe permitiu construir um espaço mental interno, a não “colonização de seu espaço mental” é o que lhe capacitará a pensar por si próprio, segundo Baraitser e Frosh.

Pensar em termos de espaço interno, segundo esses analistas, talvez seja a posse de algo sagrado, o que nos permite sentir a profundidade e se envolver com nossa reflexividade, o que é de outra forma tão difícil de sustentar. Sagrado aqui, seria algo de valor intrínseco, difícil de tocar, transcendente.

Para Baraitser e Frosh esse espaço interior sagrado oferecerá condições para formação de um self seguro que virá do amor benigno. O amor duradouro que permite que a criança interiorize uma visão de mundo como essencialmente benigna capaz de sustentar e conter a destrutividade, e oferecer um recipiente confiável e robusto para a ansiedade. Essa benevolência do mundo exterior permitirá que riscos sejam tomados no mundo interior. Sem isso não há suporte no qual o mundo interno possa se apoiar. Quando o ambiente não oferece condições adequadas para a formação de um self seguro, a vida interior é atormentada pela sensação de que um sentimento muito forte, um impulso muito poderoso levará o mundo ao colapso, destruindo tudo inclusive o eu. De forma que no cerce da subjetividade precisa existir um coração batendo forte que poderá ir do ódio ao amor. Em qualquer caso um pode transformar-se no outro, pois os dois estão baseados na premissa de que as coisas importam e principalmente os relacionamentos importam.

Então, o sagrado torna-se uma chama, um altar de sentimento ligado ao sacrifício, (que em sua forma hebraica denota a condição de trazer para perto) que mantém algo vivo.

A conclusão de Baraitser e Frosh é de que para pensar é necessário um mundo interior em que algo é mantido sagrado, algum pulsar deve ser permitido num espaço interno. E, que deve ser robusto o suficiente para sobreviver, o que não é fácil quando se tem que operar num ambiente psicossocial em que existam forças internas e externas conducentes a dissipação e destruição.

A maternidade narrada por Byatt para Baraitser e Frosh serve de modelo de uma mãe ideal que não coloniza o “espaço mental de seu filho”. Segundo os analistas uma das condições primárias para se criar uma sociedade potencialmente mais reflexiva e mais tolerante não como um único caminho como um modelo.

Mais adiante, gostaria de voltar a essa questão de “colonização do espaço mental”.

A tolerância se desenvolve a partir do momento que a nossa segurança aumenta e nossa ansiedade e nossos medos diminuem. A configuração do outro em nossas vidas é uma condição básica para o exercício da tolerância. O que se inicia em nossos vínculos primários.

Vou trazer um relato de Jung, do C.W.17 em Desenvolvimento da Personalidade, onde ele está diferenciando a função do pensar do princípio da sexualidade. Aqui eu quero usar esse relato para ressaltar a configuração do outro a partir de nossos vínculos primários. Além do desenvolvimento do pensamento espontâneo, como da importância das explicações corretas para a configuração do outro como alguém de confiança, o que será um exercício no desenvolvimento da tolerância.

Diz Jung: Ser o pensar uma atividade espontânea, que nasce com a criança e se desenvolve independente, apesar do que recebe do ambiente. Muitas vezes com uma necessidade de emancipar-se da realidade dos fatos, e de construir um mundo próprio. Ressalta que não se deve dar a criança explicações erradas, as quais serão fontes de desconfiança. E que também, não se deve insistir na explicação concreta, pois isso abafará o desenvolvimento livre do pensamento, e forçará a criança a assumir uma forma concreta que impedirá qualquer desenvolvimento posterior.

Relato: trata-se de uma menininha de três anos, a qual ele dá o nome de Aninha. Uma criança viva,intuitiva,com muitos recursos intelectuais e um tanto precoce para a idade. Que nunca havia ficado doente seriamente, nem apresentado sintomas nervosos. Por volta dos três anos vinha cercando a mãe sobre a origem dos bebês, com perguntas do tipo: Se alguém poderia ter uma boneca viva, talvez um irmãozinho e outras tantas perguntas nesse tema. As perguntas eram feitas de forma espontânea em meio a brincadeiras,de forma que os pais respondiam da mesma forma,sem maiores preocupações. Nessa ocasião teve o seguinte diálogo com a avó:

Aninha: por que seus olhos são tão murchinhos?

Avó: porque sou velha

Aninha: mais vais ficar jovem de novo?Não é?

Avó: bem sabes que não, vou ficar cada vez mais velha depois vou morrer.

Aninha: Está bem, e depois?

Avó: Então me torno anjo

Aninha: E depois disso, vais ser uma criancinha pequena?

Parece que Aninha aqui consegue resolver parte da questão que a incomodava. Certa vez haviam lhe dito que os bebês eram trazidos pela cegonha. E ouviu também algo em que acreditava mais que os bebês eram anjos, e que a cegonha os trazia para baixo.

Nessa conversa com a avó Aninha então parece conseguir formular:

“Quando a pessoa morre vira anjo e depois vira uma criancinha outra vez”.

Alguns meses depois a mãe dá à luz ao irmãozinho. Aninha tem uma reação que todos estranham, fica desconfiada, distante da mãe e não se alegra com a chegada do irmãozinho. Até que pergunta a mãe: Agora não devias morrer? Aí se torna claro a formulação que Aninha havia feito. A mãe não morreu! Então o enigma continua!

Aninha permaneceu estranha e distante da mãe. Até um dia explodir num ataque de raiva com a ama do irmão que também a ajudava.Depois disso se recolheu mantendo um ar tristonho e sonhador.Passava um longo tempo embaixo da mesa cantarolando canções incompreensíveis e que exprimiam um sentimento doloroso.

As divagações tristonhas, diz Jung, exprimiam parte do amor que antes pertenciam ao objeto real, e que deveriam mesmo pertencer a tal objeto agora se introverteu e pertencem agora ao próprio sujeito. Daí o aumento da atividade imaginativa.

Nessa fase Aninha fica desobediente, ou agressiva com a mãe, repetia inúmeras vezes que a mãe mentia, insistia nessa questão, que a mãe mentia para ela! Noutras vezes continuava cercando a mãe com a questão dos bebês. Perguntava por que a mãe tem um bebê diferente da forma que a ama teve um bebê?E questões e mais questões são feitas o dia todo e todas feitas de forma displicente e mais ou menos indiretas. Aninha então não é levada a sério e não consegue as respostas que quer,sabe que escondem algo dela.Então deve ser algo muito perigoso!Pensa a menina.

Recorre aos gritos noturnos para forçar o amor da mãe, a qual tem que passar as noites a seu lado. Um dia se comentou sobre um vulcão.Aninha interessou-se muito;queria saber como o chão tremeu, e as casas caíram, e as pessoas morreram, com isso apareceu um medo intenso que o tremor acontecesse ali,que sua casa caísse. Quando saíam queria saber se a casa estaria lá quando voltassem. Viu uma vez um bloco de cimento na rua e queria saber se era do terremoto.Na hora de dormir precisavam lhe garantir que o terremoto não chegaria enquanto dormissem. As tentativas para tranqüilizá-la foram inúmeras. Disseram lhe que só havia terremotos onde havia vulcões. Aninha então passou a se interessar por vulcões e a querer saber tudo sobre eles. Passava horas a fio na biblioteca do pai folheando Atlas e figuras de vulcões. Seu medo se transformava em interesse pela ciência,o que era muito precoce! A raiz do desejo pela ciência era o medo, o medo era a libido introvertida. Essa libido se dirigia para uma série de perguntas feitas todos os dias. Por exemplo: por que S(irmã mais nova é mais nova do que ela? Ou Por que o pequeno Fritz chegou depois? Onde estava antes?

O pai percebeu e pediu à mãe que explicasse tudo a menina. Dias depois as perguntas sobre a cegonha voltaram e a mãe disse que essa estória da cegonha não era bem assim, explicou que os bebês nasciam dentro da barriga da mãe que nem as plantinhas e iam crescendo e depois saiam. Aninha ouviu tudo sem grande surpresa.Depois perguntou:bem, aí saem assim só, por si mesmo?

Mãe: sim

Aninha: mas sabem andar ainda!

Irmã: saem engatinhando

Aninha: aponta para o peito da mãe e diz: saem por aí?

De repente diz: já sei a cegonha foi buscar!

A partir desse dia voltou a dormir tranquilamente. O medo do terremoto desapareceu, mas perguntava a todos se tinham saído da barriga de suas mães. Precisava conferir se essa estória era realmente verdadeira.

Aninha tinha agora outra questão para investigar: Por onde saem os bebês?A menina fica às voltas com essa questão até conseguir sua resposta e da mesma maneira, Aninha chega sorrateira, pergunta durante as brincadeiras de maneira espontânea cercando a mãe até conseguir a resposta desejada. Dessa vez encenou um parto com sua boneca, depois com um ursinho de pelúcia.

E aí vem sua outra questão; essa parece ser bem mais difícil: Como se fazem os bebês?E qual é a participação do pai na estória?

Aninha passou semanas com a questão: como os bebês entram no corpo da mãe?Sempre que obtinha respostas satisfatórias sossegava por um período. Houve um período de cinco meses de sossego.Até um dia que Aninha ficou horas observando o jardineiro cavar um buraco no jardim. Ele a colocou lá dentro para brincar com ela. Aninha se pôs a gritar e disse que ele queria matá-la. À noite sonhou que um trem passava em cima da casa e a derrubou.

A desconfiança agora se volta contra o pai. O que ele estaria tramando em segredo?O interesse de Aninha pelo pai assume uma tonalidade de carinho e curiosidade, difícil de descrever diz Jung, porém, visível nos olhos de Aninha.

Ela passa horas ajudando o jardineiro a semear a grama no jardim, e um dia vai até a mãe e pergunta: Como os olhos crescem dentro da cabeça?

A mãe lhe sai com uma resposta típica: não sei, pergunta para seu pai. E é o que Aninha faz. O pai diz que não crescem, faz em parte da cabeça, assim com o nariz, a boca, as orelhas também crescem assim.

Aninha: e os cabelos?

Pai: também

Aninha: mas os cabelos também? Como é que o ratinho vem a esse mundo peladinhos? Onde estavam os pelos antes?Será que a gente tem que botar sementinhas para isso?

Pai: Não, bem sabes é verdade que os pelos nascem de grãozinhos tão pequenos como as sementes, mas já estavam lá antes na pele, e ninguém os semeou. O pai percebeu onde a menina queria chegar, ela o encurralou!

A seguir ela perguntou: Como o pequeno Fritz entrou na mamãe? Quem é que fez com que ficasse colado lá dentro? E por onde ele saiu?

O pai resolveu começar pela última pergunta. Pensa um pouco. Esta vendo o Fritz é um garoto que se tornará um homem, e as meninas se tornarão mulheres. Só as mulheres podem ter filhos, os homens não.Agora pensa mais um pouco,por onde o pequeno Fritz deve ter saído?

Aninha sorri contente e excitada ao mesmo tempo, e diz apontando para seus órgãos sexuais: então foi por aqui que ele saiu?

Pai: de certo que sim; e, sem dúvida, já tinhas pensado nisso

Aninha: (apressada) Então como foi que o Fritz entrou na mamãe?Alguém o colocou lá? Foi colocada uma sementinha?

Pai: Disse que o pai era como o jardineiro, e que a mãe era como a terra. O pai colocava a sementinha na mãe e ela ia crescendo, e se tornava um bebê. Aninha ouviu tudo atentamente, sentiu-se satisfeita com a resposta, dormiu bem à noite. No dia seguinte não podia deixar de se vingar da mãe,

Disse:

Papai me contou tudo: já sei de onde veio o pequeno Fritz: a cegonha foi buscá-lo lá no céu. A mãe respondeu: tenho certeza que não foi isso que seu pai lhe disse. Aninha explode numa risada e sai correndo.

Aninha foi formulando seu pensamento independente das respostas que recebia. Quando não conseguia as respostas que em algum nível já sabia, e que era a verdade que buscava,se recolhia,apresentava medos intensos, ficava agressiva e divagava como já vimos anteriormente. Quando consegue a verdade, fica com ela para si, e prefere continuar contando à fantasia que contavam para ela.

Aninha só precisava da verdade para ter segurança. Dessa forma o “outro” vai se configurando em nossas vidas de maneira mais ou menos confiável, a partir de nossos vínculos primários que serão as matrizes do “outro” para nós.

Pais como os de Aninha que propiciam aos filhos a formação de vínculos positivos onde o “outro” é vivenciado como alguém de confiança, e não se constitui uma ameaça da qual precisamos nos defender. E, mães como Stephanie, ou Byatt, que é a verdadeira Stephanie, que propicia ao filho um “território interno livre de colonização” que tornará o filho capaz de pensar por si próprio com uma identidade firme são as condições primárias básicas para o desenvolvimento potencial de uma sociedade tolerante.

Agora voltando à questão da “colonização do espaço interno” penso que podemos ampliar o uso desse conceito, e pensar nessa colonização do nosso espaço interno ao longo de nossas vidas.

Além dos grupos familiares, as tentativas de “colonizar nosso território interno” são as mais variadas possíveis; governos, sistemas educacionais, mídias, grupos sociais e religiosos. E assim como os territórios de povos colonizados ficamos sem identidade, nossa força vai sendo minada.Vamos adotando valores sem muitas vezes perceber que nem sempre fazem sentido para nós.Sentimo-nos inseguros, e uma tensão paira no ar. Reagimos com violência a qualquer toque que é visto como ataque. Não acreditamos mais em nosso sistema social e político que nos parece ser inoperante. É como se vivêssemos num mundo do salve-se quem puder.Tudo parece ser perigoso!

Quanto mais ameaçados nos sentirmos e mais medo tivermos, maior será nossa reação de violência, portanto será maior nossa intolerância.

Jung diz que quando estamos horrorizados, aflitos ou caóticos é que chamamos por um salvador. E, que em vários sistemas gnósticos, salvador é aquele que estabelece as fronteiras. Aquele que nos dá a idéia clara de onde começamos e onde terminamos.

Certa vez, diz Jung, Schopenhauer, passeava nos jardins de Frankfurt, imerso em seus pensamentos, caminhou para dentro dos canteiros de flores e um jardineiro o chamou: Ei? O que você está fazendo aí? Quem é você? Ah! Aí está exatamente! Se pelo menos eu o soubesse!

O maior medo do inconsciente é que realmente esqueçamos quem realmente somos diz Jung.

Será que essas fronteiras hoje são claras para nós?com tanta colonização!

E o nosso sagrado? Onde está o nosso sagrado hoje?

O sagrado hoje pode ser uma ideologia religiosa ou política, um carro de luxo, um cargo político ou até um corpo perfeito. E por isso, às vezes chegamos à dar nossa vida, ou reagimos com violência desmedida na iminência da perda desse nosso sagrado.

O aumento do medo pode ser outro responsável pelo aumento das atitudes de intolerância. O qual pode estar relacionado com as grandes mudanças do século XX, e ainda, parece que continuarão no século XXI. Dentre elas podemos destacar; as novas tecnologias, as novas constituições das famílias, inovações da medicina e tantas outras. Pois queiramos ou não, o ser humano   não aceita mudanças sem reagir primeiramente se defendendo, ou seja, sendo intolerante.

Os últimos estudos demonstram que os vínculos primários tem deixado a desejar. Sem um salvador, sem um sagrado, com um mundo interno colonizado usando o conceito de Baraitser e Frosh, estendido, dois séculos de grandes transformações o medo, a insegurança elevados geram atitudes de intolerância de variadas formas em variados setores.

No combate a intolerância nossa tarefa é e sempre foi desde os primórdios, o exercício da tolerância uma vez que, a intolerância é inerente ao ser humano.

Bibliografia

Baraitser, L. e Frosh, S., in: Raízes da Intolerância, org. João AngeloFantini, ed. Eduscar, 1ed, 2014.

Cesararotto, A.O. in:Raízes da Intolerância, org.JoãoAngeloFantini, Ed.Edufscar,São Carlos,1 ed.,2014

Cunha, G.A. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 4ed. Ed.Lexikon, 2015.

Jung, C.G. CW, 17, O Desenvolvimento da Personalidade, 12 Ed, Ed. Vozes, Petrópolis, 1972

Jung,C.G., Seminários- Sobre análise dos sonhos

Notas dos seminários dado em 1928-1930, ed. Vozes, 1ed. Trad.2014.

Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, 2011

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